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Tratamento do HIV evoluiu muito em 40 anos, mas ainda há espaço para mais

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para VivaBem

08/09/2021 04h00

Até o final de 2020, cerca de 37,6 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo. Por conta da evolução do tratamento, atualmente a expectativa de vida de uma pessoa infectada pelo vírus da imunodeficiência humana é muito semelhante ao restante da população.

Mas nem sempre foi assim. No começo da década de 1980, logo quando o HIV começou a ser relatado, a comunidade científica mundial enfrentou o seu maior desafio: como tratar uma doença mortal causada por um vírus desconhecido? Era algo totalmente novo para os cientistas e pesquisadores, logo, receber um diagnóstico de HIV era quase uma sentença de morte.

De acordo com Valdez Madruga, infectologista e pesquisador da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento - DST/Aids (SP), no início, a doença era conhecida como "peste ou câncer gay", pois ainda acreditava-se que apenas os homossexuais eram infectados.

"Depois, descobriu-se que a doença atingia também pessoas com hemofilia e usuários de drogas endovenosas e, posteriormente, mulheres. Apenas aí começaram a pensar que o HIV era transmitido por um agente infeccioso por meio da relação sexual ou por transfusão de sangue", relembra.

A situação gerou um pânico mundial e a Aids, que é uma síndrome clínica, ou seja, quando surgem os sintomas, foi disseminada amplamente. De forma bastante resumida, o HIV (sigla do vírus da imunodeficiência humana, em inglês), ataca o sistema imunológico, que defende o organismo de doenças.

O vírus tem como células-alvo os linfócitos T CD4, responsáveis por identificar e destruir os microrganismos estranhos que entram no corpo humano. Sendo assim, os infectados desenvolviam Aids e morriam após contrair infecções oportunistas, ou seja, doenças que seriam combatidas facilmente por um sistema imunológico competente. Era o caso da pneumonia ou tuberculose, por exemplo.

Nesta época, as pessoas infectadas ainda morriam pouco tempo depois do diagnóstico. "Não tínhamos medicamentos disponíveis para tratar a doença. Eram tratamentos paliativos. Somente no final dos anos 1980 começaram a surgir os primeiros medicamentos e mesmo assim a resposta não era boa", completa Valdez Madruga, que também é coordenador do Comitê de Aids da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Os primeiros antirretrovirais

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Imagem: Thinkstock

Madruga explica que uma das primeiras drogas a ser utilizada para o tratamento foi o AZT (zidovudina). O medicamento era usado inicialmente para tratar leucemia e depois se tornou uma opção de antirretroviral para o HIV. No entanto, os cientistas perceberam que o vírus ganhava resistência ao medicamento.

"Surgiram outros medicamentos, mas a eficácia era baixa e as pessoas continuavam morrendo", explica Gisele Gosuen, infectologista e responsável pelo Ambulatório de HIV e o Envelhecer, da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo).

Apenas na metade dos anos 1990 surgiu a terapia antirretroviral altamente ativa, conhecida como "coquetel" ou HAART. A partir daí, as pessoas melhoraram consideravelmente e as mortes declinaram. Esse tipo de tratamento impede que o vírus se reproduza e se multiplique.

"O tratamento ganhou o nome popular de 'coquetel' por ser uma combinação de medicamentos. Após a euforia inicial, começamos a notar que tinha muitos efeitos colaterais e baixa tolerabilidade", destaca Madruga.

Imagine precisar ingerir um grande número de comprimidos com intervalos rígidos ou em jejum? A maioria passava mal —surgiam náuseas, diarreias, fadiga e tontura, o que impactava a adesão e contribuía com as mutações, tornando o vírus resistente ao medicamento.

"A pessoa chegava a ingerir de 20 a 30 comprimidos por dia. Muitos desistiam ou não ingeriam adequadamente, o que aumentava o risco de falhas de tratamento e desenvolvimento de resistência viral", afirma Jaime Emanuel Brito, infectologista do Hospital Universitário Alcides Carneiro, em Campina Grande (PB), da Rede Ebserh.

No entanto, o "coquetel" unia drogas que inibiam as enzimas que reproduziam o vírus. Com isso, pela primeira vez, a doença começou a se tornar crônica, ou seja, os medicamentos aumentavam consideravelmente a expectativa de vida das pessoas infectadas com HIV.

Evolução constante

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Imagem: iStock

A ciência continuou evoluindo e novos medicamentos foram surgindo. O objetivo dos cientistas sempre foi diminuir a quantidade de comprimidos, a frequência das doses e reduzir os efeitos colaterais. Atualmente, existem dezenas de medicamentos com diferentes combinações possíveis para tratar a infecção do HIV.

Apesar de ainda não existir a cura, a maioria das pessoas com o vírus ingere antirretrovirais coformulados de duas ou três drogas em combinações.

Uma pessoa com HIV ao iniciar a terapia com medicamentos antirretrovirais diminui sua carga viral no organismo (indetectável), ou seja, fica com uma quantidade de vírus pequena no sangue, que não é possível detectar. Geralmente, a situação ocorre cerca de seis meses após o tratamento.

Com isso, o vírus começa a ser menos transmissível. Atualmente, especialistas entendem que o tratamento também funciona como uma forma de prevenção da disseminação do HIV, em termos de saúde pública. Mas é necessário continuar o acompanhamento com os médicos e seguir o tratamento sem interrupções.

Vale lembrar a importância do uso do preservativo nas relações sexuais para prevenir o HIV e outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), como sífilis e HPV (Papiloma vírus humano).

Avanços e perspectivas para o futuro

O Brasil é um dos poucos países no mundo que disponibiliza o antirretroviral gratuitamente desde 1996. E desde 2013, o SUS (Sistema Único de Saúde) garante o tratamento para todas as pessoas com HIV, independentemente da carga viral e da contagem de linfócitos T CD4.

Além da cura e da vacina, os cientistas e pesquisadores querem garantir que o tratamento passe a ser apenas um único comprimido diário, com coformulações de diferentes classes de antirretrovirais. E já há estudos bem avançados com antirretrovirais injetáveis de longa duração, que poderão estar disponíveis para todos em breve.

Para os especialistas consultados por VivaBem, a evolução do tratamento nas últimas quatro décadas foi bastante positiva. "É uma doença muito nova e até o uso do AZT foi fundamental. Hoje consideramos o HIV uma infecção crônica, que exige tratamento vitalício. Atualmente, há pacientes que envelheceram com HIV. Foi uma grande conquista", diz Gosuen.

Vivendo com o HIV/Aids

Vanessa Campos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanessa Campos
Imagem: Arquivo pessoal

A história de Vanessa Campos, 49, é muito semelhante à de milhares de pessoas em todo o mundo. Por não fazer parte do "grupo de risco", ela demorou dois anos para receber o diagnóstico de HIV.

Moradora de Manaus, o resultado do teste levou cerca de dois meses para ficar pronto. "Fui infectada em 1990, quando tinha 17 anos. Descobri apenas quando meu ex-namorado morreu devido às complicações da Aids em 1992. O diagnóstico foi um choque. Achei que tinha pouco tempo de vida e não existia tratamento para a doença", completa.

Mais de 30 anos depois, Campos tornou a sua missão lutar contra a discriminação e o preconceito, e se comprometeu a ajudar as pessoas com HIV a conhecer seus direitos e ter mais qualidade de vida. Hoje em dia ela é secretária de Informação e Comunicação da RNP+Brasil (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids).

Para Vanessa, foi fundamental nunca deixar de fazer planos por conta do HIV. Sendo assim, se casou duas vezes e teve três filhas. Ela luta diariamente pelo direito sexual e reprodutivo das pessoas com HIV.

Atualmente, está há 15 anos com a carga viral indetectável, mas acredita que ainda há muita falta de informação e pouca "escuta-ativa" dos médicos, o que leva a baixa adesão ao tratamento.

"É comum que, após o diagnóstico, o indivíduo ainda pense que vai morrer ou imagine que nunca mais poderá se relacionar. Somos pessoas e não um vírus. Nossos direitos e nossa dignidade precisam ser respeitados", conclui.

Referências: Unaids Brasil, Ministério da Saúde e CDC (Centers for Disease Control and Prevention).

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