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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Até que ponto precisamos da aprovação dos outros? Entenda qual é o limite

É bom receber reforço positivo do outro, mas não deixe de atender seus desejos - iStock
É bom receber reforço positivo do outro, mas não deixe de atender seus desejos Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o UOL VivaBem

16/05/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Muitas pessoas ouvem mais a opinião dos outros e deixam de viver seus desejos, o que pode ser nocivo. Mas não escutar os outros atrapalha as relações
  • É importante achar um meio termo, sem perder a própria identidade, mas não ignorando o bom senso
  • Uma forma de perceber se você liga mais para a opinião do outro do que seus desejos é se perguntando há quanto você deixou de fazer algo por isso

Viver em função dos que 'outros vão pensar' é muito limitante, pois a pessoa acaba perdendo a autenticidade para conseguir se sentir aceita. E não é um mérito ser amada quando suas ações e opiniões estão suprimidas o tempo todo. O desafio é justamente saber até que ponto se deixar levar pelas avaliações externas, que sempre vão existir.

O comportamento humano é muito influenciado e moldado pelos outros. "Afinal, todos queremos ser aceitos, e não importa quão talentosos ou bem-sucedidos somos, nem sempre temos autoconfiança em nossas capacidades podendo nos deixar levar por opiniões alheias", explica a psicóloga Graça Maria Ramos de Oliveira, supervisora do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Até onde vai o limite?

Viver em sociedade e relacionar-se exige flexibilidade, sendo que na prática fica muito difícil impor sempre a opinião própria. Portanto, ceder é fundamental. De acordo com André Rabelo, pesquisador pela UnB (Universidade de Brasília), esse cuidado com a reputação é profundamente natural. "Ter algum tipo de preocupação e ser motivado a fazer algo para melhorar a imagem social não é problema", afirma.

Portanto, observar as opiniões alheias e tentar adequá-las à sua realidade é quase uma ação involuntária. E esse é o limite. Pois, os nossos desejos também devem prevalecer e o equilíbrio está justamente em conciliar opinião pessoal e bom-senso. "Dependemos do olhar do outro para descobrir quem somos, mas não podemos nos tornar alienados ao desejo alheio, sem conseguir alcançar o caminho da autonomia", alerta o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP.

Nem lá, nem cá

A busca pelo equilíbrio é um grande desafio. E o mesmo acontece no momento de filtrar a opinião externa que não pode guiar as nossas ações completamente, mas também não deve ser totalmente descartada. Por isso, qualquer um desses excessos pode interferir no comportamento do indivíduo.

O 'tô nem aí para o que os outros pensam' pode causar isolamento social e gerar muitos conflitos de relacionamento. "Isso demonstra ausência de sensibilidade e pode levar a ações inadequadas", diz Rabelo. Por isso, é importante estar atento ao feedback externo, afinal em alguns casos eles irão sinalizar que é momento de refletir e até mudar.

Já quem vive em função da opinião do outro demonstra excesso de sensibilidade, podendo enfrentar problemas de autoestima e humor. Em qualquer sinal mínimo de avaliação negativa, a pessoa já demonstra desequilíbrio e isso dificulta a manutenção de relações saudáveis, podendo até levar a um estado de depressão.

Sinal de alerta piscando

Em muitos casos, a pessoa que é refém da opinião dos outros não se dá conta dessa dependência. Portanto, é importante fazer uma autoavaliação para desvendar se esse cuidado não está passando dos limites.

"Uma fórmula fácil é observar se nos desculpamos demais pelo modo como agimos, mas ficar o tempo todo pedindo desculpas por opiniões ou comportamentos diferentes é um sinal de alerta", afirma Graça Maria. Preocupar-se demais com as avaliações externas também exige atenção, pois isso pode engessar nossas atitudes, dificultando a tomada de decisões de forma rápida e assertiva.

De maneira mais clara, a pessoa vai se acovardando diante do próprio desejo. E isso gera uma culpa permanente. "Quem vive em função de agradar ao outro vive uma vida de culpa, pois entende que seu desejo é sempre incorreto ou inconveniente", comenta Dunker. E ainda assim, se perceber a situação ainda está complicado, anote duas dicas:

  • Procure lembrar a última vez que se sentiu mal com comentário de alguém.
  • Tente recordar a ultima vez que deixou de fazer algo que queria apenas para agradar ao outro.

E pontue esse sentimento de zero a 10, sendo zero (não sentiu nada) ou 10 (sentiu-se muito mal). "Analisar como reage as tais situações pode ajudar a enxergar o problema", diz Rabelo.

Comece a mudar

A boa notícia é que o problema tem cura. Com ajuda de psicoterapia é possível sair dessa zona de conforto e aprender a se impor mais. Afinal, apenas a percepção não irá corrigir o comportamento. Rabelo diz que há uma atividade chamada Treinamento em Habilidades Sociais, desenvolvida por psicólogo, que ajuda o indivíduo a desenvolver competências que o ajudarão a se impor mais, sem ser agressivo ou sentir-se mal.

E no dia a dia, é importante saber reconhecer as próprias capacidades e valorizar suas conquistas, sem se preocupar com o que os outros pensam. "Adotar uma atitude mais positiva frente a si mesmo, orgulhar-se de suas tentativas e escolhas e evitar fazer comparações de sua vida com a dos outros, pois isso nos leva a um estado de infelicidade", sugere Graça Maria.

É fundamental reforçar que nosso autojulgamento nem sempre é generoso conosco e isso pode ser muito danoso. Padrões de pensamentos negativos sobre a própria capacidade podem vir a impedir de descobrir e potencializar realizações e seguir objetivos e caminhos com mais confiança. Existem pessoas com realizações impressionantes, mas a percepção de si mesmos é muito abaixo do seu potencial. "As redes sociais podem intensificar essa necessidade de aprovação, por isso a dica é diminuir o tempo de exposição", finaliza a psicóloga.

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