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Dante Senra


Por que é importante ser um doador de órgãos?

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

10/08/2019 04h00

"Quando você for para o céu, deixe seus órgãos da Terra. Afinal, anjos só precisam de asas." Essa é a frase de um paciente que ganhou um novo coração.

Talvez não haja atitude mais nobre e humanitária do que resolver doar seus órgãos. Isso porque cada pessoa que decide ser um doador pode salvar 8 vidas ou mais, já que de cada doador podem ser utilizados 2 córneas, 2 pulmões, 2 rins, coração, fígado, pâncreas, intestino, pele, ossos e tendões.

Para ser um doador, basta conversar com sua família sobre esse desejo. No Brasil, a doação de órgãos só pode ser feita com a autorização familiar. Pela legislação brasileira, não há como garantir a vontade do doador. Nenhum tipo de documento que expresse a vontade de ser doador (como constar na identidade) pode autorizar a retirada de órgãos sem a anuência da família. O que se observa, entretanto é que na grande maioria dos casos, quando a família tem conhecimento do desejo de doar do parente falecido, esse desejo é respeitado.

Entretanto, embora o Brasil seja referência mundial na área de transplantes e em números absolutos seja o segundo maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, o número de doações ainda é baixo em relação ao número de pessoas que necessitam.

Apesar das campanhas (próximo mês é realizada em todo o Brasil a campanha de conscientização para Doação de Órgãos), ainda é muito alta a recusa dos familiares em autorizar a doação, ou porque não sabem da vontade do falecido em doar os órgãos ou ainda, por desconhecimento e falta de informações sobre o assunto. Algumas não entendem como se dá a morte encefálica e acham que os órgãos podem ser retirados antes de o parente morrer.

Quais os números no Brasil?

Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (Veículo Oficial da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), a taxa de não-autorização familiar é de 43% (a média mundial de recusa é em torno de 25%). No ano passado, a taxa de doadores efetivos no Brasil cresceu apenas 2,4% (3.531 em números absolutos de doadores efetivos), 5,5% abaixo da taxa prevista.

Em números absolutos foram realizados 23.534 transplantes (sendo a grande maioria de córnea, 14.531) e a necessidade seria de 39.663 transplantes. Isso porque o número de pacientes que ingressaram na lista de espera em 2018 foi de 30.604 das quais 1.146 são crianças. Neste período na espera morreram 2.851 pacientes (80 crianças) sem poder efetivar a cirurgia.

O transplante de córnea é de longe o mais realizado seguido pelo de rins e depois fígado (esses dois últimos podendo ser feitos também por doadores vivos). O de coração é o quinto em frequência de realização.

Quem pode doar?

Todas as pessoas saudáveis podem ser doadoras de órgãos. O importante é comunicar a família, já que sua autorização é fundamental. Nos casos da doação de rim e fígado, ela pode ser feita em vida e o mais comum é que seja feita por parentes. Para doadores ainda em vida e que não são parentes do paciente, há necessidade de autorização judicial, aprovação da Comissão de Ética do hospital transplantador e da CNCDO (Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos), assim como de comunicação ao Ministério Público.

As CNCDOs existem distribuídas em todo o Brasil e são essenciais para facilitar os transplantes no país. Estas centrais estão integradas com os hospitais e conseguem identificar com mais rapidez doadores em potenciais e indivíduos que precisam de transplante de órgãos.

Morte cerebral

O desconhecimento do conceito de morte cerebral é um dos principais fatores para a recusa da família em doar.

O diagnóstico de morte encefálica é definido como "morte baseada na ausência de todas as funções neurológicas". É a completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro. Esse diagnóstico faz parte da legislação nacional e do Conselho Federal de Medicina.

A morte cerebral precisa ser confirmada por dois médicos de diferentes áreas, não relacionados com a equipe de transplante, que realizam provas e exames para o diagnóstico clínico. Além disso, vários exames de imagem são realizados, como eletroencefalograma, ultrassom com doppler transcraniano e arteriografia cerebral. Esses exames são baseados em sólidas e reconhecidas normas técnicas médicas.

O diagnóstico de morte cerebral é completamente diferente do coma, em que o paciente está medica e legalmente vivo. Os exames são capazes de diferenciar esses diagnósticos com precisão.

Após a retirada dos órgãos é obrigatório por lei que a reconstituição do corpo seja feita com todo o cuidado para que não haja deformidade. Assim amigo, para salvar varias vidas após sua morte, como diz o poeta: "Não penses na doação de órgãos como oferecer uma parte de ti para que um desconhecido possa viver, na realidade é um desconhecido que oferece o corpo para que uma parte de ti possa continuar a viver".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Dante Senra