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Paola Machado

Nem toda "agulhada" é acupuntura e método também vai além das agulhas

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

27/10/2020 04h00

O termo "acupuntura" deriva do grego "acus" , que significa aço, e "puntura" que significa furo ou picada. Na origem chinesa, contém as palavras "ferro" e "fogo" representando, respectivamente, o agulhamento e a moxabustão. É importante dizer que diferentes métodos como, agulhamento, ventosa e os demais que iremos destacar ao longo da matéria podem ou não estar dentro da filosofia da Medicina Tradicional Chinesa.

A ciência já comprovou os efeitos fisiológicos benéficos das terapias integrativas, que podem ajudar no tratamento e saúde das pessoas. Entre os benefícios trazidos por esses métodos estão, por exemplo, a liberação de substâncias vasoativas induzidas, melhora da oxigenação e fluxo linfático local, ativação do sistema imunológico, analgesia e relaxamento muscular por liberação de serotonina e opiáceos (endorfina, encefalina e dinorfina), e também efeitos neurobiológicos, como atuação de neurotransmissores relacionados ao humor e à depressão.

No Brasil, a partir de 2006, foi garantido o acesso gratuito da população na rede pública a esse tipo de tratamento na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.

Mas será que toda agulhada no corpo é considerada acupuntura?

Não necessariamente todo agulhamento pode ser considerado acupuntura, bem como nem toda acupuntura é feita somente por meio de agulhas. Para entender isso, é de suma importância dizer que existem vertentes em escolas de prática e ensino, que se embasam em diferentes conhecimentos. Por exemplo, a tradicional japonesa geralmente se associa aos ensinos formais em especializações médicas, e a medicina tradição chinesa aos cursos livres de formação de profissionais.

AURICULOTERAPIA A orelha é representada como microssistema do corpo. Ao se estimular um determinado ponto da orelha, por meio da inserção de agulhas, esferas de diferentes materiais ou sementes, partes do corpo recebem o impulso. Pode ser usada como forma independente da Medicina Tradicional Chinesa. Conheça os benefício da auriculoterapia.

VENTOSATERAPIA A sucção é usada como método terapêutico. As ventosas são aplicadas sobre a pele e o vácuo estimula a circulação sanguínea. Também pode ser usado de forma independente da Medicina Tradicional Chinesa e utilizado, principalmente, no alívio de dores e contraturas musculares. Conheça todos os benefícios da ventosaterapia.

MOXABUSTÃO O uso de calor produzido pela queima de uma erva específica em forma de charuto. Geralmente usado em pontos dos meridianos da abordagem da Medicina Chinesa.

ACUPUNTURA A LASER Os pontos específicos na pele são estimulados por um aparelho de laser, no lugar do uso da agulha. É considerado uma alternativa para pessoas que têm medo do agulhamento ou puncturas.

ELETROACUPUNTURA As agulhas são usadas junto a um dispositivo específico que gera impulsos elétricos contínuos. O impulso elétrico gera efeito analgésico. É indicado em casos de tensão muscular intensa e dores.

DRY NEEDLING O agulhamento é usado em pontos específicos —fora do mapa dos meridianos—, com o objetivo de tratar pontos gatilho, tem maior foco muscular e tensional. Usado por profissionais de saúde para tratar trigger points (distúrbios dolorosos).

QUIROPUNTURA Muito similar ao princípio da auriculoterapia. Pode ser chamada de Acupuntura Coreana, na qual pequenas agulhas são aplicadas na mão.

CRANIOPUNTURA Aplicação das agulhas em pontos específicos superficiais da cabeça. É embasado em somatotopias e microssistemas, representações do organismo em áreas circunscritas do corpo, nesse caso representativas do córtex cerebral.

Em relação a todos esses métodos, é importante ressaltar que as escolas ou conhecimentos possuem abordagens e objetivos terapêuticos diferentes. Os estudos científicos geralmente abordam o mesmo termo para descrever essas diferentes abordagens, o que dificulta que sejam estabelecidas as diferenças mais específicas e não há comprovação de que um recurso seja superior ao outro. O mais importante é avaliar qual trará benefícios a cada paciente e em cada caso individualmente. Vale reler um texto que fiz quebrando alguns tabus sobre a acupuntura.

Assim como em qualquer abordagem terapêutica, esses recursos irão proporcionar resultados diferentes em cada pessoa e em cada quadro específico. Diferentes profissionais da área da saúde podem usar o método e cada conselho é responsável por regularizar seus respectivos profissionais. Hoje, temos fisioterapeutas, Médicos, Dentistas, Psicólogos, Acupunturistas etc.

Vale o bom senso ao fazer uso desses recursos, lembrando que em cada caso há contraindicações e restrições que o profissional deve sinalizar. Dentro do atendimento de fisioterapia, esses conhecimentos agregam a tratamentos associados a cinesioterapia em áreas como reumatologia, ortopedia, saúde feminina e até mesmo no desempenho esportivo.

*Colaboração Dra. Renata Luri, fisioterapeuta doutorada pela Unifesp e Juliana Satake, fisioterapeuta especializada pela Unicamp e sócia da Clínica La Posture.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL