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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pra que servem o dia 1º de dezembro e o Dezembro Vermelho?

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

03/12/2021 04h00

Em 1988, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) determinou que no dia 1º de dezembro seria celebrado o Dia Mundial da Aids (World Aids Day). Desde então, usamos esse dia para homenagear todas as milhões de vidas que foram perdidas até hoje em decorrência dessa doença e para nos lembrar que ainda temos muitos quilômetros a frente para correr nessa maratona até chegar ao fim da pandemia de HIV.

Em 2021, o 1º de dezembro tem um significado ainda mais especial, pois esse ano se completam 40 anos de pandemia de HIV. Sobretudo com a pandemia simultânea de covid-19, também devastadora, é fundamental que se faça uma reflexão sobre esse dia simbólico.

Segundo o próprio Unaids, desde o início da pandemia de HIV, 79,3 milhões de pessoas se infectaram com esse vírus, dos quais 36,3 milhões morreram em decorrência de complicações da Aids. Isso não significa, no entanto, que a infecção por HIV tem uma letalidade de 46%, uma vez que a maior parte dos óbitos registrados até hoje ocorreram nas 2 primeiras décadas de pandemia, quando não tínhamos ainda disponível um tratamento antirretroviral eficaz.

Ao longo dos 40 anos de pandemia de HIV/Aids, presenciamos uma verdadeira revolução médica e tecnológica, fazendo com que, em 2021, tratar uma pessoa diagnosticada com essa infecção ou impedir que alguém se infecte com o HIV se tornassem tarefas extremamente fáceis quando temos disponíveis as ferramentas desenvolvidas em pesquisas clínicas.

A partir do momento em que uma pessoa que vive com HIV tem acesso a todo o pacote de cuidado da saúde, com o tratamento antirretroviral e acompanhamento médico, multiprofissional e laboratorial, não se espera mais que a sua expectativa de vida seja encurtada, e sim que ela se prolongue. A explicação para isso é que o HIV, quando tratado, não mata ninguém e ainda por cima coloca o indivíduo numa rotina de cuidado longitudinal e de promoção de saúde.

Essa história pode parecer bonita quando contada dessa forma, mas na vida real as coisas sempre são um pouco diferentes. Somente no ano de 2020, 1,5 milhão de pessoas se infectaram com o HIV e foram registrados 690 mil óbitos por causa dessa infecção no mundo.

Se métodos eficazes de prevenção e tratamento do HIV já existem, continuamos registrando números obscenos de incidência e de mortalidade porque há barreiras impedindo o acesso da população mundial a eles. Cada novo caso de infecção por HIV ou de morte por Aids é a evidência de que falhamos.

A primeira e mais antiga barreira para atingirmos o controle da pandemia de HIV é o preconceito e a discriminação que a sociedade impõe sobre as pessoas que vivem com esse diagnóstico. A sorofobia de forma irracional afasta a população do diálogo, da educação em saúde, da prevenção, da testagem e do tratamento, jogando quem vive com HIV no papel de cidadão culpado, impuro e perigoso.

O Dia Mundial da Aids serve para lembrar que cada vez que você, que não vive com HIV, reproduz um discurso sorofóbico, está contribuindo para impulsionar e manter viva a pandemia de HIV.

A outra grande barreira para o controle do HIV é uma mazela antiga da humanidade: a desigualdade social. Da mesma forma que na pandemia de covid-19, o acesso aos insumos de saúde e prevenção é completamente desigual entre os países do mundo e entre os subgrupos em cada país. Quem historicamente tem menos acesso à saúde é, como esperado, mais impactado por essas pandemias.

O 1º de dezembro serve para nos lembrar que a pandemia de HIV não acabou. Que as ações de saúde pública para o seu enfrentamento, a pesquisa científica e os seus respectivos financiamentos são essenciais e não podem em hipótese alguma diminuir.

Na esteira de outras campanhas de conscientização, como o Setembro Amarelo, Outubro Rosa ou o Novembro Azul, o Dezembro Vermelho foi criado em 2017 com o intuito de estender por todo o mês o debate do dia 1º de dezembro.

Se aproprie dos conceitos levantados no Dezembro Vermelho e leve eles para a sua vida, o ano todo. A pandemia de HIV/Aids faz muito mais parte da sua vida do que você imagina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL