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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Após três anos escrevendo sobre covid-19, é a minha vez: o que aprendi

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Imagem: iStock

Colunista de VivaBem

21/03/2023 04h00Atualizada em 21/03/2023 10h37

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Na sexta, dia 17, acordei rouca, como se uma corda vocal raspasse na outra produzindo um som arranhado. Que, no meu caso, dona de uma voz fininha e infantilizada, dava até um tom bem-vindo de mulherão de filme francês. E fui levando o suposto charme por toda a sexta.

Ah, não, não posso dizer que senti dor na garganta, de que muita gente fala quando conhece um tipinho ômicron — prazer! Melhor, prazer coisa alguma! O que quero dizer é: não leve a ferro e fogo aquela lista de sintomas que eu mesma tantas vezes reproduzi nesta coluna, porque esse infeliz é versátil em suas aparições por aí. Respeite qualquer coisa que sentir diferente.

Na madrugada entre a sexta e o sábado, veio a febre e, por causa dela, os calafrios. E, no fim desse dia, a tosse. Muita tosse. Não consigo abrir a boca para falar um "a" sem tossir.

Aqui vem a primeira lição e, no fundo, a razão de eu escrever este texto. Acreditem: meu corpo inteiro dói como se tivesse sido atropelado por uma jamanta, a cabeça pesa e os miolos explodem. Deveria estar fazendo um sagrado repouso.

Mas se eu, que escrevo todo dia sobre saúde há muitos anos, precisei reaprender algumas lições básicas — oferecidas gentilmente por grandes doutores que viram a notícia nas minhas redes sociais —, talvez possa ajudar um ou outro de vocês compartilhando o que eles me disseram, certo?

Sempre pode ser covid-19 e é melhor saber se é ela mesmo

Eu poderia ter feito o teste no sábado. Com 48 horas de sintomas, ele já me diria toda a verdade — antes desse prazo, a depender do teste, o resultado poderia me iludir com um falso negativo. É preciso segurar um pouco a ansiedade nessas primeiras horas.

Por que não fui me testar no sábado, então? Porque minha filha, no final de semana anterior, apresentou sintomas parecidos —obstrução nasal, febre e tosse. Fez um teste de boa procedência na farmácia e deu negativo. Na segunda-feira, como cursa Medicina, passou no pronto-socorro do hospital da sua faculdade e ali se submeteu ao infalível PCR, que não deixa margem à dúvida. Negativo de novo. Ouviu dos médicos que ela estava com uma super gripe.

Logo, mamãezinha aqui deduziu que pegou a gripe da filhota. Gente, errado, errado, errado: ninguém aqui é médico, não dá para tirar conclusões da própria cabeça.

Se soubesse que era covid-19, não teria saído para ver um familiar. Menos mal porque usei máscara. Aliás, espero que você também tenha assimilado que, daqui em diante, nariz escorreu, espirrou ou tossiu — sendo gripe, resfriadinho ou covid-19 —, saia de máscara por respeito ao próximo. O acessório é prova de cuidado, educação e elegância.

A escolha do teste

Sou "rata" de teste. Eu me testo se volto de uma viagem, depois de enfrentar um aeroporto lotado, por exemplo. Cada um sabe de si — eu tenho idosos na família e quero fazer minha parte para protegê-los. Só que aprendi de longa data com um imunologista que respeito muito a não confiar em qualquer teste ou autoteste.

No domingo, a febre aumentou, beirou os 39ºC. E o pior, ao menos para mim: entrei no lavabo de casa, onde há um desses aromatizadores de ambiente, e não senti o cheirinho de capim-limão no ar. Saí desesperada do local. Meti o nariz no pote com pó de café, borrifei meu perfume — e nada.

Um famoso hepatologista escreveu em uma mensagem: "Você está com uma covid 'old school'". Sim, à moda antiga. Só não ao pé da letra porque tomei todas as doses da vacina —ou nem consigo imaginar o que seria. Agradeço pelo imunizante.

Era cedinho, umas 7 da manhã. Fui à farmácia ao lado de casa onde as prateleiras ofereciam três autotestes diferentes. Nenhum deles de um laboratório que eu reconhecesse.

Pedi para falar com o farmacêutico responsável pela loja, hábito que precisamos ter na menor dúvida sobre qualquer remédio. E o indaguei sobre a eficácia de cada um dos testes. Ele arregalou os olhos e foi obrigado a abrir caixa por caixa — é nosso direito! — para buscar a informação na bula.

Não vou entrar no mérito se o que estava escrito ali era confiável ou não. De prático: antes de comprar um teste, sempre exija essa informação. Um dos testes tinha 62% de eficácia, veja só. Isso significa que um bocado de gente, quase quatro em cada dez pessoas, sai com um resultado que não condiz com a realidade.

No meu caso, preferi a opção de marcar hora e voltar mais tarde para o farmacêutico fazer o teste de um laboratório cujo nome eu conhecia bem, que não estava sendo vendido para eu fazê-lo em casa — e não, não vou citar marca porque não faço nenhum tipo de propaganda. O fato é que veio primeiro positivo.

Portanto, tente fazer o PCR. Se não der, procure o teste de um laboratório conhecido —o preço é quase o mesmo do que os de marcas das quais nunca ouvimos falar. Se não der mesmo assim, exija saber o nível de eficácia de cada teste e diminua o risco de falso negativo.

Entenda o poder de uns goles de água

Dez em cada dez médicos que me escreveram depois do post no meu Instagram pediram para eu não marcar bobeira com a hidratação. Falei há pouco com a pneumologista Angela Honda, médica voluntária da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e líder de programas educacionais da Fundação ProAR, que tem como objetivo expandir o diagnóstico das doenças respiratórias crônicas. Pedi que ela explicasse melhor essa recomendação.

"No organismo, a inflamação é um fator que desidrata bastante", me disse. "E, no caso do vírus da covid-19, ele causa particularmente uma inflamação forte e sistêmica, ou seja, que afeta o corpo inteiro. A perda de água tende a ser maior ainda."

Além disso, ela lembra, alguns pacientes têm febre — que é o meu caso. "Quando é assim, o mecanismo do organismo para voltar ao seu equilíbrio é perder calor transpirando. Portanto, tudo leva a uma desidratação."

Guarde: sem o corpo bem abastecido de água, nada acontece tão bem como deveria. Nem as suas defesas operam em todo o seu esplendor. De quebra, a reposição de líquido ajuda a fluidificar o muco, se as vias aéreas estão obstruídas.

Sobre remédios

Jamais ressuscite opções que já nasceram mortas lá atrás porque nunca, nunquinha funcionaram para a covid-19. Faça o certo: converse com um médico e, sob sua orientação, só tome aqueles medicamentos mais comuns para reduzir a dor e a febre. Só. Não há nada a fazer até o vírus ir embora a não ser controlar os sintomas.

Fundamental —e claro que todos me alertaram sobre isso também — correr para um serviço de saúde se sentir falta de fôlego. Mas, entre pessoas com a vacinação em dia, isso é muito menos provável. Ainda bem.

Comida "de vó" e cama

Não sinto fome — pela febre, pelo gosto das coisas que escapuliu com o olfato, por todo o mal-estar. Mas a doutora Angela lembra a importância de alguém com a covid-19 tentar ingerir comida caseira —"dessas de casa de vó", descreve. É que alimentos ultraprocessados são inflamatórios por natureza. Ninguém vai querer mais inflamação nessa altura do campeonato.

Por fim, repouso. Orientação que, a duras penas, quebro só para escrever esta coluna. Toda a energia do organismo precisa ser poupada para a principal missão neste momento: livrar-se do persistente Sars-CoV-2 e reestabelecer o equilíbrio após sua aparição. Isso significa literalmente ficar quieto no seu canto. E, no caso, em total isolamento.

Importante: o que fazer depois

O endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto, avisou ainda que o ideal seria eu — e todo mundo na mesma situação — fazer um check-up completo um ou dois meses após a infecção. É tempo para o organismo teoricamente voltar ao prumo após esse tremendo chacoalhão. Mas nem sempre tudo volta — já bati na madeira três vezes, só de escrever.

Depois de entrevistar tanto Couri quanto seus colegas no auge da pandemia, sei que muita gente se torna diabética depois dessa experiência nada agradável —para citar um exemplo das lembranças que o Sars-CoV-2 pode deixar de sua passagem. "É para levar um episódio de covid-19 a sério, mesmo com sintomas mais brandos", diz Couri.

Desejo que a sua vacina também esteja em dia. E que, se acontecer, você se cuide durante e, sim, depois também. Não chegamos até aqui para dar moleza a esse vírus. Vou descansar, com uma baita saudade do cheiro de um cafezinho quente.