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Coronavírus pode levar sociedade a vida mais simples, dizem especialistas

Do UOL, em São Paulo

06/04/2020 14h48

Ainda não há previsões concretas a respeito de quando deixaremos, no Brasil e no mundo, o estado de isolamento provocado pela pandemia do novo coronavírus. Mas o período tem o potencial de levar a sociedade à busca de uma vida novamente simples.

O programa UOL Debate de hoje se propôs a debater a saúde mental diante do distanciamento social e da ansiedade gerada pela covid-19. Marcaram presença Carmita Abdo, psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da USP; Contardo Calligaris, escritor, psicanalista e dramaturgo; Vera Iaconelli, psicanalista e diretora do Instituto Gerar; Leandro Karnal, historiador e professor do Instituto de Filosofia da Unicamp; e Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP.

Para Carmita Abdo, o momento atual exige mudanças em nossos comportamentos. "Não podemos sair aliviados desse tapa de consciência que estamos vivendo", disse a psiquiatra. "O mundo tem que mudar. Essa epidemia não pode ser apenas algo que vai passar e nos deixar da mesma forma."

Contardo Calligaris, por sua vez, acredita ser possível que "a gente saia com uma versão melhorada" da pandemia.

"Acredito bastante em algo que é transformador. Se o confinamento durar, vai transformar nossos hábitos ou alguns deles — isso é muito poderoso. Empobrecimento global, econômico, crise... Acho que alguns vão mudar, sim. Todo mundo descobriu que, sim, é preciso fazer supermercado, mas sair para shopping não é entretenimento, que talvez a gente possa voltar a comprar", projetou Calligaris. "Praticar um estilo de vida mais simples. A vida simples, que possamos voltar para isso ao invés de consumos menores que afetam nosso empobrecimento (...). Talvez teremos produzido uma melhora da situação ecológica. Todos em casa, envenenando menos o ambiente. Aprendo que posso usar meu carro muito menos", acrescentou.

Já Vera Iaconelli propôs a discussão a respeito da desigualdade — durante a pandemia e também depois dela. "Esse acontecimento atinge a todos, e se for pensar na periferia de São Paulo, a pandemia já está lá faz tempo. Risco eminente, risco de morte. Espero que a gente saia com cabeça diferente", disse a psicanalista, segundo a qual "o pior é passar por tudo isso e retomar a uma vidinha normal".

Em um momento de incertezas e preocupações, Leandro Karnal reforçou a atenção à desigualdade social. E pediu para que pensemos "mais coletivamente".

"A pergunta mais frequente a um historiador é a pergunta profética: como vai ser o futuro? A epidemia desnudou nossa total desigualdade social — na vida, na morte, somos brutalmente desiguais. Ela mostrou que o atual ministro (da Saúde, Henrique Mandetta), que foi atacado hoje, é louvável e essencial para o país. Mostrou que a ciência é muito importante, a pesquisa que ocorre na universidade pública, mostrou que temos que pensar mais coletivamente. (...) Talvez tenhamos que lidar com as mortes, até as CNPJ; teremos que lidar também com a questão econômica. Foi a primeira que mobilizou o planeta. 'O mundo está acabando' é o gerúndio mais longo da historia — ele não vai acabar", avaliou.

Por fim, Christian Dunker citou a "experiência de perda" que as pessoas podem experimentar frente à escassez de alimentos em casa e do uso de máscaras em público, por exemplo. E mostrou acreditar que as ameaças podem despertar novas realidades.

"Alimenta a gente com ideia de solidariedade. Você não usa máscara para se proteger, mas proteger o outro. Se o outro usar também, você estará protegido. A contagem era: primeiro eu, depois o outro. Isso vai da ocasião para tirar o melhor e o pior de cada um, olhar para trás e perguntar como se comportou. Se despediu, não pagou, riu e saiu achando que era piada. A peste passará, isso não passará. Vou me lembrar dos que dizem 'estado mínimo', 'deixa o SUS para lá'. Doe o seu respirador, então, para mim, para o pessoal da periferia, ou então muda de cabeça", sugeriu.

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