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7 maneiras de usar a raiva para tornar sua vida mais produtiva

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Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

22/06/2020 04h00

A raiva é uma das emoções mais básicas do ser humano. Trata-se de uma reação fisiológica que ocorre em resposta a uma situação que nosso cérebro interpreta como um ataque ou uma ameaça à nossa sobrevivência. Diante de algo perigoso ou prejudicial, somos impelidos a lutar ou a fugir. Esse sistema de luta e fuga, segundo especialistas, está relacionado tanto ao estresse, que envolve o sentimento de medo, quanto à raiva.

Essa percepção faz com que o cérebro secrete hormônios que instruem o sistema nervoso a preparar o corpo para tomar medidas de proteção: a respiração fica curta, o organismo inunda seus músculos com sangue, a frequência cardíaca aumenta e a visão periférica desaparece.

O que difere algumas pessoas das outras é a maneira com que lidam com a emoção. Enquanto algumas xingam ou tomam atitudes que depois irão se arrepender, outras se esforçam para manter o controle e não se tornarem reféns da cólera. O que difere aquelas que lidam bem com a raiva das que não conseguem fazer isso é a capacidade de elaborar racionalmente sua elevação. Há muita gente que, embora no auge da irritação, é capaz de refletir sobre o que sente, avaliar o contexto e analisar a real necessidade ou não de expressar ou de agir em função da raiva.

É importante entender que ela costuma se autoalimentar: é equivocada a ideia de que extravasar a ira de modo intempestivo a diminui. Quanto mais impulsiva a reação, maior a descarga adrenérgica e a intensificação da raiva. Por outro lado, quando bem empregada, a raiva pode ser um estímulo para que qualquer um consiga fazer mudanças significativas na vida, superando suas dificuldades de maneira construtiva. Em vez de revidar uma provocação, por exemplo, a pessoa avalia a situação e responde de uma forma coerente, sem apelar para a agressividade. E mais: até converte a irritação em algo positivo.

Só de tomar consciência de que sente raiva - ou que volta e meia vivencia episódios bem marcantes de ira —já é meio caminho andado para começar a transformá-la em algo produtivo. Isso porque essa análise é um exercício benéfico de autoconhecimento. Veja outras vantagens:

1. A raiva estimula a ação

Ela aciona a dopamina, neurotransmissor que é importante para nos levar a agir diante de uma contrariedade e não desabar perante as adversidades da vida. Nesse sentido, a raiva é positiva para evitar que as pessoas se curvem diante dos problemas. Porém, vale lembrar que a raiva, sozinha, não dá conta do serviço: se não conseguirmos acionar outros recursos, como a inteligência emocional e a resiliência, ela se torna disfuncional.

2. Você compreende que agir é muito diferente de reagir

No agir, a ação não depende do que alguém fez ou deixou de fazer, necessariamente. Depende somente de você, de suas escolhas e de como decide se posicionar diante das circunstâncias.

3. Entender que a emoção é normal nos leva a refletir

Por quê? Porque se sentimos culpa ao nos irritar com algo, ficamos paralisados. Ter um olhar mais complacente sobre nossas emoções ajuda a acalmar. Não é errado sentir raiva, mas talvez seja equivocada a forma como a pessoa a expressa. Assim, a raiva passa a ser válida quando nos leva a pensar sobre o modo como a manifestamos.

4. Ela encoraja a sair da zona de conforto

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Quando alguém duvida da nossa capacidade, por exemplo, a raiva pode ajudar a tirar um projeto que há tempos está na gaveta por pura insegurança e a colocá-lo em prática para provar --nem que seja a si mesmo - o próprio valor. Receber o cartão vermelho num relacionamento amoroso serve, para muitas pessoas, para voltar o olhar para si mesmas e a cuidar com mais carinho da autoestima, colocando-se em primeiro lugar após muito tempo de negligência.

5. A raiva transforma a indignação em atitude

Aceitá-la como um sinal de inconformidade possibilita planejar uma resposta assertiva, rever aspectos insatisfatórios da vida e desenhar novos propósitos. A raiva possibilita lutar por direitos, defender a sua posição ou opinião, exigir melhor tratamento e condições ambientais, lutar por causas pessoais e sociais, desistir de empreendimentos e relacionamentos tóxicos e inviáveis. A raiva também pode dar substância ao desejo de justiça, à empatia, à luta pela diminuição das desigualdades, produzindo mudanças importantes.

6. Com argumentos, é capaz de destruir situações abusivas

Em alguns casos, a raiva pode se reverter numa intimidação para não deixar mais os outros pisarem em você. Ela produz força para fazer com que seus limites sejam respeitados e mobiliza energia, principalmente para se defender.

7. Ela ajuda a exercitar a paciência e o perdão

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Se você, em meio à uma crise de raiva, conseguir respirar fundo e analisar a situação, talvez consiga perceber que provavelmente a culpa pelo ocorrido não é de terceiros ou da vida - mas, sim, de suas expectativas ilusórias. Ao racionalizar e relativizar o contexto, vai pensar em condições para ter mais paciência no dia a dia. Além, é claro, de pelo menos começar a refletir sobre perdoar quem lhe fez algum mal, algo que vai se provar bastante libertador.

Veja 6 dicas para ajudar no exercício do controle da raiva

  • Respire: mais do que contar até 100 (ou até mil, dependendo do caso!) para se acalmar, prestar atenção no modo como respira ajuda muito. Respire profundamente pelo nariz e expire lentamente pela boca 5 vezes seguidas: isso oxigena o cérebro;
  • Mexa-se: a prática de exercícios físicos libera neurotransmissores como a endorfina e a serotonina, substâncias químicas que promovem prazer e bem-estar imediatos, nos acalmando para lidar melhor com as nossas emoções. O esporte ajude a canalizar a energia em competições, por exemplo, em vez de brigar;
  • Distraia-se: ocupe-se com outras atividades para sair do foco daquilo que produz irritação. Exemplos: cozinhar, ler, fazer palavras cruzadas, pintar, desenhar, ver um episódio da sua série favorita, etc.;
  • Escreva sobre seus sentimentos: ao colocar o que sente no papel, você consegue pensar melhor a respeito dele e tomar decisões baseadas na razão e não na emoção;
  • Tente acalmar o cérebro: meditação, técnica mindfulness, ioga e tai-chi-chuan são algumas práticas que relaxam a mente. Um banho morno também surte o mesmo efeito;
  • Procure manter uma rotina regrada: geralmente existem situações que nos deixam à beira do limite, como o cansaço e a fome. Então, evitar o que pode lhe desagradar ajuda a não sair do controle.

Casos patológicos

Atirar coisas longe, jogar algo no chão, xingar com palavras de baixo calão, esmurrar a parede ou o computador... Algumas pessoas têm atitudes violentas na hora da raiva porque não conseguem tolerar o aumento da emoção dentro de si. Isso pode ser um traço de personalidade —sabe quando comentamos, por exemplo, que fulano é "esquentadinho"?

Porém, existe um diagnóstico chamado Transtorno Explosivo Intermitente (TEI), também conhecido por "Síndrome do Pavio Curto". Nesse caso, o indivíduo tem com frequência rompantes de raiva desproporcionais ao evento desencadeante e com consequências negativas.

Após esses rompantes, é comum que os que sofrem de TEI se arrependam, pois percebem que a reação foi inadequada. Essas crises levam a prejuízos na vida da pessoa e trazem um sofrimento emocional grande. A maior parte dos casos, no entanto, responde muito bem a tratamentos psicoterápicos e medicamentosos.

Fontes: Fernando Gomes, médico neurocirurgião, neurocientista e professor livre docente de Neurocirurgia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Henrique Bottura, psiquiatra da Clínica Psiquiatria Paulista, em São Paulo (SP), e médico responsável pela área de ensino do Amjo (Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso) do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP; e Silvia Cury Ismael, gerente de Psicologia do HCor (Hospital do Coração), de São Paulo (SP).

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