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Chorar por tudo não é sinal de imaturidade, mas pode indicar algum problema

Chorar não significa, necessariamente, sensibilidade - iStock
Chorar não significa, necessariamente, sensibilidade Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

27/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O choro é um das primeiras formas de se comunicar, por isso ele é recriminado em adultos, já que é associado a um comportamento infantil
  • Deixar as lágrimas rolarem não é necessariamente uma característica de quem é mais sensível, e sim um traço de personalidade
  • Chorar à toa também pode ser sinal de depressão, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, hipoglicemia e ansiedade, então é preciso ficar atento

Quando o assunto é choro, a tristeza é a primeira a ser citada. Mas todo ser que sente sabe que lágrimas rolando englobam outras emoções. Raiva, alegria, medo e saudade estão na lista de sentimentos que fazem algumas pessoas derramarem o líquido dos olhos. Para outras que não choram, o emotivo é taxado como imaturo, "bebezão". Mas especialistas dizem que não é bem assim.

O choro é uma das primeiras formas de se comunicar. O bebê solta o berreiro quando deseja algo, mas não consegue usar palavras para isso. "Ao vermos alguém chorando, o desespero é imediato. Nosso cérebro foi programado a entender que tem sofrimento ali, por isso tenta resolver, dando mamadeira, peito, trocando fralda ou até levando ao médico", diz Rita Calegari, psicóloga da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

Desde criança, o ser humano aprende que o choro manifesta um sentimento de desconforto. Mas, segundo Calegari, é preciso ampliar o conceito para além do sofrimento. "As pessoas tendem a recriminar o choro no adulto porque, de fato, associamos a um comportamento infantil. Há essa associação à imaturidade, como se ao crescer não pudesse mais chorar, o que é uma grande bobagem".

Após o indivíduo crescer, as lágrimas podem expressar contentamento, raiva, frustração, alívio. Elas dão vazão a uma tensão acumulada, uma expectativa ou preocupação. Quando a pessoa recebe uma notícia que quer e aquela expectativa finalmente acontece, a emoção vira choro.

Em uma briga, por exemplo, quem fica aos prantos em vez de rebater está acuado, inseguro. "Não quer dizer que aquela pessoa é fraca, imatura ou sensível demais", diz Yuri Busin, psicólogo e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio).

Para Calegari, diferentemente da imaturidade esperada, chorar em público exige muita coragem. "Esses indivíduos se permitem viver esse momento e a própria fragilidade, sem pensar no que os outros vão julgar".

Quando chorar é um problema

Se emocionar-se com tudo não tem a ver com personalidade, em como o indivíduo se expõe aos medos e à insegurança em relação a conflitos, soltar o berreiro pode ser sinal de problemas.

"Chorar muito e incontrolavelmente pode ser um dos sintomas de diversas condições, como alteração hormonal, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, depressão, ansiedade e hipoglicemia (quando o nível de glicose no sangue fica abaixo do normal)", diz Priscila Gasparini, psicanalista com especialização em neuropsicologia e neuropsicanálise, com mestrado e doutorado pela USP (Universidade Federal de São Paulo), e que também atende no Hospital Beneficência Portuguesa.

Segundo ela, a falta de B12, por exemplo, prejudica as sinapses (local de contato entre os neurônios), causando danos na sensação, movimento, cognição e outras funções. Isso provoca formigamento nas mãos e pés, confusão mental e perda de memória.

Quando o choro está associado a outros sintomas, ele deve ser observado com maior cautela - BBC
Quando o choro está associado a outros sintomas, ele deve ser observado com maior cautela
Imagem: BBC

O nutriente é encontrado em alimentos de origem animal, como peixes, carne vermelha e de fígado, e derivados do leite e ovos, por esse motivo sua deficiência geralmente é atribuída a pessoas veganas ou vegetarianas. Mas a falta da B12 também está ligada a outros fatores, como idade avançada ou distúrbios gastrointestinais.

O hipotireoidismo, condição na qual a glândula tireoide não produz a quantidade suficiente de hormônios, leva à redução de várias funções no organismo, levando inclusive a alterações no humor. De acordo com Natália Pavani, psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, não é raro confundir o problema com a depressão. "Choro frequente, desânimo, fraqueza são sintomas de ambos, por isso é essencial fazer avaliação do histórico da pessoa e de alterações metabólicas biológicas para realizar o diagnóstico correto".

Pavani afirma que não é difícil saber o limiar entre pessoas emotivas e quem está doente de fato. Assim como tem gente que dá risada mais facilmente que outras, tem quem chore com filmes, comerciais de margarina ou quando ganha presentes. "Não olhamos para isso como algo patológico porque é um traço da personalidade dela", diz.

No entanto, quando o choro está associado a outros sintomas, ele deve ser observado com maior cautela. Se ele vier junto com um desânimo frequente, falta de vontade de se envolver em atividades que normalmente se envolvia, falta de vontade de sair de casa ou de prazeres, é melhor procurar ajuda.

A psicóloga salienta que estresse intenso e crises de ansiedade também podem estar por trás. O indivíduo pode ter chegado a um limite de sofrimento emocional e o choro frequente é sinal de estafa psíquica.

Quer saber o que é normal ou não? "Um bom sinal é fazer uma autocomparação. Perguntar-se 'Como eu estava nos últimos meses ou anos?' e 'O que tem acontecido que estou chorando mais e meu comportamento mudou?'", sugere Pavani.

Busin também diz que o ideal é sempre parar para pesar o quanto se emocionar está prejudicando no dia a dia. Independentemente da frequência que ocorrer, se incomodar, é melhor buscar ajuda psicológica ou médica.

Se não incomodar, pode chorar à vontade. "Precisamos conseguir comunicar de forma mais completa e complexa as emoções, seja com palavras ou choro. E um choro não precisa vir desacompanhado dessa externalização verbal, e sim como um complemento emocional", diz Calegari.

Segundo ela, o choro é só uma resposta. Talvez tenha muito mais a ver com a forma de se comunicar do que sentir, o que tira de vez o estigma de "sensível demais" dos chorões.

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