Topo

Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


'Não queria focar apenas na crise': como artesanato ajudou saúde de médica

Fazer sabonetes artesanais ajudou Nicolle a lidar melhor com o atendimento médico na linha de frente contra a covid-19 - Crédito: arquivo pessoal
Fazer sabonetes artesanais ajudou Nicolle a lidar melhor com o atendimento médico na linha de frente contra a covid-19 Imagem: Crédito: arquivo pessoal

Renata Turbiani

Colaboração para o VivaBem

05/06/2020 04h00

Cardiologista do esporte, a médica Nicolle Farias de Queiroz, de 35 anos, abriu mão do atendimento clínico para atuar em UTIs exclusivas a pacientes com covid-19 assim que os primeiros casos surgiram no país. Trabalhando, muitas vezes, 18 horas por dia e lidando com quadros cada vez mais graves da doença, não demorou muito para a exaustão, o medo e a angústia se tornarem parte da sua rotina, a ponto de prejudicarem a saúde, tanto a física quanto a mental. No relato abaixo, ela conta como o artesanato e a solidariedade lhe ajudaram a recobrar o equilíbrio.

"Sou cardiologista do esporte e dou plantão na UTI já há alguns anos. Atendo em grandes hospitais de São Paulo, como o São Luiz (unidade Morumbi), e também tenho o meu consultório, na Vila Olímpia. No período do Carnaval, dois pacientes meus estavam internados, e eles começaram a falar muito sobre o novo coronavírus, morrendo de medo de pegar.

Naquela época, confesso que pensei que o vírus ia demorar para chegar ao Brasil e, quando chegasse, seria tranquilo. Mas veio rápido e não foi tranquilo. Vendo o grande aumento de casos de covid-19 e a necessidade cada vez maior de internação hospitalar, e por eu ter experiência em terapia intensiva, parei as minhas atividades de consultório para auxiliar na UTI.

Nicolle Farias de Queiroz atendimento covid 1 - Crédito: arquivo pessoal - Crédito: arquivo pessoal
Nicolle com EPIs para atendimento na linha de frente
Imagem: Crédito: arquivo pessoal
Fiz um juramento quando me formei em Medicina e me senti na obrigação de ir para a linha de frente e atender nos setores destinados aos infectados com a doença, mesmo sendo asmática. Minha vida, assim como a de muitos colegas, virou de cabeça para baixo. São muitos plantões exaustivos, tristes, lidando com um número cada vez maior de pessoas com quadro graves.

No meio disso tudo, meus pacientes começaram a me procurar e decidi voltar a atender. Acabamos focando tanto no coronavírus e esquecemos que tem muita gente com outros problemas de saúde que também precisam de nós. Só que, com isso, a minha rotina, que já estava puxada, ficou insana. Em alguns dias, são 18 horas de trabalho."

Ansiedade e muita vontade de ajudar

"Ao mesmo tempo que passei a viver tudo isso, me questionei: se o meu paciente, que tem condição financeira, está precisando de médico, como está a situação de quem mora na rua e de quem não tem como pagar por uma consulta? Nesse momento juntou tudo, o cansaço, a angústia, o estresse... Comecei a ficar ansiosa e ter problemas para dormir, não comia direito e minha imunidade baixou. Nem nos dias de descanso eu conseguia relaxar, essa situação toda afetou o meu emocional.

Em uma das noites insone fiquei pensando o que mais eu poderia fazer para ajudar, além de trabalhar na UTI, e tive a ideia de doar máscaras. Muita gente não tem nem o que comer, imagina, então, se vai ter dinheiro para comprar máscara. Consegui arrecadar 1,2 mil peças. Muitos amigos me ajudaram, especialmente a Rita Cadillac (cantora e dançarina), que foi minha paciente, e meu avô Francisco, de 91 anos, que confeccionou algumas.

Francisco, de 91 anos, avô da médica Nicolle Farias de Queiroz, com as máscaras que confeccionou para a neta doar - Crédito: arquivo pessoal - Crédito: arquivo pessoal
Francisco, de 91 anos, avô da médica Nicolle Farias de Queiroz, com as máscaras que confeccionou para a neta doar
Imagem: Crédito: arquivo pessoal
Na mesma época fiz um curso online de saboaria artesanal, e ganhei até certificado. Eu não queria mais ficar focada apenas em crise e desgraça e precisava cuidar da minha higiene mental. Comecei a produzir os sabonetes em casa, quase que diariamente, e já nem tinha mais onde guardar.

Como eu estava juntando as máscaras para doar, minha mãe deu a ideia de entregá-los junto. Fiz a ação no dia 30 de abril, nos arredores da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, no bairro Santa Cecília. Alguns amigos foram comigo fazer as entregas, inclusive a Rita.

Aproveitei essa ocasião para conversar com as pessoas, saber como estavam se cuidando e passar orientações. Foi a minha redenção e graças a isso equalizei o pensamento e acalmei o coração. Muita gente acha que médico não tem medo, não fica mal, mas nós somos iguais a todo mundo, nos preocupamos, ficamos tristes, angustiados, assustados.

Para ajudar ainda mais, também passei a atender diariamente em uma clínica popular na periferia de São Paulo e criei a Terça da Solidariedade no meu consultório. Baixei os preços para poder receber pessoas que não têm acesso a um hospital ou a uma consulta de qualidade.

Descobri no artesanato e na ação social uma maneira de relaxar, desestressar e, ao mesmo tempo, fazer o bem. E eu realmente precisava de uma válvula de escape de tudo isso, precisava cuidar da minha saúde mental. Auxiliar o próximo aqueceu meu coração, e o que antes era uma rotina para me distrair, virou uma rotina de amor.
Recentemente comecei a fazer um curso online de reiki; o próximo será de velas artesanais. Uma amiga me convidou e aceitei. Tudo o que puder deixar a minha mente equilibrada, eu estou aceitando."

Como cuidar da saúde mental

Diante de toda a mudança provocada pela quarentena, do medo de contrair o novo coronavírus e da incerteza de como será o futuro, é natural que as pessoas, sobretudo as que estão na linha de frente no combate à covid-19, fiquem estressadas, assustadas, ansiosas, preocupadas, tristes.

"O período de pandemia é muito apreensivo para a população em geral e, em momentos assim, a fantasia ganha asas. Ela permeia todas as possibilidades de fuga diante do temor e da morte. O indivíduo fica no desespero com a possibilidade de mudança, que são imprevisíveis e podem ser tanto afetivas, como a perda de alguém, quanto objetivas, ligadas a questões econômicas ("Como eu vou ganhar dinheiro?") e de sobrevivência ("Como vou comprar comida?)", analisa Nikolas Heine, psiquiatra do Hospital 9 de Julho.

No caso dos profissionais da saúde, Magda Khouri, psicóloga e diretora da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo) diz que eles caminham em um território à parte, vivendo o excesso de realidade e de situações muitas vezes incontornáveis. "Eles estão não apenas diante da morte, mas também das dificuldades de algo que ainda não é totalmente conhecido. Também têm de lidar com pressões, inclusive as emocionais, cansaço e questões pessoais. Isso tudo gera um grau de tensão e de estresses enorme."

Para manter o controle, os especialistas comentam que é importante ter uma rotina, com horários para deitar, levantar e se alimentar, praticar exercício físico com regularidade, evitar o excesso de notícias, se relacionar —de forma segura — com amigos e familiares, comer e dormir bem, restabelecer o contato consigo mesmo e, se necessário, buscar ajuda psicológica.

Outra recomendação é iniciar uma atividade que distraia, desconecte e dê prazer, como tem feito a médica Nicolle. Vale ler, bordar, pintar, meditar, cozinhar, escrever... "Escolha a que melhor se adeque a você, a que tiver vontade. Não adianta pensar que seria ótimo fazer natação se a piscina está fechada. Tem que ser mais pragmático. Gosta de jogar cartas ou jogos de tabuleiro? Então faça isso, e não importa se não pareça interessante para as demais pessoas", complementa Heine.