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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que as taxas de efetividade das vacinas contra covid-19 vivem mudando?

Enfermeira aplica vacina contra a covid-19 em Apucarana, no Paraná - iStock
Enfermeira aplica vacina contra a covid-19 em Apucarana, no Paraná Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

13/07/2021 04h00

Sempre que sai um novo estudo apontando o quanto determinada vacina contra a covid-19 seria capaz de nos proteger, tenho certeza de que morre uma fada. Cai mortinha de cansaço, a coitada, sem aguentar mais ouvir nossas comparações, nem encarar nosso estarrecimento, se afinal nada parece bater com nada.

Os números nas pesquisas sobre as vacinas nunca são iguais. Os de hoje dão a impressão de desmentir os de ontem. Os nossos podem ser diferentes dos de outros países. E, às vezes, a vacina do vizinho parece ser bem melhor do que a daqui — ainda que a gente esteja falando do mesmíssimo imunizante nos dois lugares.

Aliás, talvez esse tenha sido o sentimento de muita gente ao saber do artigo publicado no New England Journal of Medicine, na semana passada, com os resultados da CoronaVac no Chile, onde mais de 55% da população já foi vacinada.

Olhando para 10,2 milhões de pessoas que tomaram a segunda dose entre 2 de fevereiro e 1.º de maio deste ano, os chilenos concluíram que a CoronaVac teria 86% de efetividade para evitar mortes; 87%, para impedir hospitalizações e 65,9%, para barrar os casos assintomáticos da covid-19.

Já no artigo que cientistas do Butantan submeteram à revista The Lancet, cujos dados foram divulgados preliminarmente pelo instituto no mês passado, a mesma CoronaVac barraria somente 50,7% das infecções sintomáticas — o que, vale notar, foi um resultado ligeiramente melhor do que os 50,3% do seu estudo clínico inicial, mas inferior ao dos chilenos. Apesar das discrepâncias, todo mundo pode estar certo.

"Os números diferem, é o normal. Mudam de uma vacina para outra. Também se alteram quando examinamos os resultados de uma mesma vacina aplicada em lugares diversos, como é o caso de agora. Podem ainda se modificar, se inventarem de repetir um estudo na mesma população, mas em períodos distintos de tempo", resume o pediatra intensivista Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

Procurei o médico para entender justamente o que há por trás dessa espécie de lei da impermanência. Ela parece vigorar. E sei que a brincadeira que fiz com fadas soa esquisita em um texto sobre ciência. Mas, creia, comparar a sopa de números dos estudos sobre vacinas também é um bocado estranho do ponto de vista científico. Pare de misturar as coisas: esses trabalhos são incomparáveis entre si.

Eficácia não é efetividade

Este é o primeiro ponto que deveríamos colocar na cabeça: "O que chamamos de eficácia é a taxa obtida a partir dos estudos clínicos, realizados para saber se um imunizante funciona e para confirmar que é seguro, com efeitos colaterais toleráveis", explica Juarez Cunha.

Ou seja, a taxa de eficácia aponta a porcentagem de gente em que a vacina fez o efeito tão esperado dela, sempre comparando essa turma com quem tomou uma injeção de placebo, inócua contra a covid-19.

No entanto, por maior que seja o grupo de voluntários — aliás, os dados recentes do Butantan são de um estudo assim, com 12 mil indivíduos —, é sempre algo limitado e controlado. "O mundo real é infinitamente mais complicado", diz o médico. Nele, você vacinará pessoas menos expostas ao Sars-CoV 2 trabalhando em home-office e quem se espreme na condução todo dia para pegar no batente. Dará a injeção em sujeitos de idades variadas e com problemas de saúde de toda espécie. Tudo isso é só uma pequena amostra do que conta para uma vacina, na prática, repetir ou não o que foi visto nos testes clínicos.

É nas ruas, injetada em milhões de braços, que ela é colocada à prova. E, ao mostrar a que veio na vida real, temos as chamadas taxas de efetividade, como as apresentadas agora pelos chilenos para a CoronaVac. Mas atenção: o que se observa no povo do Chile pode não acontecer da mesma forma em outros lugares que usem esse imunizante.

Na verdade, ao ler que a vacina da Pfizer alcançou 95% de eficácia nos testes clínicos, enquanto a de Oxford/AstraZeneca apresentou uma taxa 82% e a CoronaVac teve seus 50,3%, não dá para sair jurando que tudo será igual na vida real do Brasil, por exemplo. A realidade, ou melhor, a taxa de efetividade pode ser muito pior ou até melhor na hora do vamos-ver.

Protocolos diferentes

Os próprios testes clínicos, que antecedem as investigações de vida real, já são incomparáveis entre uma vacina e outra. "Um pode considerar que teve covid-19 apenas quem foi diagnosticado pelo PCR. Outro pode aceitar como um caso leve da doença o relato de alguns sintomas", exemplifica Juarez Cunha.

Mesmo quando os protocolos são iguais — o que acontece quando se testa uma única vacina em centros diferentes —, as conclusões podem ser díspares. De novo, vamos pegar a CoronaVac, que teve aquela eficácia 50,3% entre nós. A sua taxa foi de 65% em um ensaio clínico realizado na Indonésia e de 91%, na Turquia. "Cada trabalho usou uma população, então também não dá para compará-los pau a pau", justifica o presidente da SBIm.

As variantes contam

As novas cepas do Sars-CoV 2 também provocam diferenças nas taxas de efetividade naquelas áreas do planeta onde dão as caras. "As vacinas continuam funcionando, apesar delas", tranquiliza Juarez Cunha. "Mas é possível que protejam um pouco menos do que quando foram testadas, em uma época sem tantas variantes."

A variante Delta surgida na Índia, por exemplo, consegue muitas vezes escapar dos imunizantes. Em relação à Gama, a variante que apareceu em Manaus, não há muito conhecimento sobre a efetividade das vacinas. Se funcionam do mesmo jeito, com aqueles números de enquadrar e colocar na parede, por enquanto ninguém afirma categoricamente.

A velocidade da vacinação também conta

Israel, que vacinou sua população em um vapt-vupt, demonstrou ao mundo que a ligeireza é um dos segredos para acuar o vírus. Mas nem é preciso ir tão longe.

Em Serrana, cidade do interior paulista que foi foco de um estudo de vida real, boa parte da população adulta recebeu a CoronaVac. Os resultados, então, foram muito superiores aos de outros números relativos à mesma vacina: uma efetividade de 80% contra casos sintomáticos; de 86%, no sentido de evitar hospitalização e de 95%, no que diz respeito a espantar a morte.

"A experiência em Serrana é uma prova de que dois fatores são capazes de elevar a efetividade de qualquer imunizante. Em primeiro lugar, lá a vacinação foi muito rápida. Além disso, houve o engajamento das pessoas, que usaram máscara e fizeram distanciamento", observa Juarez Cunha. Essas medidas criaram obstáculos à circulação do vírus e, dessa maneira, favoreceram o sucesso da imunização em massa.

Carga de infecção alta derruba as taxas de proteção

Imagine que você resolva atravessar uma rua, fora da faixa de pedestre e com o sinal aberto. Nela, está passando um carro em velocidade moderada. Óbvio: você poderá ser atropelado. Mas, sem dúvida, o risco será bem maior se tentar atravessar desse jeito pouco ajuizado uma avenida bastante movimentada.

Entenda: as milhares de mortes e o número gigante de novos casos de covid-19 por dia são um sinal de que há muito Sars-CoV 2 transitando velozmente entre nós, brasileiros. É como se atravessássemos avenidas movimentadas — risco altíssimo de a história não terminar muito bem. E não há vacina que mostre todo o seu esplendor, se você não fizer a sua parte. A efetividade é sempre menor do que poderia ser quando a carga de infecção em determinada região segue nas alturas.

As características da população

"As diferenças de resultados das vacinas na vida real também têm a ver com genética, raça, proporção entre homens e mulheres e com características culturais e socioeconômicas", lista Juarez Cunha.

Nos países com mais pessoas em situação de vulnerabilidade, a efetividade pode cair até em função de condições de moradia, por exemplo, se famílias inteiras precisam dormir em um único cômodo, facilitando a transmissão do vírus.

A proporção de idosos é mais um fator capaz de interferir. Mas que ninguém desanime pela idade: "A vacina da gripe também é menos efetiva em pessoas mais velhas e, no entanto, evita muitas mortes entre elas". Finalmente, a quantidade de indivíduos com doenças crônicas e imunossuprimidos também justificaria algumas diferenças nas taxas encontradas nos estudos.

No final das contas

O que importa é saber que todas as vacinas aprovadas ultrapassam o limite de 50% que as tornam boas para o que precisamos: acabar com essa pandemia.

E, se você é uma daquelas criaturas que correm atrás de uma vacina espetacular, com taxas lá no espaço sideral de tão altas, que bobagem! Até porque, na vida real, ela pode voar baixo. Isto é, se você está cercado de quem ainda não se imunizou ou de quem, por se ver vacinado, sai por aí sem máscara e se aglomerando. Na matemática da vacinação, dois mais dois pode dar cinco ou três, conforme o nosso comportamento.