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UOL Debate: hábitos devem mudar, e excesso de informação não é ruim

Do VivaBem, em São Paulo

06/04/2020 14h25

Nesta segunda-feira, o UOL Debate reuniu um time de experts para discutir as consequências do coronavírus sob a perspectiva da saúde mental —o custo emocional provocado pelas medidas de isolamento e pelo excesso de informação, além dos riscos de agravamento ou surgimento de novos casos de transtornos mentais.

Medo, sofrimento, ansiedade e como sairemos da pandemia foram temas discutidos pelos especialistas.

Voltaremos ao normal?

Será que voltaremos, rapidamente, a uma situação de normalidade, ou esse choque vai nos obrigar a ter uma mudança imediata? Essa foi a questão levantada por Jairo Bouer, mediador do debate, psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e colunista de VivaBem.

"Espero que não, já que a gente não vinha muito bem. Na periferia de São Paulo, por exemplo, a pandemia já estava lá há tempos. O que pior pode acontecer é viver tudo isso e retomar uma vidinha normal", disse Vera Iaconelli, psicanalista, mestre e doutora pela USP, colunista do Jornal Folha de S.Paulo e autora de "O Mal-Estar na Maternidade" e "Criar Filhos no Século XXI".

"Talvez a gente possa voltar a praticar uma vida mais simples. Talvez a gente possa descobrir que pode ser um pouco mais pobre. Talvez a gente vai ter produzido uma melhora da situação ecológica. Será que precisamos de dois carros? Pode ser que a gente saia uma versão melhorada", disse Contardo Calligaris, psicanalista e colunista do jornal Folha de S.Paulo, além de autor de "Hello Brasil!", "Cartas a um Jovem Terapeuta" e "Coisa de Menina".

"Acho que a epidemia desnudou a nossa total desigualdade social. Na vida, na morte, no confinamento, nós somos um país totalmente desigual. Ela mostrou que a ciência e a pesquisa são importantes. Ela mostrou também que temos que pensar um pouquinho mais coletivamente", pontuou Leandro Karnal, professor da Unicamp, doutor em história cultural pela USP e autor de "O Dilema do Porco-Espinho: Como Encarar a Solidão".

"É uma experiência de perda e cria uma experiência comum que vou chamar de cultura da escassez, e isso me parece importante para reconectar a gente com a ideia de solidariedade. A própria ideia da máscara não é para se proteger, é para proteger o outro", afirmou Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP. Autor de "Psicologia e Psicanálise", vencedor do Prêmio Jabuti em 2012. Também é colunista de Tilt.

"Estamos vivendo uma situação de extremo estresse e é para todo mundo. E seremos iguais quando tudo isso passar frente ao alívio, mas que esse alívio seja para que possamos aproveitar a experiência do tempo que passamos nesse estresse e não para voltarmos à situação de outrora, de não esperar o apelo de quem está aqui do nosso lado. Não podemos sair aliviados desse tapa de consciência, o mundo tem que mudar, essa pandemia não pode ser algo que vai passar e nos deixar da mesma forma que estávamos", exemplificou Carmita Abdo, psiquiatra, doutora e livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de USP, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Ansiedade x excesso de informação

Muita gente tem falado que parar de ler notícias freneticamente sobre a pandemia seria uma estratégia interessante para manter a sanidade mental, os especialistas, no entanto, discordam.

"A situação é extremamente ansiosa, as incertezas são próprias da situação. Não acredito que a gente tenha que atribuir a nossa ansiedade ao excesso de informação. Antes de culpar a imprensa por isso, devemos primeiro pensar que a situação é complicada e está faltando a interação social. A produção de conteúdo corresponde à necessidade do momento", disse Calligaris.

"É uma incerteza que pode ser mitigada com informação. Por exemplo, curvas, procedimentos de proteção, são eficazes em combater o medo objetivo", explicou Dunker.

"É muito complicado quando você tem que trocar o pneu com o carro andando. Estamos aprendendo como lidar com essa situação e ouvindo palavras que não são tão agradáveis: isolamento, quarentena, distanciamento físico, abstenção sexual. E todo dia alguma coisa acontece: tem vacina? Não tem? Alguém morreu. É uma situação ansiógena para qualquer um", exemplificou Carmita.

"Em primeiro lugar, não existe excesso de informação. O que existe é excesso de informação ruim. As pessoas estão acreditando que a internet é tradutora de verdade", disse Karnal.

Como amenizar a quarentena?

"O confinamento acaba levando, necessariamente, a uma convivência mais ampla mais intensa, e casais que já estavam em um equilíbrio instável, têm maior propensão a brigas. Infelizmente, a violência doméstica cresce nesses momentos", explicou Carmita. "Recomendo às pessoas leitura. Sem nenhuma brincadeira, se você está com dificuldade para dormir, tem tanto romance que é só ler 10 páginas que dá para dormir", brincou Karnal, sem citar nenhum título.

Quais as vantagens e desvantagens de estar isolado sozinho ou com a família e/ou amigos? "Quando você não fala e o mundo ao seu redor não fala, você escuta coisas novas sobre você. Muda a nossa percepção do mundo e de nós. A diferença é a qualidade do que você está fazendo. Não acho que o isolamento produza algo novo, só acirra coisas que você já tinha. Trata-se de um processo de autoconhecimento. Acho muito complicado de qualquer jeito, mas há pessoas que talvez estejam melhorando nesse isolamento, e há pessoas que sozinhas estejam vivendo os melhores momentos de sua vida", continuou o historiador.

Dunker lembrou também que as pessoas parecem sofrer pelas mesmas coisas: tanto o jovem que mora sozinho e está longe da família, quanto as pessoas que estão com a família e filhos, e há muita demanda. "Os dois lados estão sofrendo por motivos distintos, mas na mesma coisa".

"As pessoas começam a perceber necessidades que antes não davam conta: poder andar na rua, estar em contato físico, falar com o outro sem se preocupar ou estar de máscara, como tudo isso é bom e podemos no dia a dia ser feliz e não nos dávamos conta. Quando tudo isso passar como vou ter minha vida de volta e um cotidiano que não percebia e agora parece extremamente precioso", lembrou Abdo.

Sofrimento, medo e angústia

"Uma das práticas de cuidado de si mais antigas para enfrentar o medo: o medo se torna pernicioso quando você nega e transforma em outra coisa. A angústia é que faz a gente negar, criar estados de desespero. Em vez de reagir à onda gigante, deixa ela te levar", aconselha Dunker.

Karnal, historiador que é sucesso no Instagram, com quase 2 milhões de seguidores, falou sobre a rede social: "Se você acredita no Instagram, é no mínimo uma pessoa ingênua. Não acredite no Instagram, isso é fundamental. Estão dizendo ali a persona que elas almejam. Aquilo lá é uma representação do que eu gostaria de ser", disse Karnal.

"Eu não posso fazer o que eu sempre me proibi de fazer, isso vira sofrimento. É outra coisa, um sofrimento de outro tipo. Quem tinha aspiração de sair da cidade natal e viver em outra, de repente sofre com o isolamento", explicou Contardo.

Autoridades como conforto?

Bouer levantou a questão de, algumas vezes durante a pandemia, as autoridades, sejam de saúde ou do poder Executivo e Legislativo, darem orientações até divergentes: fique em casa, saia de casa, só idosos em casa, vão trabalhar, vamos todos nos infectar, e a população ficar no meio da confusão sem saber para onde ir.

"É inevitável que a gente busque amparo nas autoridades simbólicas que a gente constituiu. E para essa situação, seria interessante que entre elas não houvesse discordância e divisão, mas o que estamos vendo é a inércia completa de pensar fora de si, da recusa da morte, do perigo real", explicou Dunker.

"Tem uma parte de irracionalidade maciça do que recebemos e isso é puramente ansiógeno. Tem uma tremenda onda de estupidez que nos assola e encoraja um comportamento mais inconsequente, mais arriscado", continuou o psicanalista.

"A primeira reação diante de uma perda é a negação. O discurso anticientífico é anterior à pandemia. Acredito que a vitória dessa crise será a vitória do pensamento racional e científico. Não é o seu grupo de WhatsApp que dará a resposta, é o pensamento de especialistas", avaliou Karnal.

"Eu gostaria que as pessoas ouvissem mais os meus colegas médicos", lembrou Carmita Abdo.

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