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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Testosterona: por que os homens podem ter quadros mais graves de covid-19?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

03/06/2021 04h00

Desde que a pandemia começou, os cientistas reparam: mais homens do que mulheres se dão muito mal quando enfrentam o Sars-Cov 2. O vírus os transforma em sexo frágil. Eles têm mais quadros severos da infecção, ocupam boa parte dos leitos de UTI e morrem mais também.

Uma das hipóteses para explicar essa diferença está na testosterona, o hormônio que dá aos rapazes toda a caracterização masculina. Mas diga-se: a testosterona faz muito mais do que espalhar pelos pelo corpo e coisas do gênero. Tanto que existem receptores para essa substância nas células do sistema imune, sinal de que alguma coisa ela faz por lá.

Esses receptores estão nos glóbulos brancos tanto de homens quanto de mulheres. Bom ressaltar que a ala feminina também produz o hormônio dito masculino, só que em doses bem menores. E curiosamente, nos homens em estado grave de covid-19, a testosterona cai tanto, mas tanto, que do ponto de vista do hormônio o seu organismo vira o de uma mulher. Acontece até com moços na faixa dos 20 anos.

Intrigada, a imunologista Cristina Ribeiro de Barros Cardoso, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), quis investigar o que estaria acontecendo com os hormônios dos homens infectados pelo Sars-CoV 2, tocando uma pesquisa fascinante, ainda em andamento. Ela apresentou seus primeiros achados no workshop "Pandemia de covid-19: o que os cientistas brasileiros estão fazendo", realizado nesta semana pela SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia).

Adianto uma suspeita: a fase crítica para observar a testosterona é quando o sujeito infectado ainda apresenta um quadro moderado. "Quando ele chega na UTI, o leite já está derramado", acredita a professora Cristina, que também é uma das coordenadoras do consórcio de pesquisa ImunoCOVID da USP.

E agora um alerta: pode tirar o cavalo da chuva quem pensa então em tomar bomba de hormônio ou, no sentido oposto, quem cogita sair engolindo remédios para bloquear a testosterona. Tanto uma atitude quanto a outra complicarão de vez a vida de quem pegar a covid-19.

Somos diferentes até quando adoecemos

O que acontece com a covid-19 não é tão espantoso. Diversas doenças são diferentes em homens e mulheres. Homens, por exemplo, tendem a ter quadros mais graves quando são infectados pelo vírus da gripe. "Já as mulheres apresentam uma propensão maior a doenças autoimunes", compara a professora Cristina. "E um dos motivos, aliás, é a quantidade menor de testosterona em seu organismo, porque esse hormônio tem uma ação anti-inflamatória e ajuda a atenuar os ataques aos tecidos do próprio corpo."

A conversa entre hormônios e sistema imune

A comunicação constante entre hormônios e células de defesa também é conhecida dos cientistas. "Na faculdade, cada sistema — endócrino, imunológico... — é estudado em um livro à parte. Mas, dentro do nosso corpo, tudo conversa", nota a imunologista.

Assim como há receptores de hormônios nas células de defesa, há receptores para as famosas citocinas produzidas por elas nas glândulas. E esse diálogo impacta no controle — ou no descontrole — diante de uma infecção.

A professora Cristina dá um exemplo: "Quando você tem uma doença que provoca inflamação, o sistema imune está liberando uma substância conhecida por interleucina-6 ou simplesmente IL-6. E existem receptores para a IL-6 no hipotálamo, no cérebro. Por causa deles, quando o hipotálamo percebe que tem IL-6 demais, ele envia um aviso para o par de glândulas supra-renais, sobre os rins. Elas, então, liberam o cortisol, hormônio que manda o sistema imunológico baixar a bola." Assim, há uma regulação, tentando manter certo equilíbrio.

Pacientes com covid-19 grave, porém, produzem uma quantidade descomunal de IL-6, enquanto o cortisol é mais um hormônio que despenca. "É provável que as supra-renais, de tão demandadas pela inflamação disparada na covid-19, já não estejam dando conta do recado", aposta Cristina Cardoso.

A testosterona facilitaria as coisas para vírus

Em relação à testosterona, ela indiretamente ajudaria o coronavírus a infectar nossas células. O Sars-Cov 2, como todos já ouviram falar, encaixa a sua proteína S em receptores de ECA-2 distribuídos na superfície celular. Eles funcionam como uma fechadura. Mas o encaixe só não basta.

A tal proteína S precisa ser quebrada ou clivada, como dizem os cientistas, para expor um pedacinho dela, que seria uma espécie de senha para uma molécula na célula chamada protease. Daí, sim, o vírus consegue entrar.

"Ocorre que a síntese de protease pelas nossas células depende do estímulo da testosterona", conta a professora Cristina. Logo, em tese, quanto mais testosterona, mais protease — e maior a facilidade para o vírus infectar mais e mais células.

Para eu ser correta, quem também faz esse serviço de estimular a protease dentro das células é a DHT, sigla de di-hidrotestosterona, um derivado da testosterona produzido pelo corpo que, na prática, é muito mais ativo e potente do que a molécula original do hormônio.

Por que as taxas diminuem?

Afinal, se a testosterona está ajudando o vírus, por que ela quase some em homens com quadros mais graves de covid-19? "A hipótese é que a produção do hormônio continue a mesma de sempre. Mas ele está sendo tremendamente consumido em algum outro canto, por isso não conseguimos achá-lo na circulação", responde a pesquisadora.

É possível que a DHT esteja nos pulmões, procurando diminuir a inflamação por ali. E talvez o sistema endócrino até tente compensar. "Mas seria como abastecer um tanque furado. E com um efeito colateral terrível: quanto mais DHT, mais protease ativada e mais células infectadas", diz a professora. Daí por que usar o hormônio é dar munição para o Sars-CoV 2.

Sobre os homens com covid-19

O estudo liderado pela professora Cristina começou analisando dados de quase 500 mil pessoas. Entre elas, 12 mil mulheres e 13 mil homens tiveram diagnóstico de covid-19 confirmado pelo exame de PCR.

E, sim, tudo parecia pior para os rapazes: eles tinham mais marcadores de inflamação no sangue e mais neutrófilos também, célula envolvida com a reação intempestiva do sistema imune diante do Sars-CoV 2, a qual deixa o organismo arrasado. "Depois, fomos ver o que acontecia com os homens de Ribeirão Preto e era a mesma coisa", conta a imunologista. Na cidade do interior paulista, mais de metade das mortes — 55% — eram de homens.

Os pesquisadores resolveram examinar os pacientes nas UTIs, então. Esmiuçaram até mesmo o soro usado pelos fisioterapeutas para fazer a lavagem dos pulmões desses doentes — material precioso, cheio de vírus, células e hormônios para fazer revelações, mas que vinha sendo jogado fora até um integrante da equipe notar o desperdício para a ciência.

Apesar da diferença gritante entre homens e mulheres precisando de ventilação mecânica — eles sempre levando a pior —, os pesquisadores não notaram nada diferente nas amostras. Aí veio a sacada: "Precisávamos voltar a atenção aos casos leves e moderados", lembra a imunologista. E não deu em outra: "A principal diferença, significativa pra valer, está nos doentes com quadros moderados", diz ela. "Se você tem dez pacientes com covid-19 e poucos sintomas, mas três deles são homens acima de 50 anos com alterações na testosterona, fique de olho neles. O risco de acabarem na UTI é bem mais alto do que o dos outros sete", resume.

Bloquear a testosterona?

Em outra etapa, os pesquisadores da USP de Ribeirão cultivaram células saudáveis em laboratório. Na sequência, eles as misturaram com o coronavírus. Cerca de 70% morreram depois de infectadas, em uma demonstração clara do poder de fogo do Sars-CoV 2. "Na primeira tentativa, com uma carga de vírus maior, não sobrou uma única célula vivinha para contar história", lembra a professora.

Ela e seus colegas, então, experimentaram colocar DHT antes de acrescentar o vírus, mas não viram nenhuma grande diferença. Tudo só mudou quando incluíram uma substância para se encaixar exatamente nos receptores desse hormônio. Aí, apesar de invadidas pelo Sars-CoV 2, as células sobreviveram.

"Isso indica que um caminho seria evitar que a testosterona aja nas células infectadas", informa. Atenção: a finasterida, droga que impede a testosterona de virar DHT e que é usada para tratar calvície, teve um efeito pífio no estudo. Até porque a ideia sugerida é bloquear o hormônio na célula e não, evitar essa conversão.

A gente deve ainda lembrar que barrar hormônios pode dar certo em tubo de ensaio. Na vida real, as células costumam multiplicar seus receptores sempre que algo tenta bloqueá-los. Pode ser como enxugar gelo.

Por enquanto, também há poucos dados sobre como fica a testosterona de quem conseguiu escapar de uma covid-19 grave. Segundo Cristina Ribeiro, alguns trabalhos afirmam que seus níveis voltariam ao normal. Tomara, mas a metodologia usada nessas pesquisas pode ter somado várias moléculas, causando uma ilusão de normalidade. Daí que os cientistas — e os homens — devem continuar de olho na testosterona para todos verem no que vai dar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL