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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Vítimas de tiros têm mais chance de dependência química e desemprego

Pesquisa avaliou 183 pacientes e foi publicada na revista científica JAMA Surgery - Sharon McCutcheon/Unsplash
Pesquisa avaliou 183 pacientes e foi publicada na revista científica JAMA Surgery Imagem: Sharon McCutcheon/Unsplash

Cristiane Bomfim

da Agência Einstein

05/12/2019 12h25

As consequências das lesões por arma de fogo vão além dos danos à saúde física dos sobreviventes e podem perdurar por anos após o trauma. É o que mostra uma pesquisa liderada por Michael Vella, cirurgião especializado em traumas do Centro Médico da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, e publicada na revista científica JAMA Surgery.

Na lista dos prejuízos sofridos pelos sobreviventes a tiros estão a persistência do Transtorno de Estresse Pós-Traumático por até dez anos após a lesão, uso de substâncias (de medicamentos a drogas ilícitas) e aumento da taxa de desemprego.

Para avaliar os impactos destas lesões a longo prazo, a pesquisa avaliou relatos de 183 pacientes adultos vítimas de arma de fogo que tiveram alta entre janeiro de 2008 e dezembro de 2017 e afirmaram ter pior saúde física e mental após o evento, que em média ocorreu 5,9 anos antes do estudo. Destes, 48,6% apresentaram achados positivos para Transtorno de Estresse Pós-traumático

. O desemprego e o consumo de álcool e drogas foram, respectivamente, 14,3% e 13,2% maiores após o evento. "Estes resultados mostram a necessidade de um entendimento mais profundo dos impactos a longo prazo dos ferimentos por arma de fogo para fornecer cuidados mais adequados e personalizados a essa população única de pacientes", afirma Michael Vella.

De acordo com André Vilela, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência), da USP (Universidade de São Paulo), os achados da pesquisa norte-americana são preocupantes e podem ser transpostos à realidade brasileira. Para se ter uma ideia, 47.510 pessoas morreram por arma de fogo, segundo o Atlas da Violência 2019.

Além disso, levantamento do Ministério da Saúde divulgado no início do ano mostrou que o SUS (Sistema Único de Saúde) gastou R$ 191,33 milhões com atendimento de pessoas baleadas entre 2015 e 2018. "Ferimentos por armas de fogo devem observados além da questão de segurança pública e do tratamento físico imediato da vítima, uma vez que os números desta pesquisa mostram que os danos perduram. Cinco anos após o evento ainda causam uma série de transtornos", diz.

Resposta emocional frente a uma situação pontual, intensa, de medo e angústia, que tem início definido e inesperado - como um acidente, assalto, tiro - o Transtorno de Estresse Pós-Traumático tem como sintomas irritabilidade, falta de energia, ansiedade e tristeza. Ele pode levar à mudança de hábitos e ter impacto na vida social e profissional. "A pessoa fica revivendo essa angústia de forma intrusiva. Se não tratado, o transtorno pode se tornar crônico e levar a sérios problemas, como o aumento do consumo de álcool e drogas que servem para relaxar, dando a falsa sensação de controle dos sintomas", afirma Thiago Machado, especialista em Psicologia Hospitalar do Hospital Israelita Albert Einstein.

Já o desemprego pode estar associado tanto às sequelas do ferimento - que, por exemplo, podem reduzir a mobilidade - quanto a mudanças de hábito promovidas pelo transtorno após o trauma. A pessoa não consegue sair de casa para trabalhar por medo, ansiedade ou qualquer outro sintoma que não foi tratado.

Como se vê, o tratamento das sequelas da violência precisa ir muito além do atendimento no hospital. "Sabemos que o sistema de saúde tem uma série de limitações e o acompanhamento psicológico das vítimas de arma de fogo acaba sendo negligenciado em médio e longo prazo", afirma Bruno Langeani, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, uma das mais importantes entidades do País envolvida no combate à violência.

"Porém, é preciso este olhar para garantir a qualidade de vida dessas pessoas. É uma questão de saúde, em um país que tem índices altíssimos de violência armada."

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