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Crianças estão protegidas? Veja como pandemia impacta saúde física e mental

amriphoto/IStock
Imagem: amriphoto/IStock

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

08/04/2020 04h00

O novo coronavírus parece não ser tão ruim assim para a maioria das crianças, pelo menos quando se trata da saúde física. Embora não sejam imunes, grande parte delas não enfrenta um risco significativo de morte. Um estudo chinês feito com 2.143 crianças mostrou que elas são suscetíveis a complicações graves, mas que 90% são casos assintomáticos, leves ou moderados.

De alguma forma, parece que elas estão relativamente mais protegidas, enquanto os idosos são o maior grupo de risco. Por quê? Não se sabe ainda. "Não há nada mais intrigante nesse momento do que as características dessa doença em relação aos grupos etários", diz Marco Aurélio Safadi, presidente do Departamento Científico de Infectologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Assim como mostra o estudo chinês, Safadi diz que o fato de a covid-19 ser leve nas crianças não significa que não haverá uma com quadro mais grave ou hospitalização. "Se ela for do grupo de risco, a chance aumenta. Mas é exceção, não regra." Enquanto a literatura científica ainda não sabe dizer o motivo desse comportamento do vírus, há várias hipóteses.

O virologista Rômulo Neris, formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador visitante da Universidade da Califórnia, nos EUA, afirma que dois fatores são importantes pra compreender este fenômeno: a taxa de crianças na população é menor que a de adultos em muitos países, e o fato de que indivíduos de grupos de risco têm comprometimentos na imunidade.

"O sistema imune amadurece já nos primeiros meses de vida, o que com certeza colabora para as baixas taxas entre infantes", diz Neris.

Criança chorando ao lado da mãe - laflor/iStock - laflor/iStock
Será que desastres como a pandemia de coronavírus causarão transtornos mentais nas crianças?
Imagem: laflor/iStock

Futuro incerto

A mortalidade é apenas um dos problemas dessa pandemia. O ineditismo de um acontecimento mundial como este faz pensar sobre o futuro. Quando se trata de saúde mental, será que as crianças estão tão protegidas assim?

Para tentar responder a esta pergunta, VivaBem conversou com Olavo Sant Anna Filho, psicólogo clinico com 36 anos de experiência de atuação em emergências e desastres e consultor da Cruz Vermelha. Segundo ele, não há precedentes de uma pandemia a nível mundial como esta nos últimos 70 anos. Certamente vai ter impacto, mas a que nível e que tipo é muito incerto.

Filho diz que também não dá para comparar o coronavírus com desastres naturais para prever o quanto os dias de hoje irão mexer com a mente das crianças. "É inadequado e ainda muito prematuro. O furacão Katrina, por exemplo, causou, além de mortes, perda de animais e objetos materiais. Com o coronavírus, além das mortes, há muito medo, pânico em ser contaminado e o isolamento social, que muda tudo", diz.

Diferentemente dos desastres naturais, em que uma das maiores preocupações são perdas materiais —que estressam também as crianças—, agora a preocupação é com a vida. "O vírus nos bota de frente com a morte. Estamos muito mais conscientes que a nossa vida é finita. Está muito claro e evidente, até pelos números divulgados de mais de 1 milhão de infectadas e muitas pessoas mortas", diz.

Criança com o rosto próximo ao celular - iStock - iStock
Crianças com acesso à tecnologia podem fazer uso dela para ter contato social
Imagem: iStock

Se isso fará com que as crianças estejam mais propensas a transtornos mentais como ansiedade e depressão, Filho nega. Segundo ele, em desastres minimamente comparáveis, como a epidemia do Sars, em 2003, não mais que 4% teve algum problema de saúde mental, e muitos dos afetados já tinham condições preexistentes.

O mesmo vale para transtorno do estresse pós-traumático. "É um risco muito baixo, tudo vai depender do remanejamento da saúde mental no início, a partir dos primeiros dias." E estamos vendo essa preocupação com a saúde mental desde o início da pandemia.

Filho inclusive se diz espantado com a quantidade de material produzido sobre o tema. "Nunca ouvi falar tanto de saúde mental em um desastre como agora."

Converse com as crianças

Com base em algumas recomendações, o especialista dá algumas dicas para evitar qualquer tipo de trauma ou angústia nas crianças. Primeiro, não minta para ela: conte que estamos enfrentando uma pandemia e que em razão dela pessoas estão ficando doentes. "Use o linguajar delas, mas explique o que é o coronavírus e por que as pessoas estão em isolamento".

Como a criança não é um grupo de risco, o principal é muni-las de informações precisas. "Quanto mais fizermos isso, mais aliviamos a fantasia e toda a preocupação que pode existir na cabeça dela", diz Filho.

Criança brava - iStock - iStock
Reações emocionais podem ser mais comuns em crianças que ficam mais solitárias
Imagem: iStock

Além disso, ele pede para que se dedique um tempo especifico para elas: estabeleça brincadeiras e mantenha a criança ativa, não necessariamente por meio da internet. "Explore jogos interativos junto com a própria família. O objetivo é mantê-los conectados aos avós, primos e amigos". Neste caso, a tecnologia pode ajudar, com chamadas de vídeo ou ligações.

Os verdadeiros riscos

Filho afirma que a real preocupação é que o tempo maior de convivência aumente casos de pedofilia, abuso infantil e violência contra criança. "Isso já ocorre normalmente, mas agora, com mais tempo juntos, certamente encontraremos mais crises", diz. Segundo ele, a recusa em seguir normas e regras costuma aumentar em momentos de desastres. Por isso, é essencial conversar com as crianças sobre o tema e, em caso de denúncia, discar 100.

O que surgirá dessa mudança de rotina ainda está nebuloso, mas levanta diversas questões sociais. Christiane Maria Cruz de Souza, especialista em história das epidemias e políticas de saúde do IFBA (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia), diz que há uma quebra importante na rotina, um afastamento de amigos e colegas de escola, uma limitação de movimentos que pode causar tensão e angústia também nos pequenos.

Alguns pais podem seguir ensinando alguma coisa em casa e a escola oferecer videoaulas, implementando o ensino à distância, mas quantos têm acesso a isso? Segundo Souza, é preciso pensar em quantas e quais famílias têm condições para suprir também o papel da escola. "Quem tem formação suficiente para acompanhar as atividades escolares em um país em que a maioria não tem acesso a uma educação de qualidade?", questiona Souza.

"Quantos pais podem estar em quarentena? Os que estão podem estar em home office, mas como conciliar isso com as atividades domésticas, o cuidado com os filhos e o ensino destes?", continua a historiadora.

Crianças mais solitárias sofrem mais e podem ter ansiedade, pânico, raiva, negação, tristeza. Essas sensações podem ser mais comuns quando a criança é a única na família, não tem possibilidade de se manter conectada ou não tem pais que têm tempo de fazer atividades em conjunto.

Mas Filho diz que manifestações como estas, em tempos como o que estamos vivendo, até que são normais. A tendência é que as angústias melhorem com o tempo. "É um momento inédito, mas vai passar".

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