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Elânia Francisca

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Namoro na adolescência: como acolher adolescentes em casa, nesse momento?

jacoblund/Getty Images/iStockphoto
Imagem: jacoblund/Getty Images/iStockphoto
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

20/08/2021 04h00

Vamos começar esse texto com uma informação importante: criança não namora, nem de brincadeira! É importante dizer isso aqui, pois nós, pessoas adultas, parecemos nos esquecer dessa informação quando estamos interagindo com crianças, mais especificamente quando essa interação se dá com crianças de gêneros opostos. Para algumas pessoas adultas, basta ver uma menina de seis anos de mãos dadas com o menino da mesma idade para alguém dizer: "Olha que casalzinho mais lindo!". Já falei sobre isso em outro texto.

Crianças não namoram. Na verdade, o que acontece quando uma criança diz que está namorando alguém é uma erotização que, muitas vezes, é promovida pelos adultos, que incentivam crianças a chamar qualquer tipo de afeto e gentileza de namoro. E, convenhamos que, é um tanto contraditório que adultos façam "brincadeiras" sobre namoro na infância, mas quando a criança atinge a adolescência e se apaixona, é proibida de namorar.

"Aqui em casa só namora depois dos 18 anos"

Essa é uma frase muito dita por pessoas adultas responsáveis por adolescentes, mas que revela muito mais o desejo adulto de controlar o afeto dos filhos do que de contribuir para que eles construam um caminho de responsabilidade afetiva com outras pessoas e autocuidado na aproximação amorosa.

Proibir o namoro em casa não impede que ele aconteça na rua. É muito importante que a pessoa adulta resgate sua própria adolescência e compreenda que proibição afasta qualquer possibilidade de diálogo franco entre família, cuidadores e adolescentes.

Apaixonar-se é uma das coisas que acontece na adolescência e quando esse apaixonamento é correspondido, muito provavelmente haverá um namoro (quer você queira, quer não).

"Se eu descobrir que você está namorando, você vai se arrepender"

Quando dizemos isso, estamos dando a seguinte informação: não me deixe descobrir, faça bem escondido. O grande problema do namoro escondido é que ele ocorre, muitas vezes, num ambiente desprotegido, sem orientação ou apoio. Além disso, você, pessoa adulta, perde a oportunidade de conhecer e criar um vínculo saudável com a pessoa com quem seu(sua) filho(a) está namorando. Como um namoro receberá orientação adequada, se ele é feito às escondidas?

"Eu aceito que namore, mas esse tipo de namoro eu não aceito!"

Um ponto importantíssimo a salientar aqui é o respeito à afetividade LGBTQIA+. Dizer que permite que adolescentes namorem, desde que esse relacionamento seja heterossexual é uma forte expressão de LGBTfobia e fere de forma significativa.

Nós vivemos num país extremamente violento para pessoas LGBT e para reverter esse quadro é preciso que haja maior respeito e proteção das pessoas que vivem afetividades não-heterosexuais.

Se sua filha está namorando outra menina ou seu filho namora outro menino, ela(e) precisa muito de seu apoio e respeito para viver esse afeto, pois já existem muitas pessoas tentando fragilizá-la(o).

O que fazer, então?

  1. Você não precisa esperar que adolescentes comecem a namorar para conversar sobre o assunto. É possível falar sobre formas saudáveis de se relacionar e criar um canal de comunicação com adolescentes sobre o assunto;
  2. Não traga ideias falsas sobre namoro nem invente uma idade para começar a namorar: "Namoro só depois dos 18 anos". Muitas pessoas começam a namorar antes da idade adulta --e você sabe disso;
  3. Não ameace agredir, castigar adolescentes, caso estejam namorando. Isso fragiliza o vínculo e abre uma enorme porta para que esse namoro aconteça às escondidas e em ambiente que podem ser perigosos;
  4. Conviva com a pessoa que sua(seu) filha(o) namora, crie laços com essa pessoa e coloque-se como alguém com quem possam conversar;
  5. Tenha empatia com adolescentes que estão vivendo um apaixonamento recíproco. Você já deve ter vivenciado um momento assim, tente recordar como se sentia nessa idade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL