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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Isolamento: o que você precisa entender de vez sobre velhas e novas regras

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

13/01/2022 04h00

Afinal, são cinco, sete ou dez dias de afastamento? Desde segunda-feira, 10, quando o Ministério da Saúde soltou novas recomendações para quem pegou o vírus da covid-19, esta é a pergunta que não quer se calar.

O texto confunde principalmente pessoas que estão sem ou quase sem sintomas — hoje, é bem o caso de boa parte dos infectados, graças ao avanço da vacinação, que consegue conter justamente o agravamento da doença.

Ora, digo que confunde porque essas pessoas que mal estão sentindo a covid-19 ou que nem sentem coisa alguma aparecem nas três possibilidades de duração do isolamento.

Isso pode levar muita gente, sem de fato entender o que é para ser feito ou se fazendo de desentendida, achar que pode se liberar o mais depressa possível do castigo — imposto não por médicos, nem por políticos desse ou daquele lado, nem pela mídia, mas pelo vírus.

Por gerarem mais dúvida do que esclarecimento em vários trechos, é bom esmiuçar essas novas recomendações, o que fiz com a ajuda do infectologista Demetrius Montenegro, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz da Universidade de Pernambuco e do Real Hospital Português, em Recife, que é também consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

SBI que, por sinal, já se manifestou anteontem, 11, com uma carta ao CONASS (Conselho Nacional de Secretários da Saúde) recomendando sete dias de isolamento — sem qualquer desconto, isto é, nada de cinco dias apenas — a partir da data do diagnóstico para os assintomáticos e indicando de sete a dez dias para os sintomáticos.

No caso destes, os sintomáticos, o que determinaria ficar isolado sete, oito, nove ou dez dias seria passar 24 horas sem tossir, sentir dor, espirrar e, importante, sem ter febre. Claro, não vale ficar sem febre só na base de comprimidos antitérmicos.

É uma orientação mais fácil de guardar na cabeça e que leva em conta um dado fundamental: pessoas infectadas transmitem o vírus durante uns sete dias após o início do sintomas. O vírus é o que é, a despeito do nosso desejo ardente de retomar a vida de sempre.

E por que você deve gravar também o número "10", que é repetido discretamente inclusive nas próprias recomendações do Ministério? Porque essas pessoas já espalhavam a doença dois ou três dias antes de qualquer sinal de fumaça ou de covid-19. Fazendo a soma desses três dias de incubação com os sete de sintomas...

Bom esclarecer: o texto do Ministério da Saúde é, sim, baseado nas recomendações do aclamado CDC (Centers for Disease Control and Prevention), nos Estados Unidos. Mas a versão dos americanos é um pouco mais detalhada. Ali, por exemplo, a história é uma para quem está com o esquema vacinal completo, incluindo a terceira dose, e outra para quem não chegou lá. E vale observar que, se isso fosse considerado aqui, muitos brasileiros mais jovens ainda aguardam a terceira injeção.

As recomendações do CDC também diferenciam o que é quarentena e o que é isolamento — ponto que o doutor Montenegro destacou em nossa conversa — e o que você pode fazer em um e em outro. Também esmiuça como cada um deve agir se sair de casa antes de completar o período de atenção máxima que é inegociável: dez dias.

"Mas nem o documento americano, nem o nosso — aliás, nem o de qualquer canto do mundo —, aponta que, para toda regra, existem exceções", comenta o doutor Demetrius Montenegro. "Se você, com ou sem sintomas, tem uma grávida em casa, melhor ficar sem qualquer contato com ela durante todos os dez dias", pensa o médico, que também confessa não se sentir seguro, em nenhuma circunstância, dizendo para alguém infectado que não está sentindo nada sair do isolamento no quinto dia, apesar das recomendações atuais.

Para ele, o maior motivo para pedir paciência e cautela não seria só o risco de você passar o Sars-CoV 2 adiante com uma liberação prematura, mas o de a explosão de casos de ômicron, muitos deles sob o tapete por serem assintomáticos, provocar o surgimento de novas variantes que talvez, amanhã ou depois, escapem das vacinas.

Porque a verdade é esta: o vírus ganha uma bela chance de fazer mutações em cada organismo que infecta, manifeste ele sintomas ou não.

Cinco dias?!

A parte dos cinco dias é a mais confusa — e polêmica. De acordo com as novas recomendações, se você está com a temperatura normal sem tomar qualquer remédio antitérmico e também sem sintomas respiratórios há pelo menos 24 horas, é para fazer o teste.

Se o resultado, por sua vez, dá negativo, é para "sair do isolamento e manter as recomendações adicionais até o décimo dia", está escrito. E, se der positivo, continuar em isolamento até completar os famosos dez dias.

Quais as "recomendações adicionais" para quem testou negativo? Seriam aquelas de praxe, como usar máscara, higienizar as mãos e tudo mais? Estranho, porque estas são para além do prazo de dez dias, até essa pandemia nos dar real sossego. E outras medidas, mais severas, não se aplicariam a quem testou negativo no quinto dia, quando é pouco provável um resultado falso.

"Podemos supor que, nesse primeiro ponto, as recomendações se referem a quem esteve próximo a pessoas que foram comprovadamente contaminadas", observa o doutor Demetrius Montenegro. Faria sentido: aí, se recomenda o teste no quinto dia. No caso, a data do encontro com quem testou positivo seria o "zero" e a contagem até "5" iniciaria no dia seguinte. Antes disso, o resultado pode ser um falso negativo.

No entanto, pelo texto, essa recomendação de cinco dias seria mesmo para gente sabidamente infectada com quadros leves e moderados. Será então que estão recomendando dois testes, sendo um segundo no quinto dia após o primeiro, que deu o diagnóstico? Cá entre nós, isso não parece ser viável, até por faltarem testes. Sem contar que, entre fazer um e outro, poderia dar mais de dez dias.

"O pior é que, ao não conseguir marcar o exame, a pessoa sem sintomas pode achar que esse seria só um detalhe e sair do isolamento em tão pouco tempo sem ele", preocupa-se o doutor Montenegro. Pois é, não seria uma boa ideia.

Isolamento versus quarentena

De cara, é bom entender a diferença, embora as recomendações brasileiras não entrem nesse mérito. "Quem tem um teste positivo deve fazer isolamento, ou seja, se possível, ficar sozinho em um cômodo da casa", explica o infectologista. O banheiro precisaria ser higienizado após cada uso também.

A quarentena, por sua vez, é para quem sabe que teve contato com alguém com covid-19. Em princípio, essa pessoa também deveria ficar em casa até se certificar de que não foi infectada, mas sem a necessidade de se isolar em um único cômodo.

"Essa seria uma situação semelhante à de quem, para visitar determinado país, precisa passar um tempo em um hotel, até se comprovar que não está com a covid-19."

Só note que, para o CDC americano, quem está com seu esquema vacinal completo, considerando doses adicionais, está liberado da quarentena, se cruzou com alguém infectado.

A realidade é que, aqui ou lá, como hoje parece que metade do planeta está com ômicron e a outra metade esteve com alguém infectado por essa nova variante, a ideia viável é todo mundo que teve contato com indivíduos contaminados continuar tocando a sua rotina, mas sendo bem mais rigoroso com o uso de máscara e sempre atento, se sentir algo diferente.

O isolamento, agora, de sete dias

Segundo as novas recomendações, no sétimo dia de isolamento, se a pessoa já não está com sintomas, ela pode deixar de ficar isolada e, atenção, sem a necessidade de fazer um novo teste. Antes, eram dez dias de isolamento sempre.

O que pode passar batido na leitura do texto são as tais "recomendações adicionais até o décimo dia". Quais seriam? "A máscara, muito bem ajustada, precisa ser usada o tempo inteiro nesses outros três dias", explica Demetrius Montenegro.

Não dá, exemplifica o médico, para almoçar com o pessoal do trabalho no refeitório ou no restaurante perto da firma, já que é inevitável tirar o acessório para comer. "Nem pode ficar à mesa com a família", completa. "Ou tomar aquele cafezinho com o colega, conversando por alguns minutos. O problema é que, como a orientação está vaga, no fundo cada um vai agir de acordo com os seus critérios", lamenta o doutor.

Os velhos dez dias

De acordo com o Ministério da Saúde, quem tem sintomas no sétimo dia deve fazer o teste de PCR ou de antígeno. Se ele der negativo, poderá sair do isolamento 24 horas depois de a febre ou outro mal-estar desaparecer, o que talvez aconteça antes dos dez dias.

Já o resultado positivo uma semana após o começo dos sintomas confirmaria a necessidade de se isolar por dez dias. O texto também fala que, mesmo passado todo esse tempo, seria importante a pessoa não estar sentindo mais nada de errado.

Já para quem não tem sintoma algum, é a mesma orientação que consta no isolamento de sete dias: após o décimo, é possível sair de casa sem fazer qualquer novo teste. Ou seja, fica quase como uma decisão pessoal isolar-se por uma semana ou um pouco mais.

Mas aqui, ainda mais considerando que diversos setores de serviços básicos para a população estão travando de tanta gente afastada, vale o bom senso apontado pelos infectologistas da SBI: sete dias, tomando cuidado extra nos três dias subsequentes, podem ser de bom tamanho.