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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saúde sexual de adolescentes: quando se deve iniciar ida ao ginecologista?

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Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Desde 2010 me dedico às atividades que envolvem processos educativos sobre o desenvolvimento sexual saudável de crianças e adolescentes, especialmente àquelas que residem nas periferias da cidade de São Paulo.

Tenho realizado rodas de conversa, vivências de autocuidado e diálogos com familiares e educadores que atuam e/ou convivem com pessoas de zero a dezoito anos.

Dentre as diversas dúvidas de adolescentes, existem duas que sempre me chamam atenção. O primeiro é o questionamento de meninas sobre namoro com homens adultos. Em 10 anos de atividade, nunca fui questionada por um menino sobre namoro com mulheres adultas, mas a relação entre meninas de 12 a 17 anos e homens adultos com idade acima de 30 anos sempre é um tema de fervorosos debates nas atividades educativas. Sobre isso eu já falei anteriormente num texto que você pode acessar aqui. Já o segundo tema é sobre a saúde sexual e como promover o autocuidado genital.

Pensando nisso, elaborei três textos para falar sobre a importância de três especialidades médicas que fazem parte da promoção do cuidado à saúde de adolescentes: hebiatria, urologia e ginecologia.

Hoje vamos pensar um pouco na questão que sempre surge nas atividades com pessoas que têm vulva e vagina: quando se deve iniciar a ida à consulta ginecológica?

Nos momentos em que algum adolescente me faz uma pergunta, eu gosto de convidar o grupo para pensar na resposta coletivamente, assim teremos uma ideia do que paira no imaginário das pessoas presentes e suas construções sobre corpo e autocuidado. É um exercício revelador e as respostas para essa pergunta são as mais variadas.

Selecionei as campeãs:

Adolescente 1: Você deve ir à ginecologista só depois dos 18 anos!
Adolescente 2: Não, você deve ir à consulta ginecológica só depois que começa a fazer sexo.
Adolescente 3: Ginecologista é só para pessoas grávidas acompanharem a gestação.
Adolescente 4: Ginecologista? Deus me livre ficar deitada parecendo um frango, e ainda pelada.

Com muito cuidado eu vou informando que é interessante que adolescentes iniciem sua ida a consulta ginecologia após a primeira menstruação, mas que é possível agendar antes mesmo de menstruar, para tirar dúvidas, iniciar uma relação de confiança e aproximação com a pessoa que vai te atender.

Infelizmente, uma dificuldade constante no trabalho com adolescentes é a sensibilização dos adultos responsáveis. Comumente me deparo com adolescentes relatando que, ao pedir para agendar consulta ginecológica, a família se recusou, pois entende que quem não faz sexo, não precisa ir ao ginecologista.

No momento em que convido as famílias para conversar sobre a importância da consulta ginecológica na adolescência, descubro que boa parte das mães iniciou seu percurso de cuidado ginecológico somente quando engravidaram ou sua última consulta foi no pós-parto da filha, que hoje já é adolescente. Ou seja, a ida tardia ao ginecologista faz parte de um ciclo que envolve várias gerações, e não só adolescentes.

Desse modo devemos contribuir para o rompimento desse movimento que torna pessoas menstruantes alienadas do fluxo de sua própria corporeidade.

Tenho observado a existência de muitas barreiras que dificultam o acesso de adolescentes ao ginecologista, como a falta de profissionais dessa área nas unidades básicas de saúde, o tabu de se falar sobre sexualidade e menstruação, o incentivo ao medo de estar numa sala com alguém que vai abrir suas pernas e colocar coisas na sua genitália.

Acredito que precisamos dialogar mais com adolescentes menstruantes sobre ginecologia, ciclos menstruais e a importância dessa especialidade no cultivo do autocuidado, confiança e autoamor. Construir uma cultura de autocuidado entre corpos menstruantes é contribuir para a promoção da saúde sexual de adolescentes.

Na próxima semana conversaremos sobre urologia e a saúde de adolescentes que têm pênis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL