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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Não consegue sentir prazer com a vida? O nome disso é anedonia; saiba mais

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Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

12/03/2020 04h00

De acordo com especialistas em psicopatologia a anedonia é um sintoma marcante da depressão —inclusive, trata-se de um dos critérios principais para o diagnóstico da doença. Porém, não só as pessoas depressivas deixam de sentir prazer em atividades ou interesses que antes eram considerados agradáveis.

A condição também pode estar relacionada a outros problemas psiquiátricos e neurológicos, como transtorno de ansiedade, esquizofrenia, hipotireoidismo, dependência química, Parkinson, estresse pós-traumático, distúrbios alimentares e demência, entre outros. Seja quais forem as circunstâncias, porém, a perda da satisfação em certos aspectos da vida —como os relacionamentos pessoais, por exemplo — merece atenção e exige cuidados, sob o risco de agravamento do quadro e risco de suicídio.

O principal sinal é a perda significativa ou incapacidade de sentir prazer em atividades das quais gostava anteriormente —sair com os amigos, ir ao cinema, passear na praia, ler um livro, fazer compras, etc. A pessoa parece estar emocionalmente "vazia", sem sentir nada nem sofrer alterações de humor independentemente do que aconteça ao seu redor. A sensação é de desconexão com o mundo. É válido ressaltar que a anedonia raramente surge como um sintoma isolado. Normalmente, ela é acompanhada de desânimo, cansaço, fadiga, apatia, diminuição de energia e dificuldade de concentração.

Segundo psiquiatras e neurologistas, a anedonia é uma questão neurobiológica e que está associada ao chamado circuito de recompensa do cérebro, principalmente na região do núcleo accumbens. Seu surgimento também costuma estar ligado ao aumento da atividade na região frontal do córtex pré-frontal, que, entre outras funções, controla a inibição das respostas emocionais.

E, ainda, à diminuição dos níveis de dopamina, importante neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar e prazer. Outros neurotransmissores envolvidos são a serotonina, a acetilcolina, a colecistoquinina e o glutamato.

O sistema neuronal de recompensa associa situações vivenciadas como positivas com a sensação de prazer e impulsiona o indivíduo a repeti-las. Na depressão, essa neurotransmissão encontra-se claramente alterada. Fatores externos como desemprego, problemas financeiros e enfrentamento de tragédias também podem suscitar a anedonia.

Diagnóstico envolve a sintomatologia da depressão

Para diagnosticar a anedonia, são adotados critérios internacionais e escalas usados por especialistas, pesquisadores e epidemiologistas. O diagnóstico clínico é feito a partir do relato e de observações das reações emocionais do paciente e/ou com a ajuda dos familiares. A anamnese envolve perguntas ao paciente sobre sentimentos em relação às atividades corriqueiras que costuma (ou costumava) gostar e sobre seus interesses.

Mas ela é bem diferente da tristeza: um aspecto para diferenciar a tristeza da anedonia é a duração. Enquanto a tristeza dura algumas horas ou até alguns dias, a depressão, sem o tratamento certo, pode durar meses ou anos. A tristeza é um sentimento normal e não afeta a sua produtividade - mesmo tristes, todos nós conseguimos realizar as tarefas simples do dia a dia. Já no caso da anedonia o sentimento ruim não passa e afeta vários aspectos da vida: saúde, trabalho, relacionamentos, família e vida social. Entretanto, a anedonia pode ocorrer na presença ou na ausência de tristeza. Pessoas com um quadro intenso de tristeza podem experimentar prazer em algumas atividades, apesar do sentimento.

Qualidade de vida é drasticamente afetada, pois a impossibilidade de se divertir ou de sentir prazer nas coisas mais simples, como ler um bom livro ou escutar música, acaba afetando a própria vitalidade, a maneira de ser e estar no mundo e, claro, os relacionamentos em todas as esferas. A pessoa não vê graça nem sentido em nada. É um sintoma relacionado a bastante sofrimento, perda de qualidade de vida, isolamento social e com aumento do risco de suicídio.

Em relação ao gênero, o feminino está mais relacionado ao sintoma porque as mulheres, segundo comprovações científicas, são mais suscetíveis a sintomas depressivos. Porém, é fato que os homens procuram menos tratamento especializado para transtornos psicológicos e suicidam-se mais. Já os idosos tentem mais à anedonia pela perda de vitalidade que ocorre com o avanço da idade.

Como funciona o tratamento?

Por ser um sintoma, e não um transtorno propriamente dito, a anedonia obrigatoriamente necessita ser tratada juntamente com a doença. O tratamento consiste na prescrição de medicamentos depressivos e de psicoterapia, associado ao estímulo à atividade física. No caso dos idosos, a exposição ao sol atua como coadjuvante do processo devido ao mecanismo hormonal de estímulo luminoso sobre a glândula pineal.

Um dado fundamental para ter em mente é que episódios ou transtornos depressivos mais leves respondem bem ao tratamento. Nos casos de maior gravidade, é necessário um tempo mais longo ou até para a vida inteira.

Técnicas de relaxamento e respiração e meditação, como a mindfulness (atenção plena) também são alternativas recomendadas por ajudarem a acalmar a mente, diminuindo os pensamentos negativos e proporcionando maior disposição.

A anedonia é um sintoma que pode ficar residual após a melhora de outros sintomas depressivos. Paradoxalmente, alguns antidepressivos podem levar ao embotamento emocional, piorando o problema —por isso o acompanhamento médico com rigor é essencial, a fim de o paciente receber a medicação adequada.

Fontes: Alfredo Toscano, psicoterapeuta e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; Cirilo Tissot, psiquiatra e diretor técnico da Clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra (SP); Elaine Di Sarno, psicóloga, pesquisadora e colaboradora do Projesq (Projeto Esquizofrenia) do Ipq HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Henrique Bottura, psiquiatra da Clínica Psiquiatria Paulista e colaborador do Ambulatório de Impulsividade do HCFMUSP; e Jerusa Smid, neurologista do Ambulatório de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do HCFMUSP, do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e do corpo clínico dos Hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio Libanês.

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