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"Tentam ajudar, mas não entender": o que fazer se alguém cogita suicídio

A escuta é importante. Quem sofre precisa se sentir compreendido, acolhido na angústia que sente  - iStock
A escuta é importante. Quem sofre precisa se sentir compreendido, acolhido na angústia que sente Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

06/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • O comportamento suicida vai desde desejar morrer até uma tentativa que resulta em morte. Automutilações também entram nesse espectro
  • Quando alguém comunica ou transparece esse desejo, ele tem que ser levado a sério. É um sinal muito grande de necessidade de cuidado
  • É imprescindível ouvir com atenção e respeito, sem julgar. Escutar as angústias e dificuldades e afirmar que está ali, no sentido de ajudar
  • Dependendo do caso, é bom procurar um pronto-socorro ou os CAPS. Nos casos de risco iminente de morte, o SAMU deve ser acionado

Vinicius Buono tinha 23 anos quando tentou suicídio, em 2017. Os motivos não são simples de entender: um diagnóstico de depressão na adolescência, negação ao tratamento por anos, frustrações com episódios passados e decepções com o presente. A junção de tudo o fez pensar que já não havia mais nada a perder, restava um último pedido de ajuda. "É óbvio dizer isso, mas é, sim, um pedido de socorro. O problema é que é cansativo as pessoas tentarem me ajudar, mas não tentarem me entender".

Uma das características do comportamento suicida é a sensação de não pertencimento, de ser um fardo para os outros, um peso. "Infelizmente quem está tentando ajudar pode não entender esses sentimentos. Isso geralmente ocorre porque as pessoas desconhecem os transtornos mentais ou não aceitam o fato de a pessoa não seguir os padrões daquele grupo ou cultura", diz Jair Borges Barbosa Neto, psiquiatra, docente do Departamento de Medicina da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) que tem desenvolvido projetos e ações de prevenção ao suicídio dentro da instituição.

Vinicius acha que seu comportamento suicida foi uma forma de pedir ajuda às pessoas próximas para algo que nem ele sabia. "Só precisava que alguém conversasse de coração e mente abertos. Eu não sei o que realmente preciso, mas ajuda saber que tem alguém que só está lá, não se preocupando em encaixar aquela pessoa que está nesse estado no seu padrão do que é estar bem". Segundo ele, é só tentar entender a visão do mundo do outro, como ele enxerga e interpreta as coisas e tentar achar um jeito de ajudar, sem julgamento.

Estigma do transtorno mental

O preconceito com o sentimento do outro, ou melhor, o famoso achar que é "frescura" é um dos empecilhos para que o indivíduo em sofrimento busque ajuda. "Ele tende a não dar crédito para o que está sentindo ou não acredita que está doente", diz Neto.

Foi o caso de Jaqueline Moribe, 30, que demorou para buscar ajuda justamente porque a família a convencia de que o problema não poderia ser algo psicológico. "Eu sempre sofri bullying por ter sido uma criança tímida e obesa, mas com 12 anos eu me olhava no espelho e me odiava. Às vezes pensava em pegar uma tesoura e cortar os 'pneuzinhos'", lembra.

Um médico alertou os pais de que ela estava com depressão, mas o transtorno não foi levado a sério. "Eles nunca entenderam a timidez/tristeza que eu sentia como depressão. Achavam que era só um sentimento momentâneo". Jaqueline conta que achava que a culpa era sua e nunca pensou em buscar ajuda.

Suicidio; depressão - iStock - iStock
Quem ajuda tem que assumir um papel de apoio irrestrito, e não de quem sabe as respostas
Imagem: iStock

Aos 16 anos, começou a autoflagelação. Em casa, andava cheia de curativos e sempre usava roupas compridas. Quando descobriram, os pais não entenderam. "Eles brigavam comigo, falavam que sempre me deram tudo do melhor e não tinha razão alguma para me machucar ou sentir o que sentia", diz. Ela ainda conta que começou a sentir raiva, porque eles não compreendiam e acabava se machucando fisicamente porque a dor interna era muito maior.

Segundo Elson Asevedo, pesquisador do departamento de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o comportamento suicida vai desde desejar morrer, ter alguma ideação suicida passiva (o pensamento "seria melhor se Deus me levasse") ou ativa (pensar em se matar), planejar como fazer tentativas de fato até uma tentativa que resulta em morte. Além disso, automutilações —como provocar lesões em você mesmo, mas sem intenção de morte — também entram nesse espectro. O indivíduo faz isso sem o desejo de morte, mas pensando em se distanciar de uma dor emocional muito intensa, quase como uma forma de se distrair desse sofrimento.

A coordenadora do colégio em que Jaqueline estudava indicou uma psiquiatra, que a assustou. "Na primeira consulta ela já falou para os meus pais esconderem produtos de limpeza, estiletes, facas e remédios porque a qualquer momento eu poderia tentar me matar 'de verdade'. Nunca mais voltei nela, mas terminei de tomar os remédios que ela indicou."

Apesar de não ter mais recaídas que chegassem ao ponto de autoflagelação, Jaqueline sofreu surtos por causa do estresse profissional e decidiu que precisava de tratamento. Ela continua tomando remédio, faz terapia (que a ajudou a se entender e se aceitar) e desconta os sentimentos ruins na academia.

"Hoje acho que se meus pais tivessem me colocado para fazer psicoterapia ou análise, teria me ajudado mais rápido (além do tratamento com remédio contínuo)", diz.

Como saber que a pessoa precisa de ajuda?

A trajetória até a tentativa suicida é longa, de acordo com Asevedo. Provavelmente essa pessoa está sofrendo com sintomas há bastante tempo. É por esse motivo que, quando alguém comunica ou transparece esse desejo, ele tem que ser levado a sério. "É um sinal muito grande de necessidade de cuidado", diz ele.

Essa comunicação de sofrimento se dá de diversas formas. Desesperança, humor deprimido, sentimento de culpa ou fracasso, desespero, inquietação, insônia persistente, perda de peso, discurso pobre, cansaço, isolamento social requerem atenção máxima, segundo Elaine Di Sarno, psicóloga com especialização em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

E é importante evitar a associação direta com a depressão. Nem todo os pacientes com a condição pensam em se matar. Aproximadamente 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos psiquiátricos, dos quais quase 36% podem ser por transtornos de humor, categoria da qual a depressão faz parte. Abuso de substâncias psicoativas (como álcool, drogas ou remédios), esquizofrenia e transtornos de personalidade também podem levar ao suicídio quando não diagnosticados e tratados corretamente.

Suicidio; depressão - iStock - iStock
Nem todas as pessoas que tentam ou cometem suicídio têm transtornos mentais e nem todas as pessoas com transtorno mental pensam ou tentam suicídio
Imagem: iStock

Independentemente da causa, Sarno diz que mais de 2/3 dos suicidas expressam intenção de se matar. Mas mesmo que o indivíduo não deixe claro que está sofrendo, se houver suspeita, é importante conversar sobre o assunto. "Perguntar se ele às vezes pensa que seria melhor não ter nascido, que preferiria morrer".

No geral, é imprescindível ouvir com atenção e respeito, sem julgar, sem falar de moral. Escutar as angústias e dificuldades dele e afirmar que está ali, no sentido de ajudar, querer conversar, que está aberto a tudo o que ele tem a dizer. "Tem que ser acolhedor, amigo, nunca falar 'isso não é nada'. Tem alguém sofrendo ali".

Cada pessoa é única, então, não existe uma resposta pronta de ajuda. Para cada um será necessária uma ação individualizada, planejada e, de preferência, com a participação dele, para que o indivíduo ajude a identificar suas necessidades de saúde e a planejar o seu próprio cuidado e se responsabilize pela condução do seu tratamento.

No caso de quem é resistente ao tratamento, que fica agressivo e se isola, a ação deve ser diferente. Neto aconselha que a família procure ajuda especializada como o próprio CVV (Centro de Valorização da Vida), os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e, nos casos extremos de risco iminente de morte, até o próprio SAMU. "Nesses casos, os familiares ou pessoas próximas podem procurar profissionais especializados em saúde mental ou os serviços citados acima para que obtenham informação de como agir, mesmo que a pessoa se recuse a ir. Estes profissionais poderão apoiar o familiar e ajudar a planejar o que fazer."

Para as pessoas que tentaram o suicídio ou que estão pensando seriamente em tirar a vida é bom procurar um pronto-socorro (mesmo que não tenha psiquiatra, o médico ou alguém da equipe deverá acolher e avaliar o risco de a pessoa cometer o suicídio) ou então os CAPS. Quem fez, começou ou planejou algo bem específico para acabar com a vida não deve ser deixado sozinho. "Essas pessoas devem permanecer acompanhadas de alguém até que um profissional da saúde (de preferência, quando possível, especializado em saúde mental) a avalie e oriente a família ou a pessoa próxima sobre os próximos passos do acompanhamento. Nos casos de risco iminente de morte, o SAMU deve ser acionado.

Conversar faz bem

Vinicius diz que, por ser mais fechado nas relações familiares, não houve muita abertura para conversar sobre seu sofrimento. "Não querer dar trabalho passa muito pela minha cabeça. As pessoas ao meu redor não sabem porque não quero incomodar ninguém". Mas ele reconhece que falar é uma maneira de entender melhor o que sente e o que se pensa. "É difícil, mas depois, com o processo todo, você começa a perceber que botar para fora e ter apoio de outros faz diferença."

Segundo Neto, a tendência da família é pensar que o indivíduo nunca faria isso ou talvez desconversar ou não querer falar do assunto. Mas falar é uma espécie de oportunidade que a pessoa em sofrimento tem de pedir ajuda. "Pensar em morrer é, na maioria das vezes, ambivalente, ou seja, a pessoa pensa que quer morrer, mas, ao mesmo tempo, tem medo ou não quer que isso aconteça. Portanto, não adianta julgar. A sugestão é ficar junto, acolher e tentar, junto com a pessoa, encontrar uma forma de se cuidar."

Antonio Batista, 67, um dos voluntários do CVV em São Paulo, diz que a instituição existe justamente para quem tem dificuldade de conversar com pessoas próximas. "Na ligação, ela é a protagonista. A gente conversa para compreender, juntos, as motivações no interior dela", diz. "Valorizar a vida é prevenir o suicídio. As pessoas sabem o esforço que fazem para levantar todos os dias. Quando alguém se coloca à disposição do outra com interesse, disposição, ele se sente valorizado e pode escolher outro caminho, até pedir ajuda para um terapeuta ou psiquiatra."

Batista não considera o CVV um substituto para uma terapia especializada, mas um "pronto-socorro emocional". De acordo com ele, são dois seres humanos, um deles disposto a ouvir o outro. Poderia ser algo mais comum na sociedade, mas o isolamento e o julgamento parecem cada vez mais comuns. "Estamos acostumados com a correria da vida, então quando se fala do seu interior, o que aconteceu e ficou ali, faz diferença. É como se achasse um lugar adequado."

O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

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