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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Ser autêntico não é fácil, mas é atraente: como ser mais fiel a si mesmo

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

13/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Ser autêntico é assumir-se como é, com qualidades e defeitos, sem falsidades ou máscaras, independente da ideia ou opinião do outro
  • A autenticidade implica no reconhecimento de nossos defeitos, falhas, limitações e fracassos, ser você mesmo sem ser sempre o mesmo
  • Você imprime a autenticidade em uma conversa com amigos, ao se olhar no espelho ou demandamos a exigência de nosso reconhecimento

Em um tempo em que reality shows estão na moda, costumamos ouvir com muita frequência a frase "o importante é que estou sendo eu mesmo". Essa necessidade de afirmação da própria autenticidade pode ser entendida como um sinal de alerta: por que é necessário, em nosso tempo, afirmar repetidamente a nossa autenticidade?

Vejamos o que a frase quer dizer: se eu estou sendo eu mesmo, significa, por um rápido exercício de lógica, que (1) é possível não ser si mesmo ou, (2) que há pessoas sendo algo que não reflete o que de fato são (os falsos ou inautênticos) e (3) que a autenticidade é um valor que precisa ser reconhecido e validado por outros.

Em uma sociedade que nos permite uma enorme variação em relação a identidades (podemos defini-las pela nossa sexualidade, trabalho, gostos pessoais, tendências políticas, preferências musicais, esportes, etc), a definição de autenticidade é facilmente confundida com a necessidade de diferenciar-se do comum. Ser si mesmo, portanto, implicaria em não ser o outro. E justamente aí está o problema desse tipo de compreensão, já que também somos resultado de uma série de identificações construídas ao longo de nossa história.

Carl Rogers, psicólogo estadunidense e criador da Abordagem Centrada na Pessoa, falava sobre ser autêntico no processo psicoterápico, mas podemos adaptar o conceito em nosso modo de vida. Para ele um ser autêntico é aquele sem máscara ou fachada e que apresenta de forma aberta os sentimentos e atitudes que emergem no momento relacional, sem falsidade, onde o sujeito se assume como é, com seus defeitos e virtudes. Já para a psicanálise, não se trataria de ser ou não cópia do outro, de estarmos ou não identificados com algo ou alguém, mas sim da capacidade de não trair a si mesmo.

Por que às vezes temos dificuldades em ser autênticos?

Autenticidade requer, consequentemente, sinceridade, mas pode ser muito difícil porque isso implica em diferentes atos de afirmação da diferença. Mas repetir a diferença é algo muito complicado, pois, em determinado momento não sabemos mais se o que está sendo afirmado não é a cópia da cópia.

Se a autenticidade é medida ou sentida por aquilo que ela exprime de singular, manter-se na repetição e reafirmação de um modo de ser acaba se tornando uma forma falsa de copiar a si mesmo. Isso é muito comum em casos de artistas ou figuras públicas que se tornam conhecidas por algo de autêntico e, rapidamente, são vistos pela maioria como uma imitação falsificada do que já foram.

Ou ainda, por uma coerção social: algo que em nossa sociedade tem sido abafado há muitos anos em nome da polidez. Deixamos de ser sinceros, de responder ou agir da forma que queremos, somos ou que achamos com medo de magoar, ferir ou ser criticados pelas pessoas. Em nome se uma suposta polidez social que nada mais faz do que criar máscaras em todos nós.

Autenticidade atrai, mesmo quando não buscamos agradar

Em dias de virtualização das relações, quanto mais somos percebidos como verdadeiros, mais as pessoas tendem a se aproximar de nós. As redes sociais e propagandas vendem vidas perfeitas demais e padrões impossíveis de alcançar, por isso, quando nos enxergam como autênticos, chamamos a atenção. A pessoa autêntica transmite uma liberdade que também atrai.

É importante lembrar, no entanto, que a autenticidade humana sempre deve tender ao bem-estar pessoal e do outro. Não adianta querer sair por aí magoando a todos em nome da autenticidade. Sempre ponha o bem em primeiro plano.

Mas como ser uma pessoa autêntica?

Ser autêntico exige um encontro trágico consigo mesmo. Isso porque um sentimento de autenticidade requisita igualmente um reconhecimento de nossos defeitos, falhas, limitações e fracassos. Isso não quer dizer que precisamos ter sempre a mesma opinião ou o mesmo estilo, não é necessário ser idêntico a si mesmo para ser autêntico.

Embora possa parecer contraditório, não é preciso ser egocêntrico ou espalhafatoso para ter o sentimento de autenticidade. O reconhecimento da autenticidade se dá pela maneira como os atos fazem transparecer a harmonia com as intenções e valores pessoais.

Pessoas tímidas podem ser muito autênticas, mesmo que em silêncio, da mesma forma como gritos podem ser meras repetições de pensamentos alheios. É assim que o poeta Mário Quintana pedia que o amor não fosse gritado de cima dos telhados, mas vivido em sua brevidade e na autenticidade de um saber querer ao outro (e nem por isso, menos verdadeiro). Rogers resumiu isso em: seja sincero e congruente consigo mesmo, aceitando a si mesmo e buscando sempre o crescimento.

Benefícios da autenticidade

Ser autêntico nos permite uma vida mais leve e com mais saúde; o que não significa dizer que devemos ser inconsequentes ou não tentar mudar algum aspecto nosso que seja indesejável ou incômodo. Significa que devemos nos aceitar a ponto de sabermos quem somos e, dessa forma, mudarmos a nós mesmos de uma forma congruente. Viver sem máscaras é um presente ao mundo e a nós mesmos.

Além disso, nos permite não ser tão facilmente manipulados por interesses que nos sejam contrários e possibilita uma capacidade maior de elaborar planos e metas para um futuro que resulte em bem-estar e respostas mais eficazes frente a sentimentos de culpa e ansiedade em contextos sociais e mais facilidade em dialogar e respeitar diversidades. Isso permite um convívio mais harmônico com pessoas e discursos diferentes do seu, já que estar seguro em relação a sua forma de ser é também um modo de não ter de sentir-se invadido ou ameaçado por algo que não lhe seja idêntico.

Como incorporar a autenticidade no dia a dia?

A autenticidade pode fazer parte do dia a dia a partir da nossa necessidade constante de tomadas de escolha e de posição, ou seja, ser autêntico também é não se ausentar de si mesmo nas questões que lhe são diretamente pertinentes.

Por isso a autenticidade acaba se tornando um ato político: estar presente e implicado nas decisões que efetivamente lhe são próprias. A maneira como nos vestimos, nos portamos, como nos endereçamos ao outro, como falamos, como reconhecemos alguém ou demandamos a exigência de nosso reconhecimento: tudo isso insiste em nos colocar em questão e é justamente aí que o desejo comparece como uma forma especial de autenticidade.

Fontes: Tiago Ravanello, psicólogo e psicanalista, professor associado da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e Linniker Moura, psicólogo.

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