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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saúde sexual de adolescentes: você já ouviu falar em urologista?

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Imagem: iStock
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

19/03/2021 04h00

Certa vez realizei uma roda de conversa numa organização que tinha ações voltadas para adolescentes com idade entre 13 e 15 anos. Eram cerca de 15 pessoas na sala, incluindo uma mulher adulta trabalhadora do local que gentilmente me dava suporte no trabalho com a turma.

Estávamos conversando sobre puberdade. Na mesa que ficava no meio da sala, eu tinha colocado um modelo de útero, outro de vulva e um de pênis.

Quando eu apresento esse tipo de material, sempre ocorre um alvoroço entre adolescentes, seguido de muito riso e alguns comentários que eles fazem entre si. Eu costumo determinar cerca de 10 minutos para um tempo livre em que todo mundo possa externalizar sua impressão com relação aos objetos expostos. Também determino a necessidade de três proibições:

  1. Não pode jogar os modelos pélvicos, penianos e vulvários no chão;
  2. Não pode bater em ninguém com os materiais;
  3. Não pode forçar ninguém a tocar os objetos expostos.

Eu me sento numa cadeira e fico apenas observando as interações. Me interessa saber o que o grupo pensa sobre aquele material. É durante a observação que eu escuto frases como:

- Credo, que nojo!
- Oh, Fulano, esse aqui parece com o meu.
- Por que essa vagina aqui tem dois buracos?

Trata-se de uma atividade saudável de contato com a própria corporeidade, já que ao tocar aqueles objetos, o grupo entra em contato com algo muito parecido com sua própria existência, mas que nunca ousou observar com seriedade e sem culpa.

Nesse dia, após o tempo livre de expressão, uma adolescente me contou sobre sua ida ao ginecologista e ficou maravilhada ao saber que o útero teria o tamanho de um punho fechado. Todas colocaram o punho sobre o ventre para medir.

Foi então que uma pessoa perguntou:

- Se quem tem vulva vai ao ginecologista, quem tem pênis vai aonde?

Era J., com seu corpo baixinho e sorriso espoleta, que fazia o papel de porta-voz de um grupo que balançava o modelo peniano como se fosse uma bandeirinha de São João.

Devolvi a pergunta:

- Qual a especialidade médica que as pessoas que têm pênis vão?

J. gritou:

- A minha especialista é minha mãe!

- Sua mãe?

Eu fiquei encucada e queria saber mais sobre isso.

- Eu, quando tô com alguma dor no pênis, eu falo com minha mãe. Daí ela olha e diz se tá feio ou se tem alguma coisa pra cuidar.

Pergunto a todos se eles conhecem uma especialidade chamada urologia. Todos dizem não conhecer. Explico que urologista cuida da saúde da uretra e do sistema urinário, então serve tanto para quem tem vulva quanto para que tem pênis, porém a uretra do pênis é o canal por onde passa não somente a urina, mas também o esperma.

- Nunca ouvi falar disso aí não, prow!

No final do encontro, pedi que o grupo levasse como atividade de pesquisa a seguinte tarefa:

- Pergunte às pessoas adultas de sua casa que têm pênis se já foram ao urologista.

No encontro seguinte, aqueles que se lembraram de fazer a atividade disseram que ninguém em casa sabia desse profissional. Um deles perguntou se era aquele médico que colocava o dedo no ânus, porque, se fosse, ele não iria nunca.

Se você leu o texto anterior sobre ginecologista, percebeu que o medo de que seja introduzido objetos na região intima é algo que paira sob o imaginário adolescente.

Novamente, ao falar de urologista, estamos diante de um tabu sobre o corpo e autocuidado genital e da existência de um ciclo de desconhecimento das formas de promoção à própria saúde.

Quero recordar --e informar -- que em setembro de 2018 a SBU (Sociedade Brasileira de Urologia) criou uma hashtag chamada #vemprouro, com o objetivo de divulgar a importância de adolescentes que têm pênis frequentarem a especialidade de urologia.
Além dessa campanha, é preciso criar espaços de diálogo e orientação junto a adolescentes sobre autoconhecimento, prevenção e cultivo de automor.

Na semana que vem, refletiremos um pouco sobre a especialidade da hebiatria, que trata especificamente da saúde integral de pessoas com idade entre 10 e 20 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL