PUBLICIDADE

Topo

Isolamento: toda vida é preciosa e deve ser preservada a qualquer custo

Temos que sair disso como seres humanos melhores, senão não valeu a pena passar por isso - iStock
Temos que sair disso como seres humanos melhores, senão não valeu a pena passar por isso Imagem: iStock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

04/04/2020 04h00

A palavra isolamento contém inúmeros sinônimos tais como solidão, retiro e até exílio. Todas nos remetem a tristeza e angústia que o momento nos traz.

Mas se pensarmos profundamente, essa angústia não pode ter origem na solitude, pois afinal de contas sempre reclamamos que gostaríamos de mais tempo com nossos familiares e dissemos que o conforto do nosso lar é insubstituível.

Pensemos no momento de desespero, por simplesmente estarmos em casa, nas milhares de pessoas que estão doentes e internadas, estes sim isolados de seus familiares e amigos, cujo único contato é com anônimos mascarados da saúde que, apesar de serem seus aliados, não podem sequer lhes estender a mão ou lhes dar um afetuoso abraço de solidariedade. Ainda contam com a incerteza da evolução da doença e não encontram respostas para sua provável evolução.

Nosso isolamento não é uma escolha deliberada, nem tão pouco uma imposição dos governantes como em outros países, mas a única opção cientificamente comprovada para nos proteger e garantir eventuais leitos hospitalares a todos.

Pensemos que nosso distanciamento é fundamental e, além de nos proteger, é solidário para que a curva de contagiados e mortos comece a cair. É o que podemos fazer como cidadãos e irmãos, e não é pouco.

Com a chegada dos testes rápidos de diagnóstico, entretanto, este problema pode ser amenizado, visto que o exame pode demonstrar se já existe defesa imunológica, o que conferiria imunidade às pessoas que já tiveram contato com o vírus e, portanto, podem ser liberados do isolamento.

A recessão econômica virá, isto é um fato. Mas não há alternativa. Toda vida é preciosa e única e deve ser preservada a qualquer custo.

Óbvio que sobretudo as classes mais desfavorecidas estão preocupadas com o sustento imediato, porque a vida não lhes permitiu armazenar reservas e o trabalho diário é fundamental. Aí entram os governos.

Há de se esquecer a lei de responsabilidade fiscal e injetar dinheiro na economia, ainda que isso aumente a dívida pública. O pedido do governo federal ao Parlamento de reconhecer o estado de calamidade pública por conta da ameaça do coronavírus autoriza a União a aumentar os gastos públicos e a não cumprir a meta fiscal prevista para este ano, que é de déficit de R$ 124 bilhões.

Segundo a Agência Senado, o artigo 65 da norma diz que, na ocorrência de calamidade pública reconhecida pelo Congresso Nacional ou pelas Assembleias Legislativas, União, estados e municípios estão dispensados de atingir resultados fiscais enquanto perdurar a situação.

Cabe a eles garantir salários e empregos. Cabe a eles, que foram eleitos para cuidar, garantir e assegurar atividades realmente essenciais como serviços de saúde, segurança pública e abastecimento, protegendo a cada trabalhador.

Embora tenham e mereçam nosso respeito, cultos religiosos não se enquadram nesta categoria e, pelo contrário, são extremamente perigosos pelas aglomerações que produzem. A exemplo do que ocorreu no Irã.

Com já disse o historiador e professor Leandro Karnal, a resolução desta inimaginável situação só poderá vir através de 3 vertentes conjuntas e indissociáveis —a ciência, a administração pública e a compaixão.

Pela ciência, ainda que desprestigiada e desvalorizada em nosso país, conseguimos fazer de forma inédita e célere o sequenciamento genético do vírus, fato que contribuiu imensamente para todos pesquisadores do mundo. Cortar ou contingenciar, se assim quiser chamar, verbas de pesquisa é ceifar a ciência em nosso país, aceitar a dependência externa e nos conduzir ao obscurantismo científico por anos.

Minha avó tinha um ditado para estas situações: "Só se lembra de Santa Bárbara quando troveja". Mas a ciência é tão nobre que ignora esses devaneios e segue em sua missão de proteger a humanidade.

A vacina ou medicação virá certamente de universidades, laboratórios ou indústria farmacêutica.

Pela administração pública, coordenando o isolamento social, garantindo o funcionamento de atividades essenciais como serviços de saúde, segurança pública e insumos, liberando linhas de crédito e garantindo empregos.

A terceira vertente é a compaixão. Realize atividades sociais, seja útil aos idosos, ofereça-se a outras pessoas para comprar alimentos quando for ao mercado, remédios quando for a farmácia. Utilize as redes sociais para passar mensagens positivas. Fale com os idosos de sua família através de Skype ou WhatsApp. Transforme a crise em oportunidade de ser um ser humano melhor. Não reforce o desespero. É fundamental manter a saúde mental durante esse isolamento.

Temos que sair disso como seres humanos melhores, senão não valeu a pena passar por isso.

Nos momentos de fraqueza, em que o desespero bate à porta de nosso espírito, lembremos da Oração à Santa Teresa D'Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças que vivem em clausura absoluta: "Nada te perturbe, nada te espante, a paciência tudo alcança e tudo passa". Isso também vai passar.