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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Coringa: o ambiente pode ser responsável por doenças mentais e violência?

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Imagem: Divulgação

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

11/10/2019 04h00

* Atenção: o texto a seguir contém spoilers.

É difícil sair do cinema sentindo-se exatamente da mesma forma que entrou após assistir o novo filme do Coringa. Com cenas que causam profundo incômodo, a obra do diretor Todd Phillips traz à tona uma discussão sobre solidão, violência mental e física e, principalmente, sobre a saúde mental do personagem e como ela parece ter sido "moldada" pelo ambiente em que ele viveu.

Assim como algumas das maiores metrópoles do mundo, Gotham City, a cidade fictícia onde a história se passa, é marcada pela violência, sujeira, desorganização e corrupção. E isso está, sim, associado a uma maior taxa de transtornos mentais. "É cada vez mais comuns vermos pessoas depressivas e ansiosas em cidades grandes, por causa da urbanização excessiva", expõe o psiquiatra Rodrigo Leite, diretor dos ambulatórios do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo).

Apesar de nenhum diagnóstico específico ser exibido durante a trama e ser difícil cravar quais transtornos o palhaço representado por Joaquin Phoenix tem, fica claro para o telespectador que o vilão sofre de múltiplos quadros psiquiátricos: ele toma sete medicamentos diferentes, menciona já ter sido internado em manicômio e fantasia sobre um relacionamento que não existe, além de ter um riso incontrolável não compatível com suas emoções.

Mas cai em uma armadilha muito comum dos grandes streamings quem pensa que a violência cometida por ele pode ser simplesmente gerada por sua saúde mental debilitada. Apesar de ser uma explicação muito usada pelas tramas, ela não é compatível com a realidade. O ambiente e as relações sociais é que tornam o personagem violento, não suas doenças, conforme explica Leite.

"Apenas um pequeno percentual de pessoas com transtornos mentais se torna violenta. Se fosse o contrário, as penitenciárias seriam hospícios e, na verdade, já sabemos que é mais comum que os detentos comecem a desenvolver quadros psiquiátricos após entrarem no cárcere."

Violência gera violência

O psiquiatra explica que o meio em que Arthur Fleck — nome real do Coringa no filme — vive influencia muito mais seu comportamento agressivo do que necessariamente uma doença mental. "A mente é um produto social, nosso cérebro funciona como uma esponja que capta todos os estímulos, uma antena que assimila experiências, emoções e situações, produzindo o que nós somos", aponta Leite.

E, de fato, o ambiente vivenciado pelo personagem não é nada fácil. Sem estabilidade econômica, Arthur cuida da mãe doente, sofre humilhações, um episódio de violência física logo no início do filme e não tem uma relação de proximidade com ninguém além da família. "O isolamento é um fator que pode facilmente levar as pessoas à instabilidade emocional", explica Luiz Sperry, psiquiatra e blogueiro do VivaBem.

Mas alguém que já não tem boa saúde mental pode ser considerado mais propício a externar a violência que recebe? Não necessariamente. "É como a estrutura de uma ponte. Se estiver boa, pode passar o peso que for e nada acontecerá. Se a estrutura não for forte, é possível que ela abale ou quebre, mas isso nem sempre vem na forma de violência", esclarece Sperry.

Agressividade não é o único resultado

Indivíduos expostos à violência desde a infância -- como o filme mostra ser provavelmente o caso de Coringa -- socialmente isolados ou constantemente humilhados podem demonstrar suas experiências negativas de diversas formas e a violência não é comumente uma delas. Depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou vícios como o abuso de álcool, cigarros e até sexo. "As atitudes ou até transtornos que se estabelecem fazem sentido de acordo com a história da pessoa", conclui Sperry.

Criminalidade para deixar de ser invisível

"Durante toda a minha vida, eu não sabia se realmente existia. Mas existo. E as pessoas estão começando a perceber", diz Coringa à sua terapeuta após cometer o primeiro crime.

Para o psiquiatra da USP, a questão de sentir-se invisível e recorrer ao crime possui forte relação com a vida real. "A violência acaba tendo uma função de valorização social, um poder de visibilidade para sociedade. É uma forma de o indivíduo sentir-se poderoso, como um homem com arma de fogo na mão ou alguém que de uma hora para outra ganha muito dinheiro... O filme faz uma crítica aí sobre como deixamos de enxergar aqueles que passam por situações de vulnerabilidade. Ficamos ocupados com questões como o beijo gay, mas esquecemos que as crianças da periferia estão expostas à violência", alerta o especialista.

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