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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que será que o câncer de intestino é tão comum, quando seria evitável?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

23/03/2021 04h00Atualizada em 23/03/2021 15h30

Não quero fazer competição de coisa ruim, mas fica difícil entender. Nas mulheres brasileiras, o câncer de intestino só perde para o de mama. E, nos homens, fica atrás apenas do de próstata. No ano passado, devem ter acontecido perto de 41 mil casos entre nós, o que é um bocado. No entanto, o março marinho de conscientização sobre essa doença parece não fazer a mesma barulheira do outubro rosa ou do novembro azul. Se a gente não lembrar, o assunto acaba assim, completamente desbotado.

Mais esquisito ainda é pensar que, não bastasse ser o segundo colocado no ranking dos tumores malignos mais frequentes, esse é o terceiro câncer que mais mata no país, tanto quando olhamos para pacientes do sexo feminino quanto para os do sexo masculino.

Ora, aí mesmo é que não faz sentido, porque esse seria um problema totalmente prevenível, uma ameaça que os médicos conseguiriam extirpar com a maior facilidade antes mesmo de uma lesão na parede intestinal virar maligna. Dá para cortar o mal pela raiz. Sem contar que essa metamorfose de algo pré-maligno para um câncer acontece lentamente, levando anos até. É preciso muita bobeira para deixar um tumor colorretal acontecer e, pior, avançar a ponto de matar — mas, evidente, alguns casos são exceções.

Câncer colorretal, aliás, é o nome mais preciso. Estou falando de tumores que acometem o cólon e o reto, as duas porções do chamado intestino grosso, cuja função não remete exatamente a rosas — servem basicamente para armazenar e transportar fezes. São um grande corredor de cocô, se me permitem ser clara.

"Diferentemente do que acontece no intestino delgado, ali não há a absorção de nada tão importante, a não ser água e algumas vitaminas produzidas por bactérias que habitam essa região", descreve o cirurgião do aparelho digestivo Sergio Eduardo Alonso Araujo, que, além de ser do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, é o presidente eleito da Sociedade Brasileira de Coloproctologia.

Na opinião do médico, talvez venha daí — quer dizer, dessa função que não cheira à nobreza — uma parte do estigma em torno da prevenção do câncer colorretal. Será?! — me espanto. "E outra razão é que o seu rastreamento muitas vezes implica na realização de um exame mais complexo, a colonoscopia, que exige lavagem intestinal e sedação", diz ele.

Mas, antes de chegar nela, pode ser feito um simples exame de fezes para checar se, por acaso, elas escondem em seu tom característico, quase que camufladas, gotículas sangue. Na pior das hipóteses, mesmo que elas denunciassem um câncer em fase inicial em vez de uma lesão pré-maligna, confirmado posteriormente pela colonoscopia, a doença ainda teria uns 90% de chance de ser curada. Quem sabe até sem quimioterapia.

Para você ficar de olho

O câncer colorretal é mais frequente a partir dos 45, 50 anos de idade. "A pessoa pode notar uma alteração do hábito intestinal, alternando diarreia e constipação. Ou, muitas vezes, sentir fraqueza e notar apenas uma anemia", avisa o doutor Sergio Araujo.

Aliás, fica o recado: toda pessoa que está anêmica precisa, sim, fazer cocô no velho potinho para mandar examinar o produto de suas entranhas. Vai que a perda de sangue, arrastando o ferro junto, esteja acontecendo por ali...

É bem verdade que a pesquisa do sangue oculto — este é o nome oficial do exame — nem sempre dá certo. Ela serve apenas de um ponto de partida. "É que as lesões capazes de virar um câncer sangram de forma microscópica e o teste nem sempre é sensível o suficiente para identificá-las", justifica o coloproctologista. "Além disso, os sangramentos são intermitentes. Começam, param, voltam a acontecer. Pode ser que, naquele dia em que você colhe o exame, não esteja sangrando."

Por isso — atenção! —, se há a suspeita de algo errado, como uma anemia, melhor fazer o exame de novo. No mínimo, ele precisa ser repetido anualmente.

Já a colonoscopia, é um exame que pode ser feito a partir dos 50 anos e repetido a cada cinco, se você nunca sentiu nada, não tem parentes que sofreram de câncer de intestino, nem encontraram sangue oculto no exame de fezes. Para quem tem sintomas e histórico familiar desse tumor, a colonoscopia pode ser feita aos 40 e mais amiúde.

Sim, é mesmo um procedimento mais complexo. Exige um preparo para deixar o intestino limpinho que está longe de ser a experiência mais agradável deste mundo. E é feito sob sedação. Há riscos? "São baixíssimos, mas existem. Há o risco da sedação e o do exame em si", responde Sergio Araujo.

Há pólipos e pólipos

O colonoscópio, feito um tubo fino e flexível com uma câmera na ponta, é introduzido pelo ânus para percorrer o reto e o cólon à caça de pólipos, lesões na parede intestinal que lembram bolinhas ou cogumelos.

Alguns são o que os médicos chamam de hiperplásicos, completamente benignos, feito um amontado de células normais. Poderiam ficar para sempre ali, plantados no intestino, sem nos fazer nenhum mal. "Mas não dá para, a olho nu, diferenciá-los dos pólipos adenomatosos. Estes às vezes podem virar um câncer", explica o doutor Sergio Araujo.

Na dúvida, os médicos removem todos. E, depois, o olhar do patologista através do microscópio é que vai dizer que tipo de pólipo era e, no caso de um tipinho adenomatoso, se havia células se alterando para malignas no meio. Como já caíram fora, o problema tende a estar resolvido. "Isso é o bom da colonoscopia: ela diagnostica o pólipo e trata em um tacada só", diz o médico.

Existem algumas poucas regiões do trajeto intestinal em que o colonoscópio pode ficar um tanto às cegas, deixando escapar lesões minúsculas do seu flagrante. Mas isso pode ser solucionado com algumas manobras, inflando o intestino de ar ou até mesmo prestando atenção redobrada nesse pedaço quando o exame for repetido cinco anos depois. Sim, sem problemas. O câncer de intestino cresce devagar. Só não dá para deixar de fazer o exame no prazo combinado.

Sete maneiras de prevenir

Claro, o ideal é fazer de tudo para manter a saúde do intestino. E a primeira medida é caprichar na ingestão de alimentos ricos em fibras. "As fibras diminuem a absorção de água e aumentam o volume das fezes, estimulando as contrações intestinais", explica o médico. Por que isso é bom: literalmente porque o cocô vai passar por ali mais depressa.

"Se, por acaso, houver substâncias carcinogênicas diluídas nele, como certos conservantes de alimentos e moléculas presentes em defumados, elas ficarão menos tempo em contato com as células que revestem o intestino grosso por dentro, chamadas colonócitos", continua. Essas células já se multiplicam velozmente por natureza, o que aumenta a ameaça de alguma mutação indesejada. Então, melhor mesmo o que for danoso passar ligeiro, para nem sequer provocá-las.

A segunda medida é evitar ou diminuir o consumo de gordura animal, como a das carnes vermelhas, em especial a das linguiças, salsichas e tudo aquilo que, além de gorduroso, costuma estar cheio de conservantes.

"A terceira recomendação é fazer pelo menos meia hora de exercícios, quatro ou cinco vezes por semana", segue listando o doutor Sergio Araujo. Sim, existem evidências de que a atividade física evita a constipação. Logo, ela diminuiria o contato das fezes com as paredes intestinais, mas ninguém tem certeza se a razão seria mesmo essa. "O que se sabe, por dados epidemiológicos, é que o câncer colorretal é menos comum em quem é fisicamente ativo", fala o médico.

A obesidade é mais um fator de risco associado à doença. "É possível que não seja a obesidade em si e, sim, porque a pessoa muito acima do peso geralmente não consome tanta fibra e come mais gorduras, por exemplo", nota Sergio Araujo.

Não fumar e não beber álcool em excesso seriam a quinta e a sexta atitude. Afinal, cigarro e bebida deixam rastros tóxicos nas fezes. Por fim, você precisa fazer no mínimo — ou para começar — o exame de fezes todo ano. E, se for complicado demais levar o potinho para o laboratório ou se você tiver algum constrangimento, saiba que já existem opções de testes que podem ser feitos em casa, sujando uma fita que denuncia a presença de hemoglobina — leia-se, de sangue oculto. Não tem desculpa para dar moleza ao câncer. A gente precisa encarar essa meleca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL