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Cancelamento não é boa forma de apontar erros: como afeta a saúde mental

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

21/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Cancelar pessoas é uma forma pouco eficaz para apontar erros, podendo trazer consequências negativas para quem cancela e quem é cancelado
  • Canceladores podem se tornar críticos demais e intolerantes. Criticados podem sentir abandono, desprezo e desconsideração
  • Todos cometemos erros e nem todos somos cancelados. Dar espaço para o outro amadurecer e saber perdoar é mais eficaz do que um cancelamento

Cancelar é um termo recente da internet para boicotar pessoas famosas (ou nem tanto) por comportamentos que o público considere como inadequado. A pessoa é exposta por sua conduta e então cancelada pelo comportamento: as pessoas deixam de segui-las e consumir seus conteúdos online ou mesmo físicos. Artistas, influenciadores, atletas e qualquer personalidade pública estão sujeitos a serem cancelados, caso diga algo que as pessoas julguem como controverso e preconceituoso.

Apesar de usarmos o termo "cancelamento" muito mais para famosos, pessoas anônimas também podem ser "canceladas" pelos amigos, quando diz algo controverso e os amigos deixam de ter contato com ela.

Redes sociais aproximam pessoas virtualmente, porém isso ocorre com uma proteção: como o contato não é presencial, muitos sentem que podem falar o que quiser. Com um teclado em mão, muitos se acham juízes e especialistas nos mais diversos assuntos.

Embora tenha dado a oportunidade de falar a indivíduos que normalmente não teriam voz na sociedade, muitos utilizam essa oportunidade para expressar a sua opinião, algo que não é saudável quando usamos isso para apenas julgar e rotular pessoas.

Por que o cancelamento é ruim?

Porque pode impulsionar atitudes veladas, como o preconceito sutil, aquele que é expresso de formas socialmente aceitas em busca de desejabilidade social, ou seja, as pessoas seguem a tendência, independente do que pensam, por imaginarem que essa tendência é mais aceita socialmente.

Impulsiona também uma busca por uma perfeição incessante e inexistente e que pode impedir a pessoa de aceitar seus defeitos, afinal, ninguém quer ser cancelado ou restringido. A pessoa tende a começar uma luta interna em que tenta e não consegue, e se frustra diante dos conflitos que a vida nos apresenta.

Muitas vezes alguém é cancelado por algo que fez no passado. Mesmo que a pessoa já tenha reconsiderado do que fez ou disse, acaba julgado pelo tribunal da internet, o que é um erro, já que as pessoas mudam com o tempo e muitas coisas que fizemos há cinco ou 10 anos, já não faríamos hoje.

Danos à saúde mental

Canceladores de plantão podem se tornar pessoas críticas demais, além de intolerantes, o que nunca é saudável para ninguém. Já os cancelados podem sofrer psiquicamente com as consequências de algum tipo de represália ou julgamento mais duro. Abandono, desprezo, desconsideração e esquecimento são alguns sentimentos que podem atingir a pessoa cancelada, afetando sua saúde mental.

Existem formas menos agressiva de sinalizar ao outro que alguma fala ou atitude que ele teve não agradou. A conversa franca é sempre a melhor opção, mas é importante prestar atenção na maneira como se dirigir ao outro, sem apontar dedos ou julgar suas atitudes.

Além disso, precisamos dar espaço para as pessoas amadurecerem. Crescer demanda tempo e espaço. Ao mesmo tempo em que a gente oferece espaço para que as pessoas se desenvolvam e cresçam, a gente quer ter esse espaço para desenvolver e amadurecer também. O que geralmente acontece, porém, é que acabamos impedindo o outro de se desenvolver e criar trajetos, projetos e percursos singulares e exclusivos, ligados a própria subjetividade.

Vale lembrar que precisamos aprender a perdoar os erros das pessoas, porque nós também erramos. O perdão é uma ferramenta de amor-próprio. A medida em que esvaziamos espaços em nossas mentes liberando rancor, mágoa, ressentimento, emoções negativas e desgastantes, cedemos espaço ao amor, a empatia e ao perdão.

Cancelar alguém, funciona?

Não existe trégua: basta um pequeno deslize e pronto, estará "cancelado". A internet não perdoa, não aceita o erro alheio ou deixa que a pessoa se responsabilize e sofra as consequências pelo erro que ela cometeu. Aceitar a falha do outro é diferente de concordar com esse erro. O problema é que a cultura do cancelamento não só cancela a atitude, como cancela a pessoa. Já parou para pensar se você fosse cancelado toda vez que comete um erro?

Para alguns a cultura do cancelamento induzirá ao isolamento, para outros a relações tóxicas, onde sempre está se esperando um erro do outro para emitir um julgamento. Varia de pessoa para a pessoa. Pode ser que para uns o isolamento seja uma posição reconfortante e que lhe dê algum tipo de segurança e um falso conforto, enquanto para outras não.

Fada sensata: o outro lado da moeda do cancelamento

Para promover aquele ou aquela celebridade que, ao oposto do cancelado, tenha uma atitude sensata, falas que remetem ao bom senso e comportamentos dignos de reconhecimento, a internet cunhou o termo fada sensata, utilizado em geral para mulheres ou público LGBT. Mas, se rebaixar alguém com o cancelamento pode ser um problema, exaltar demais pode colocar as pessoas em posições de autoridade sobre as outras.

Sempre que super generalizamos características de alguém, positivas ou negativas, podemos cair no viés de pensamento que alguns teóricos chamam de visão em túnel, ou seja, escolhemos enxergar apenas alguns fatos e sistematicamente ignoramos outros. Um exemplo na própria internet são as redes sociais, onde as pessoas são perfeitas, suas vidas são incríveis e suas atitudes são todas perfeitas e maravilhosas. A própria expressão "fada" remete a irrealidade e fantasia: ninguém age certo 100% do tempo, assim como a vida de ninguém é 100% perfeita ou 100% feliz.

Oscilações são muito comuns e fazem parte da vida e as redes sociais são, muitas vezes, maquiagens da vida real. Isso acaba impactando do outro lado: temos uma ideia de que os artistas são incríveis e que eles não podem errar. Além disso é uma intolerância muito grande quando algum artista erra ou faz alguma coisa que os outros não aprovem e que possivelmente serão cancelados. Faz parte da vida não agradar a todos e tudo e quanto mais as pessoas entenderem o funcionamento das redes sociais e que a vida de ninguém é perfeita, melhores e mais saudáveis deveriam ser as relações entre as pessoas e redes sociais.

Fontes: Leonardo Luiz, psicólogo e psicanalista, professor de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville; Yuri Busin, psicólogo, doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor do CASME (Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio); e Linniker Matheus Soares de Moura, psicólogo.

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