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Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

São Paulo já se tornou a capital da PrEP. Mas ainda quer melhorar

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Imagem: Getty Images
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do VivaBem

05/03/2021 04h00

A pandemia de covid-19 e o caos que ela trouxe fazem com que muitas vezes a gente se esqueça de comemorar as coisas boas que estão acontecendo, mas elas existem e nunca é tarde para lembrar delas.

Agora no início do ano, completamos três anos da incorporação da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) ao SUS (Sistema Único de Saúde). Muita gente não sabe, mas até que isso se tornasse uma realidade, membros do Ministério da Saúde e da sociedade civil tiveram que percorrer uma difícil maratona que durou anos —por isso essa conquista para a saúde pública brasileira precisa ser sempre celebrada.

É motivo de celebração também a expansão do acesso a esse método de prevenção. Ainda que de forma desigual, o número de usuários de PrEP cresceu consideravelmente nesses últimos 3 anos.

De acordo com a ONG AVAC - Global Advocacy for HIV Prevention, o mundo terminou o ano de 2020 com marca de 928.750 pessoas em PrEP, sendo que a maioria delas vivia na África Subsaariana, Estados Unidos e Austrália. E, dos três, a África é a região em que esse número está crescendo com a maior velocidade.

O Brasil está logo em seguida nessa lista. Terminamos o mês de janeiro de 2021 com o total de 30.819 pessoas já tendo iniciado o uso da PrEP desde o começo da sua dispensação pelo SUS e, na última semana, a cidade de São Paulo foi a primeira do país a ultrapassar a marca dos 10.000 usuários em PrEP.

A cidade de São Paulo já vem há algum tempo colhendo os bons frutos do seu empenho na distribuição gratuita da PrEP, como por exemplo a redução de 25% em apenas 2 anos no número de novos casos de infecção por HIV registrados anualmente no município. Mas ainda procura formas de melhorar ainda mais o seu desempenho no controle dessa epidemia.

Uma das preocupações é o abandono do seguimento da PrEP. Das 10.226 pessoas que iniciaram PrEP em São Paulo até agora, 42% interromperam o seu uso durante o seguimento. Buscar maneiras para manter os usuários retidos à PrEP é um desafio que todas as regiões do mundo enfrentam na atualidade. Compreender o motivo do abandono, no entanto, pode ser uma tarefa difícil, que envolve o reconhecimento da precariedade do serviço de saúde, das desigualdades sociais e dos gargalos da cidadania.

A desigualdade está presente também no perfil das pessoas que buscam PrEP. Em São Paulo, 79% delas tinham mais de 30 anos de idade, 61% eram brancas e 73% tinham 12 ou mais anos de estudo. Esses dados preocupam não porque as pessoas mais velhas, brancas e com nível superior não teriam indicação do uso de PrEP, mas por existir um grupo enorme de pessoas jovens, não-brancas e menos escolarizadas vulneráveis ao HIV, que poderiam estar se beneficiando da Prevenção Combinada, e muitas vezes nem sabem que a PrEP existe e está disponível pelo SUS.

Desde o início da distribuição da PrEP em 2018, para tentar reduzir as disparidades de acesso a esse método de prevenção e ter um controle preciso da distribuição dos comprimidos, o Ministério da Saúde determinou que só poderiam retirar a medicação da PrEP gratuitamente nas farmácias públicas as pessoas que estivessem sendo acompanhadas pelo SUS. A ideia fazia sentido, mas não atingiu seu objetivo. A PrEP gratuita se disseminou bem menos entre os menos privilegiados.

A pasta, no entanto, está planejando um projeto piloto que será desenvolvido em São Paulo, de dispensação da PrEP gratuitamente para qualquer usuário, independente de onde esteja sendo acompanhado, inclusive para convênio e particulares. Da mesma forma que já acontece há décadas com o tratamento antirretroviral das pessoas que vivem com HIV.

Ainda que já seja possível comprar a PrEP no mercado privado, a disponibilização ampla e gratuita dessa medicação é um avanço no enfrentamento do HIV/Aids no Brasil. É também uma forma de garantia de direitos, de cumprimento da constituição e dos princípios do SUS. Torcemos para que a estratégia seja bem sucedida e que esse seja um passo importante para ampliar para o resto do Brasil as vitórias paulistanas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL