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Edmo Atique Gabriel

O coração de George Floyd era igual ao coração de seu assassino

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Imagem: AFP
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

14/06/2020 04h00

Quando nascemos, nosso coração apresenta uma quantidade imensa de batimentos cardíacos. Durante ausculta do tórax de um recém-nascido, nos deparamos com uma frequência cardíaca que varia de 150-180 batimentos por minuto. Estes batimentos elevados são necessários para as demandas metabólicas e energéticas do recém-nascido e, o mais surpreendente, o bebê não fica ofegante com esta frequência cardíaca tão alta. Ao contrário, o recém-nascido chora, mama, começa a esboçar seus primeiros movimentos e não se cansa.

Nas crianças, é comum encontrarmos também um "sopro" no coração. Em geral, este "sopro" pode ser considerado benigno, pois resulta da fragilidade natural dos constituintes das valvas cardíacas, as quais adquirem forma e textura de acordo com o crescimento da criança.

Em condições normais, o coração humano compreende dois tipos de circulação, de acordo com as caraterísticas do sangue. Elucidando melhor —o coração e os pulmões compartilham entre si uma circulação chamada de circulação menor, na qual o sangue de cor bem escura e sem oxigênio é bombeado pelo coração aos pulmões, para então ser oxigenado e adquirir a coloração vermelha.

Por outro lado, o coração e os outros órgãos e estruturas do corpo humano compartilham entre si uma circulação denominada circulação sistêmica. Nesta circulação sistêmica, o sangue flui de forma vívida, rico em oxigênio e com a clássica coloração vermelha, nutrindo todos os órgãos e conferindo vitalidade plena aos tecidos.

Quando atingimos a fase adulta, nosso coração, devidamente constituído, apresenta-nos outro espetáculo perfeito de fisiologia. Nossa frequência cardíaca, ao repouso, contempla 60-80 batimentos por minuto. Vale lembrar que, quando recém-nascidos, nosso coração pulsava o triplo de vezes! Na fase adulta, nossas demandas enérgicas são outras, tal como nossa capacidade cardiovascular aos esforços.

O acúmulo de anos de vida traz consigo as responsabilidades e o privilégio de desfrutar do livre-arbítrio. Escolhemos nossos caminhos, dentre eles nossas atitudes comportamentais e hábitos alimentares. Alguns de nós seguem o caminho das dietas ricas em gorduras e açúcares, além de rotina de atividade física escassa.

Estas pessoas enfrentarão complicações cardiovasculares ao longo da vida como infarto do coração, derrame cerebral, hipertensão arterial, diabetes e problemas de valvas cardíacas.

O contraponto será protagonizado pelas pessoas que se privam das extravagâncias, que priorizam a longevidade por por meio da atividade física regular e pela contínua rejeição aos hábitos deletérios como
tabagismo e etilismo. Estas pessoas mais disciplinadas poderão, sem dúvida, atingir maior extensão de vida com qualidade e produtividade.

No esteio do envelhecimento saudável, a saúde cardiovascular ocupa espaço de destaque. Nosso coração, na fase da "melhor idade", precisa estar adaptado às mudanças estruturais e funcionais encerradas pelo acúmulo de anos de vida. Somente assim será possível continuar produzindo do ponto de vista intelectual, contribuindo de alguma forma para a sociedade, a despeito do menor vigor físico e da maior fragilidade constitucional.

Após tantas considerações acerca do coração humano, não hesitaria em afirmar que George Floyd, vítima de racismo e de brutalidade abjeta, foi um recém-nascido com 150-180 batimentos cardíacos por minuto, pode ter tido um "sopro" benigno no coração, tornou-se um adulto com 60-80 batimentos cardíacos por minuto, certamente fez suas escolhas por hábitos alimentares e comportamentos de vida, eventualmente pode ter desenvolvido alguma comorbidade cardiovascular e morreu tragicamente, porque teve seu pescoço comprimido e as circulações menor e sistêmica de seu coração interrompidas abruptamente.

Sabem o que é mais ironicamente intrigante em tudo isto? Que o assassino de George Floyd, absolutamente não merecedor da menção de seu nome, foi um recém-nascido com 150-180 batimentos cardíacos por minuto, pode ter tido um "sopro" benigno no coração, tornou-se um adulto com 60-80 batimentos cardíacos por minuto, certamente fez suas escolhas por hábitos alimentares e comportamentos de vida (alguns deploráveis), eventualmente pode ter desenvolvido alguma comorbidade cardiovascular e morreria tragicamente, caso tivesse seu pescoço comprimido e as circulações menor e sistêmica de seu coração interrompidas abruptamente.

Assim, resta ostensivamente constatar que o coração de George Floyd era igual ao coração de seu assassino, embora seu assassino certamente pensasse diferente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.