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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Silicone nas mamas e sistema imune: complicações que vão de fadiga a câncer

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

29/06/2021 04h00

Durante quatro anos, pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, se debruçaram sobre cinco tipos de próteses mamárias de silicone, dessas que vão parar em 400 mil americanas por ano e que, antes da pandemia, faziam cerca de 750 brasileiras irem para o centro cirúrgico todos os dias, atrás de uma plástica para aumentar o número do sutiã, reerguer os seios derrubados pelo tempo ou, ainda, desejando reconstruir as formas roubadas pelo câncer de mama.

A diferença entre as próteses examinadas — primeiro, em animais e, depois, em experiências com células humanas — não era o tamanho, se mais ou menos turbinado. Tampouco, o formato, se era o de uma bola, o de uma gota ou o de uma pêra. O que importava aos olhos dos cientistas era a rugosidade da superfície, se mais lisa ou mais áspera.

Pois esse detalhe — eis a revelação de agora — é a chave para atiçar com maior ou menor intensidade o sistema imunológico, que inevitavelmente irá reagir em algum grau ao corpo estranho, desencadeando uma inflamação.

Essa resposta das células de defesa, por sua vez, explicaria velhas e novíssimas complicações. Elas vão das fibroses capazes de culminar na ruptura do implante a sintomas, relatados muito recentemente, como fadiga, depressão, mau funcionamento do intestino e dores articulares, os quais sugerem nas mulheres com implantes o que vem sendo chamada de doença do silicone.

E tudo isso sem contar um linfoma raro, o de células T, que hoje acomete em torno de 1,5 mil pacientes em todo o mundo e que também parece ser desencadeado por uma inflamação crônica mais forte, motivada pelo implante.

O estudo liderado pelo MIT que ajuda a esclarecer casos assim, publicado há apenas uma semana na Nature Biomedical Engineering, contou ainda com um time do MD Anderson Cancer Center, no Texas, além de pesquisadores da Inglaterra e do Brasil.

No caso, quem integrou o grupo do estudo foi Alexandre Mendonça Munhoz, cirurgião plástico do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde é também professor do programa de pós-graduação. "Os implantes de silicone com superfícies mais ásperas provocaram uma resposta inflamatória bem maior, o que indica que eles aumentariam o risco dessas complicações", adianta o médico.

A rugosidade ideal

A rugosidade na superfície de um implante de silicone — a qual os médicos apontam pela sigla Ra — tem como medida o micrômetro, a milésima parte do milímetro. As próteses mais bem avaliadas no estudo, que não despertaram reações tão exacerbadas do sistema imune, tinham por volta de 3,2 micrômetros de Ra.

"É uma informação valiosa para fazer a melhor escolha na hora de reconstruir a mama operada de um tumor", exemplifica o professor Munhoz. "Um terço das mulheres que tiveram câncer e que precisaram fazer a reconstrução mamária acabaram sendo operadas novamente em um prazo de cinco anos por causa de fibroses e contraturas."

O próprio tratamento oncológico favorece a ativação exagerada do sistema imunológico, que acaba provocando complicações do gênero "Ora, uma prótese mais biocompatível diminuiria o risco de isso acontecer", conclui o cirurgião.

Contratura: o problema das muito lisas

As primeiras próteses de silicone, lá dos anos 1960, eram lisinhas. Uma vez implantadas, com relativa frequência apareciam as tais fibroses. "Forma-se um tecido de cicatriz em volta do implante, que o aperta", descreve o professor Munhoz. "Isso, no mínimo, causa desconforto ou dor. As deformações podem se tornar visíveis, ocorrendo até mesmo uma alteração no posicionamento da prótese."

A rigidez dessas cicatrizes, porém, que costuma ser agravada pelo fenômeno do encapsulamento — quando um tecido, por vezes tão firme quanto um couro, envelopa o implante inteiro —, aumenta em até cinco vezes a ameaça de a prótese se romper, exigindo uma nova plástica feita às pressas.

Em 2009, o cirurgião plástico Ardeshir Bayat, professor da Universidade de Manchester, na Inglaterra — ele também é co-autor do estudo fresquinho do MIT —, jogou uma luz no que estaria acontecendo.

O médico fez uma cultura de fibroblastos em laboratório e colocou essas células, que são produtoras de colágeno, sobre uma prótese clássica. Em outras palavras, completamente lisa. "Mas o professor Bayat também colocou fibroblastos sobre próteses nas quais, com a ajuda da nanotecnologia, foram criados leves relevos ou ranhuras", conta o seu colega brasileiro.

Então, notou-se: nas próteses lisas, os fibroblastos descarregaram uma quantidade enorme de colágeno. "Era uma tentativa de se equilibrarem naquela superfície", diz o professor Munhoz, lembrando a imagem instável dos pseudopodos — estruturas celulares que se parecem com microscópicas garras, usadas para firmá-las em um tecido qualquer. Sem estabilidade na prótese tão lisa e deslizante, despejavam colágeno, matéria-prima abundante para fibroses.

Isso já não acontecia tanto nas próteses modificadas para terem algumas poucas rugosidades. Para os fibroblastos, elas seriam comparáveis a um tapete antiderrapante e a produção de colágeno permanecia moderada. "Se bem que, aumentando demais a rugosidade, eles voltavam a ficar muito ativados", observa o professor Munhoz. Aí, no outro extremo, seria como tentar se firmar em um solo todo desnivelado. Difícil também — e dá-lhe colágeno!

Isso explicava o que se via nas próteses criadas nos anos 1980, que eram macrotexturizadas, isto é, com um Ra maior do que 50 micrômetros, ou microtexturizadas, com um Ra entre 10 e 50 micrômetros."A incidência de contraturas até era menor nos primeiros anos. Mas, com o tempo, elas apareciam do mesmo jeito", informa Munhoz.

Linfoma: associado a próteses muito rugosas

Cerca de 15, 20 anos depois do lançamento de próteses texturizadas, já com um número bem alto de mulheres usando esses modelos, começaram a aparecer casos de linfoma da célula T. "Perto de 80% das vezes, ele não é muito agressivo e se resolve com cirurgia", tranquiliza o professor Munhoz. Mas é bom prestar atenção.

Esse linfoma derrama um líquido dentro do envelope de tecido que se forma ao redor da prótese. Por isso, a mulher pode notar um aumento de volume e senti-la endurecida. "Se acontece só de um lado, ela talvez perceba uma assimetria", completa o médico.

Em 2019, o FDA — a agência que regula tratamentos nos Estados Unidos — promoveu um recall, chamando mulheres que tinham uma prótese mais rugosa para uma troca. Nessa época, estudos já demonstravam que a maior rugosidade favorecia, inclusive, a colonização de bactérias sobre o implante, uma pirraça extra para o sistema imunológico.

O papel do macrófago

Macrófagos são a linha de frente quando acontece qualquer coisa estranha no organismo. "São os grandes maestros, que chamam os fibroblastos para uma cicatrização e que mandam sinais para os linfócitos T — estes, sim, responsáveis pela inflamação crônica", explica o professor.

No estudo do MIT, o que se viu foi uma redução de quase 70% na atividade dos macrófagos na prótese com Ra de 3,2. Fácil deduzir, havia então menos ativação de fibroblastos formando cicatrizes e menos inflamação desencadeada pelas células T. Logo, uma menor probabilidade de encrenca.

Nova recomendação

Será que, daqui em diante, todas as próteses deverão sair de fábrica com o tal Ra de 3,2? "O ideal será a gente estudar um grande número de mulheres, comparando aquelas com esse tipo de prótese e outras, com implantes mais texturizados, até para ver se há uma diminuição nos casos de doença do silicone no primeiro grupo", responde o médico.

Mas há três situações nas quais, desde já, os cirurgiões plásticos devem passar a privilegiar próteses menos rugosas: pacientes com doenças autoimunes; aquelas que irão passar por reconstrução depois de um câncer de mama e, finalmente, as que já tiveram linfoma ou com histórico dessa doença na família. "Afinal, não existe um único registro de linfoma de células T em quem tem implante de silicone com rugosidade baixa."

Qual a textura da sua prótese?

No Brasil, dois terços das mulheres com implantes mamários não têm noção do tipo de prótese que carregam no peito. Para o professor Munhoz, a tendência é as próteses terem chips, tornando suas informações rastreáveis. Isso já acontece na Europa desde 2014 e nos Estados Unidos, em um estudo do FDA, de 2018 para cá.

Com ou sem todas as informações, quem tem silicone no peito deveria visitar o seu cirurgião plástico a cada dois anos. "E levar os exames de imagem das mamas mais recentes", aponta Alexandre Munhoz. É o jeito para ficar de olho em dobras e outros sinais de desgaste na prótese, evitando contratempos e cirurgias não programadas que são de cansar a beleza — e principalmente a saúde — de qualquer uma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL