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Hormônios predispõem depressão em mulheres com mais de 40 anos: como tratar

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Imagem: iStock

Priscila Gomes

Colaboração para o VivaBem

26/03/2020 04h00

"Tenho medo de sair de casa, só de pensar as pernas já começam a tremer, coração acelera, vem uma suadeira". Essas são as sensações descritas por Aline Lima, de 40 anos, mãe de sete filhos e moradora de uma ocupação na zona oeste de São Paulo. Ela está entre as mais de 14 milhões de pessoas que apresentam diagnóstico de transtornos ou sofrimentos mentais, de acordo com a PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) de 2013, do Ministério da Saúde.

Aline, que trabalha como cuidadora de idosos, acha que o que desencadeou a depressão, já diagnosticada, foi a série de problemas que enfrenta. "Sou mãe solo, cuido de sete filhos, sendo que dois têm necessidades especiais. Recentemente, sofri reintegração de posse onde moro e tudo isso fez eu ficar doente", explica.

Aline conta que já ficou dois meses sem sair de casa e por pouco não aconteceu o pior. Estava estudando o curso técnico de enfermagem, mas quando chegou às aulas de cálculo de medicação não conseguiu desenvolver o conteúdo e tentou se matar. Ela faz acompanhamento do tratamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e recebe orientação de estudantes de medicina de uma faculdade particular que oferece trabalho voluntário na ocupação onde mora.

Mulheres no alvo da doença

Na experiência do psiquiatra Alfredo Maluf, coordenador-médico de psiquiatra da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, os principais problemas mentais que afetam as mulheres acima dos 40 anos são a ansiedade e a depressão. As variações do hormônio estrogênio estão diretamente relacionadas à química da serotonina e de outros neurotransmissores, que hoje sabemos estarem ligados aos transtornos de humor.

Segundo a psicóloga Mônica Soutello, a depressão pode ser ocasionada em mulheres por uma conjunção de fatores biológicos e culturais. Circunstâncias como gravidez, estresse físico e emocional, fatores genéticos, o período após a menopausa e o próprio ciclo menstrual, que provocam alterações hormonais que podem levar a manifestação de sintomas depressivos.

Por fim, é comum vermos no Brasil mulheres sendo arrimo de família, como é o caso de Aline. Sendo assim, as exigências profissionais, as responsabilidades com criação de filhos —que muitas vezes são atribuídas apenas às mulheres — e os deveres em casa podem causar esgotamento e estresse, e assim serem gatilho para uma crise.

É como o caso de Lúcia*, 44 anos, divorciada e com 2 filhas —uma de 8 anos e outra de 4 —, que há quatro anos faz tratamento para depressão e ansiedade. "Acho que juntou tudo: gravidez que eu não esperava, chegada dos 40, hormônios e não ter um companheiro bacana. Sou artesã, trabalho em casa e ainda cuido das meninas —desde lavar, passar, cozinhar. Mal tenho tempo para sair e ver amigas, das poucas que restaram. Só saio de casa para levá-las na escola e ir em consultas. Ainda moro com o pai das minhas filhas, pois não tenho como me manter sozinha com elas —é horrível isso", conta a moradora da zona oeste que faz terapia, tratamento psiquiátrico, usa florais e pratica meditação.

Como tratar a depressão nessas mulheres?

Em muitos casos, a pessoa se sente culpada por estar deprimida. Em outros, pessoas próximas dizem que é a falta de vontade o que as impede de sair deste momento. No entanto, essas duas atitudes responsabilizam a pessoa que está doente e não ajudam no tratamento.

No entanto, isso não é verdade: a pessoa com depressão precisa de ajuda, e o primeiro passo é buscar um psiquiatra, que avaliará se ela precisa usar medicamentos para reverter esse quadro.

Além disso, junto com os medicamentos, é importante que a pessoa busque ajuda psicológica. A psicoterapia é sempre um instrumento na construção de um melhor caminho para o indivíduo, pois através do autoconhecimento, criamos mais recursos para lidar com dificuldades, sejam elas novas ou antigas.

O autocuidado também é importante: terapias mente-corpo como mindfulness, meditação, ioga, tai chi chuan, acupuntura entre outras, são práticas com comprovação em pesquisas que beneficiam a saúde emocional.

A alimentação saudável, natural, exercícios físicos, e fortalecimento do conceito de espiritualidade —que não precisa necessariamente estar no contexto religioso, mas sim de se questionar e buscar a sua verdade, de quem somos, por que vivemos, e de como podemos ser mais felizes — são pontos fundamentais para a saúde integrativa.

Atividades em grupo facilitam a socialização e também contribuem no tratamento. "Todas essas ações ajudam para que a mulher se sinta melhor, se goste mais, seja gentil com ela mesma", conclui.

*Nome modificado a pedido da personagem

Fontes: Mônica de Barros Soutello, especializada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora da Clínica Miosótis - Núcleo de Desenvolvimento Humano; Laisa Pessoa Botton Prada, psiquiatra da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo; Alfredo Maluf, coordenador médico de psiquiatra da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein; Lidia Myung, ginecologista e professora do Programa de Fellowship em Cirurgia Minimamente Invasiva e Endometriose na BP e membro da Clínica Medicina da Mulher, em São Paulo

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