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Família também pode ser tóxica: veja como lidar com esses casos

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

23/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Com a cultura de que a família está acima de tudo, muitas pessoas convivem com familiares tóxicos e muitas vezes não se são conta
  • Entender o quanto você sofre nessa relação é fundamental para você identificar a pessoa tóxica e agir
  • Cada relação é única e você precisa ponderar o que te irá te ajudar melhor: buscar ajuda, romper laços ou apenas conversar com a pessoa

Ter um relacionamento, amigo ou conhecido tóxico é comum, quase todo mundo tem ou já teve. Mas quando essa pessoa é nosso familiar ou parente, nem sempre percebemos sua toxidade. Vale lembrar que nos referimos a comportamentos ou atitudes consideradas tóxicas que determinadas pessoas fazem e que são prejudiciais a outras e não a pessoa em si. Por mais que possa parecer visível, tendemos a tolerar atitudes tóxicas de familiares que, talvez, não toleraríamos de amigos ou pessoas mais próximas. E por quê? Porque historicamente somos ensinados a isso.

Homero Belloni, psicólogo, explica que as primeiras relações que nós temos na vida são as relações familiares e por isso a cultura tenta preservá-las de alguma forma, impondo uma série de restrições e tabus. "Ou seja, só é permitido sentir coisas positivas entre os familiares. Agressividade e alguns impulsos sexuais, por exemplo, a cultura não permite, no entanto, não quer dizer que eles não existam", diz. Esses sentimentos e emoções ficam em segundo plano e não podem aparecer, devem ficar reprimidos. O psicólogo diz que por isso que a gente tem dificuldade de imaginar, enquanto cultura, que pai e mãe têm relação sexual.

Uma herança histórica e cultural

Segundo Eduardo Name Risk, psicólogo, doutor em psicologia e professor adjunto do Departamento de Psicologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), essa concepção da família como instituição que promove conforto material, afetivo, segurança e zelo aos seus membros, repleta de distinções histórico-culturais, frutificou-se na passagem do século 17 para o 18, no contexto europeu, por meio da privatização da vida familiar conforme registrou o historiador francês Philippe Ariès na obra "História social da criança e da família".

"Nesse período, os integrantes da família recolheram-se à sua intimidade e, aos poucos, os pais —mas sobretudo a mãe — devotaram-se aos cuidados das crianças com dedicação e afeto, vivendo o correspondente 'sentimento de família'", esclarece Risk.

Por ter que aceitar e fazer "tudo pela família" é que muitas vezes não identificamos quando algum familiar tem comportamentos tóxicos e nos fazem sofrer. "Ao mesmo tempo em que a família pode estabelecer as bases para os sentimentos de amor e reconhecimento, ela também pode traçar as linhas gerais de nossas dores e nossas fragilidades", afirma Tiago Ravanello, psicólogo e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul).

Reconhecendo uma relação familiar tóxica

Relações familiares, embora haja bons sentimentos, nem sempre são harmônicas. A proximidade afetiva e física de seus membros leva a tensões, sobretudo nas ocasiões em que se confrontam os interesses da família, enquanto expressão do interesse coletivo do grupo doméstico e as aspirações individuais de seus integrantes. "Conflitos são comuns e muitas vezes importantes —desde que eventuais — para realinhar as expectativas de seus integrantes", completa Risk.

Mas existem relações que são difíceis, de familiares que não se harmonizam e o conflito é constante. Reconhecer a toxicidade de uma relação é mensurar o quanto de dor e sofrimento essa convivência traz. Desconforto, inferiorização, descrença, humilhação e abuso são alguns comportamentos que podem existir em uma relação tóxica dentro ou fora do ambiente familiar.

É possível se blindar da toxicidade alheia?

Depende. Quando falamos em relacionamentos existe uma relatividade. O que a pessoa faz que te agride (seja física ou psicologicamente) a intensidade dessas ações e o quanto isso te afeta. Pode ser que você comece a ignorar certas atitudes ou comportamentos e se sinta melhor, ou, se tiver uma boa relação com a pessoa, pode ter uma conversa mais franca e se expor o que lhe incomoda, pedindo por uma mudança. Mas existem casos em que a pessoa não consegue se expressar ou o diálogo é mais difícil e os comportamentos tóxicos são acompanhados de emoções como raiva, angústia e desprezo, por exemplo. Nestes casos a blindagem é ineficaz.

"Frases como 'não dê bola', 'não preste atenção no que essa pessoa diz', 'tente não se importar com isso' são também convites à manutenção de uma situação de violência e abuso, tanto quanto de alienação em relação à realidade que nos cerca", alerta Ravanello. Segundo ele, quando o exercício da violência se torna cotidiano, ele também tende à criação de um sentimento de naturalização do processo, como se fosse uma parte inevitável da realidade ter de suportar e pagar o preço da brutalidade de alguém. Mas também, a violência pode caminhar no sentido de uma progressão de sua intensidade, alargando cada vez mais os níveis de exigência dessa naturalização. Por exemplo, um lugar onde gritar com outra pessoa é normal, a evolução para agressões física pode ser inevitável.

Segundo o especialista, nesses casos, é necessário também pensar numa "blindagem" em outro sentido, questionando que além de sermos fortes para estabelecer limites, precisamos também receber esse empoderamento e proteção das outras pessoas dentro do ambiente familiar.

Existem situações em que a pessoa que sofre com a toxicidade da relação é impotente diante do familiar tóxico. Se a vítima, neste caso, é uma criança que sofre um abuso mental ou físico de um adulto, pode ser que ela não tenha como reagir, ou muitas vezes ela nem se dá conta da situação, embora isso possa gerar traumas futuros. Outra situação é uma pessoa vítima de violência e as pessoas esperem dela que ela seja suficientemente forte para conseguir barrar essa ação. Geralmente isso não é o suficiente, por exemplo, se ela estiver em situação de dependência econômica, social ou emocional com a pessoa que exerce o abuso. Nesse caso, não basta ela se blindar, ela precisa que o grupo ao seu redor a proteja, criando um ambiente que a possibilite ter condições de dizer "não", "chega", sem correr riscos mais graves.

Como então lidar com a situação?

Existem várias maneiras de lidar com o problema. Como cada relação é única, não existem fórmulas, mas colocamos algumas dicas que podem ajudar você a, pelo menos, enxergar uma luz no fim do túnel e se livrar de relações que não te faz bem.

1. Busque ajuda profissional
Se sua relação com algum familiar não te faz bem, se vive um sentimento de perda de si mesmo, de perda da dignidade ou de um sofrimento insustentável, busque auxílio em uma escuta profissional ou, ao menos, tente um período de separação que permita uma reavaliação mais criteriosa da situação. Um profissional como um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar você a descobrir a melhor solução e ficar bem com você mesmo.

2. Não espere pela mudança da outra pessoa
Só temos controle sobre nós mesmos: podemos mudar nossos comportamentos, mas não conseguimos fazer com que a outra pessoa mude o que nos desagrada. Muitas vezes o sofrimento está na angústia de esperar que o outro mude, quando quem tem que mudar é você. "É preciso mudar seja os tipos de atitudes dentro de casa ou até mesmo procurar um outro lugar para seguir com a sua vida", completa Belloni.

3. Se for preciso, corte os laços
"Romper laços é sempre doloroso e muitas vezes a 'última escolha' quando temos dificuldade de convivência com alguém", comenta Risk, mas pode ser preço necessário para que você se liberte de uma relação que te agride. "Precisamos deixar muitas coisas para tornarmo-nos alguém que venha a gostar de ser. Deixamos de ser crianças para podermos nos tornar adultos, deixamos de ser estudantes para tornarmo-nos profissionais, deixamos a solidão toda vez que fazemos parte de um grupo. Logo, também é necessário deixar certas relações e determinadas formas de ser", pondera Ravanello.

Especialistas chamam a atenção para o sentimento de culpa que pode surgir, resultante do rompimento da relação, principalmente pelas memórias de momentos e situações passadas. Para ajudar nesse processo, Ravanello diz que o importante, nesse caso, é não perder de vista dois questionamentos que são fundamentais:

  1. Esse abandono ou afastamento é realmente importante para que eu possa me emancipar ou estarei descartando outros aspectos dessa relação que me fazem bem?
  2. É fundamental saber avaliar do que, de fato, está se afastando.

Caso contrário, você corre o sério risco de repetir a mesma relação tóxica com outras pessoas. Nesse sentido, o peso na consciência pode ser necessário, como aquela lembrança de quem se era e que nos impede de retornar.

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