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Parar remédio psiquiátrico de repente causa alterações de humor e insônia

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

05/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Tratamentos psiquiátricos são feitos sob medida para cada paciente e atuam diretamente no cérebro
  • Interromper a medicação repentinamente traz consequências físicas e mentais, dependendo do problema e do remédio, pode levar o paciente até a óbito
  • Na maior parte dos casos a doença retoma e pode ser ainda mais forte. É importante saber as possíveis consequências antes de parar o tratamento

Recentemente uma discussão tomou conta da internet após Gabi Martins, participante do BBB20, ter afirmado que teve de parar a medicação do seu tratamento antidepressivo para poder participar do programa. A moça teve mudanças no humor, além de dormir bastante, sintomas que os internautas atribuíram a uma resposta do corpo à falta da medicação.

Não sabemos se houve ou não um acompanhamento profissional, mas a interrupção brusca de um tratamento psiquiátrico, sem a orientação do médico responsável, é sempre desaconselhada. Apesar disso, mesmo pessoas que nunca frequentaram um reality show podem ter essa atitude.

Riscos

Ao tomar um remédio psiquiátrico, ele promove mudanças neurofisiológicas as quais o cérebro se adapta. Se o paciente interrompe abruptamente o uso da medicação psiquiátrica, especialmente antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos, pode desencadear sintomas de retirada, ou síndrome de descontinuação.

Os sintomas de descontinuação mais frequentes são:

  • Tontura;
  • Náuseas;
  • Vômitos;
  • Dor de cabeça;
  • Sensação de cabeça vazia;
  • Sensação de andar em nuvens;
  • Calafrios;
  • Irritação;
  • Insônia;
  • Alterações de humor.

Esses sintomas podem começar de algumas horas a até 3 dias a partir da interrupção do tratamento e frequentemente desaparecem até a segunda semana.

Para alguns medicamentos específicos, como benzodiazepínicos e anticonvulsivantes, os sintomas de retirada podem ser ainda mais graves, com tremores, sudorese, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, alucinações, confusão mental, crises convulsivas e até risco de morte.

Por que a medicação é necessária?

Todo tratamento psiquiátrico é único, pois varia de pessoa para pessoa e pode ser dividido em duas etapas: a primeira consiste em atingir a melhora completa dos sintomas. Não há um prazo para que esse objetivo seja concluído, mas deve ser o mais rápido possível. Frequentemente eles duram de várias semanas a alguns meses.

Assim que se atinge a melhora completa, inicia-se a segunda etapa, que tem por objetivo prevenir o reaparecimento do quadro, evitar recaída ou recorrência. Este momento contempla medidas não medicamentosas, como psicoterapia, atividade física, cuidado com o sono e alimentação, interrupção do uso de álcool, tabaco e outras drogas, entre outras. Mas sempre que a primeira etapa tiver sido concluída com tratamento medicamentoso, os remédios devem ser mantidos durante algum tempo durante a segunda etapa.

Assim, a duração necessária do tratamento pode ser de curto prazo (alguns dias ou semanas), médio prazo (meses) ou longo prazo (anos ou por toda a vida). Se o tratamento medicamentoso for interrompido inadvertidamente, sem planejamento, o desfecho clínico pode ser prejudicado. A chance de reaparecimento dos sintomas é bastante em até 12 meses após a interrupção. Algumas vezes os sintomas retornam com maior gravidade e mais resistente ao tratamento.

Diversas razões podem levar ao abandono

Quem abandona um tratamento sempre tem uma justificativa para se apoiar. Raramente será para participar de um programa de TV, mas é comum encontrar o preconceito da família e amigos, perceber que isso vai contra a sua religião, etc. E, embora não pareça, a descontinuação do tratamento por vontade do próprio paciente é bastante comum, não somente em tratamentos psiquiátricos, mas também em doenças como hipertensão e diabetes.

Do ponto de vista médico geral, não há dúvida de que a interrupção de um tratamento sem a anuência do médico responsável é uma péssima alternativa e aumenta as chances de recaída. Mas se a pessoa ainda assim não quer continuar com o tratamento, por ter outras crenças ou prioridades, é necessário saber que o transtorno mental provavelmente vai piorar nos meses seguintes à interrupção. E é preciso fazer essa transição aos poucos para evitar os efeitos colaterais.

Apoio da família é fundamental

Ter o apoio da família deixa o paciente mais confiante e fortalecido para seguir em frente com o tratamento. Ao perceberem a interrupção abrupta do tratamento, os familiares devem conversar com o paciente, ouvir os motivos da interrupção e reforçar a importância de seguir o planejamento terapêutico feito pelo médico.

Também é importante entrar em contato com o médico para comunicar a interrupção e discutir orientações específicas. Alguns transtornos mentais podem cursar com alteração na capacidade de tomada de decisão e na percepção da realidade, como em um episódio psicótico agudo, e podem gerar riscos graves para o paciente. Nesses casos, pode ser necessária uma intervenção mais incisiva da família e do profissional de saúde para garantir o tratamento.

Fontes: Elson Asevedo, psiquiatra do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo) e Teng Chei Tung, psiquiatra, coordenador de interconsultas do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo).

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