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Peso ou alimentação saudável? Entenda o que é mais importante para a saúde

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

30/09/2020 04h00

A maioria das pessoas parece estar mais preocupada com o número na balança e não com o que come. Não é de se admirar, pois diariamente somos bombardeados com métodos e dietas restritivas para perder peso. Muita gente que vem ao meu consultório já tentou de tudo para emagrecer, mas depois de um tempo acabam ganhando mais peso e se frustrando.

Para quem tem excesso de peso, perder alguns quilos é geralmente elogiado, mesmo por profissionais de saúde, como sendo o caminho para a resolução de uma série de problemas de saúde e para prolongar a vida.

Mas um grande estudo da Universidade de Uppsala, na Suécia, publicado na revista científica PLOS Medicine, mostra que a alimentação saudável parece ser mais importante que o peso.

Você não precisa perder peso para se tornar mais saudável

Os pesquisadores acompanharam 79.000 pessoas por 20 anos. A população do estudo consistiu em participantes de 2 estudos que tiveram início entre 1987 e 1990: o Swedish Mammography Cohort, com mulheres nascidas entre 1914 e 1948; e o Cohort of Swedish Men, com homens nascidos entre 1918 e 1952. Eles analisaram a associação entre o Índice de Massa Corporal (IMC), a adesão a uma alimentação mediterrânea e o risco de morte.

Para este estudo, uma alimentação saudável de estilo mediterrâneo foi caracterizada por uma variedade de frutas, verduras, legumes, nozes, grãos integrais ou ricos em fibras (pão integral, aveia, farelo de trigo), laticínios fermentados (leite fermentado, iogurte, queijo), peixes, azeite de oliva ou óleo de canola para cozinhar ou temperar. As pessoas que foram aderiram à alimentação mediterrânea também reduziram o consumo de carne vermelha e de álcool.

O estudo mostrou que as pessoas classificadas na categoria "obesos", de acordo com o IMC, não tiveram um risco significativamente maior de morte em comparação com aqueles considerados como tendo um IMC "normal". Mas as pessoas na categoria de peso "normal", que não seguiram a alimentação mediterrânea, tiveram um risco de morte maior do que as pessoas em qualquer categoria de peso que seguiram a alimentação mediterrânea.

Isso mostra que uma alimentação saudável, como a mediterrânea, pode modificar a associação entre IMC e mortalidade.
Esse não é o único estudo que apresenta essa relação. Na verdade, a maioria das pesquisas de longo prazo revelam que pessoas com sobrepeso e com obesidade leve vivem tanto (ou mais) quanto pessoas com peso normal. Esse fenômeno é conhecido como Paradoxo da Obesidade.

Não dê tanta importância ao peso

É muito comum supor a saúde de alguém com base no tamanho de seu corpo, como também presumir os hábitos alimentares de alguém a partir de seu IMC. Olhamos para alguém com obesidade e quase que imediatamente imaginamos que ela só come fast-food e alimentos de alta densidade energética.

No entanto, isso não passa de um preconceito, pois esta pesquisa e muitas outras mostram um conjunto crescente de evidências de que o IMC pode não ser o melhor indicador de saúde, nem determinante da nossa alimentação.

Em vez do IMC, uma alimentação saudável parece ser mais indicada para a avaliação da saúde, independentemente do peso. Ao considerar isso podemos nos concentrar mais no que colocamos no nosso corpo e menos no seu tamanho.

Quando as pessoas decidem adotar hábitos saudáveis com foco na qualidade de vida e no bem-estar e não na perda de peso, é mais provável a adesão a mudanças de estilo de vida, porque a pressão para emagrecer e o sofrimento que podem estar atrelados a isso diminuem.

Inclusive, pode ser mais fácil manter o peso a longo prazo, evitando o efeito sanfona, consequência tão comum das dietas de emagrecimento, que até levam à rápida perda de peso, mas definitivamente não são sustentáveis.

Também é preciso considerar que existem muitos obstáculos para termos uma alimentação saudável. Não se trata de falta de força de vontade, como muitos gostam de apontar. Somos responsáveis pelo que comemos sim, mas apenas até certo ponto.
Muitos fatores influenciam nosso peso: genéticos, biológicos, comportamentais, sociais, culturais, ambientais. E não temos controle sobre todos eles. Pense na genética, por exemplo, não podemos mudá-la voluntariamente. Por outro lado, questões ambientais também não dependem exclusivamente da boa vontade do indivíduo, que é exposto a alimentos ultraprocessados e de alta densidade energética a todo momento.

Por isso, uma alimentação de qualidade necessita estar amplamente disponível. Ou seja, porque não colocar frutas, legumes e verduras nas seções iniciais dos supermercados? E porque não dar incentivos aos alimentos in natura, ao mesmo tempo em que se taxa os industrializados, que geralmente apresentam um custo reduzido?

7 dicas para ter uma alimentação saudável

Se você está buscando melhorar a sua alimentação, lembre-se que a alimentação mediterrânea não é o único modo saudável de se alimentar. Quando pensamos no Brasil, esse padrão pode não ser tão acessível para a maioria das pessoas. Para termos uma alimentação saudável, também precisamos respeitar a cultura e os hábitos locais, consumir mais comida fresca, caseira e baseada em alimentos in natura.

Mas isso precisa ser incentivado sem estigma de peso pelos profissionais de saúde e pela sociedade em geral. É hora de adotar uma abordagem diferente e um novo olhar sobre a obesidade também se faz necessário.

Por isso, em vez de restrição alimentar, trago aqui 7 dicas para quem deseja ter uma alimentação saudável.

1. Coma com prazer
É comum acreditar que uma alimentação prazerosa é incompatível com a saúde. Mas na verdade, o prazer é muito importante para uma alimentação saudável. Inclusive, comer com prazer nos fazer comer menos. Quando você come algo que não gera satisfação, é muito comum que continue procurando um alimento extremamente prazeroso e comê-lo em exagero.

2. Confie no seu corpo
Em vez de seguir regras alimentares rígidas com porções e quantidades de alimentos, ouça os sinais do seu corpo. Ele diz para você quando está com fome e quanto está saciado, respeite-o!

3. Seja mais gentil com o seu corpo
É totalmente compreensível que um grande número de pessoas se sinta insatisfeito com seu corpo, pois diariamente somos bombardeados com informações que nos levam a isso. Mas existem pessoas saudáveis com corpos de todos os tamanhos e lembre-se do tanto de coisas que seu corpo, do jeitinho que ele é, permite você fazer: dançar, cantar, pular, abraçar, trabalhar... as possibilidades são inúmeras.

4. Liberte-se das dietas restritivas
Você até pode perder peso de forma rápida com restrições alimentares. Mas à troca de que? A longo prazo as dietas não funcionam e é muito provável que você já tenha sentido isso na pele. Em vez de restringir, insira alimentos de todos os grupos alimentares e aproveite os benefícios que eles trazem para a saúde.

5. Cozinhe mais
Além de ser uma ótima forma de consumir mais alimentos in natura e de ter mais consciência do que come, você pode meditar enquanto cozinha e ter mais bem-estar e qualidade de vida.

6. Tenha a saúde como seu objetivo principal
Já disse aqui porque não focar no peso. A saúde é nossa bem maior. Foque nela e no seu bem-estar. Assim fica mais fácil adotar um estilo de vida saudável e que trará muitos benefícios para você.

7. Busque profissionais que tratem de peso sem estigma
Caso esteja com excesso de peso ou problemas de saúde que envolvam a alimentação, não precisa lidar com isso sozinho. Procure profissionais especializados e que tratem seus pacientes com respeito e sem estigma de peso.

Bon appétit!

Sophie

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL