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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Gastrite: queimação e dor abdominal são sinais da doença; veja como evitar

Camila Rosa/VivaBem
Imagem: Camila Rosa/VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o VivaBem

07/08/2018 04h00Atualizada em 18/06/2019 19h03

A maioria das pessoas já teve a sensação de estar com a "boca do estômago" em chamas depois de uma refeição gordurosa ou regada a álcool. Quando esse mal-estar aparece com frequência após as refeições, é comum você achar que está com gastrite, palavra que designa a inflamação na mucosa que reveste o estômago internamente.

Muitas vezes o termo é usado erroneamente para designar qualquer desconforto na parte alta do estômago, por isso o mais correto é chamar o problema de "dispepsia", ou má digestão. Como explica o médico Joaquim Prado, membro da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), "o paciente pode ter gastrite sem sintomas ou, por outro lado, apresentar sintomas gástricos sem qualquer tipo de gastrite."

Direto ao ponto

Para entender melhor o que acontece, é bom ter uma ideia de como nossa digestão funciona. Depois que os alimentos são triturados na boca e engolidos, eles passam pelo esôfago e descem para o estômago, onde sofrem ação do suco gástrico, constituído basicamente por ácido clorídrico e pepsina. Nesse órgão, que se parece um pouco com um balão, por sua capacidade de se expandir, o bolo alimentar passa pelo processo de pré-digestão: ele é misturado por ação da musculatura do estômago, diluído pelas secreções e muco (que protege contra o ácido), e ainda esterilizado --isso mesmo, a acidez promove uma limpeza que diminui bastante o risco de infecções no intestino, onde ocorre a absorção dos nutrientes.

Nossa digestão pode sofrer dois tipos de problemas:

  • Funcionais: como o nome sugere, estão relacionados ao "mau funcionamento" do estômago;
  • Orgânicos: quando há alguma lesão instalada.

"A gastrite é uma lesão inflamatória, que pode ser classificada em vários graus e tipos. Já a dispepsia - comumente chamada de má digestão - é uma alteração do funcionamento do estômago, que pode estar associada tanto ao excesso quanto à diminuição da secreção e dos movimentos gástricos", diferencia Eduardo Berger, gastroenterologista do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos (SP).

Prevalência

De acordo com a FBG, cerca de 40% da população brasileira apresenta sintomas de dispepsia, embora alguns estudos falem em 70%. "Essa prevalência sempre foi alta, mas o nível de exigência sociocultural, as pressões emocionais e os alimentos industrializados têm feito com que haja tendência de subir", avalia Berger.

Sintomas de gastrite

As manifestações da gastrite são muito variáveis. Dependem do grau da doença (leve, moderado ou intenso), das causas e da existência simultânea de outras alterações, como refluxo, problemas na vesícula ou mesmo ansiedade. As principais queixas são:

- Desconforto, queimação ou dor na parte superior do abdômen;
- Empachamento (sensação de estar com a barriga cheia ou pesada, mesmo comendo pouco);
- Distensão abdominal;
- Náuseas ou vômitos.

Gastrite por bactérias

A infecção pela bactéria Helicobacter pylori costuma ser associada a gastrites, úlceras e também ao câncer de estômago. Esse micro-organismo pode ser contraído por água, alimentos ou objetos contaminados pelo contato com fezes, ou mesmo pela saliva, segundo estudos.

Gastrite reativa

O uso prolongado de substâncias que irritam a mucosa do estômago, como medicamentos anti-inflamatórios, álcool, drogas e cigarro também pode causar a chamada "gastrite reativa".

Em casos mais raros de gastrite, o organismo ataca uma estrutura própria, causando inflamação na mucosa. Outras causas possíveis, e menos frequentes, são: cirurgia de redução do estômago, exposição à radiação e o estresse provocado por doenças graves, como grandes queimaduras ou traumas.

Gastrite nervosa

Certos comportamentos ou emoções podem agravar a gastrite, ou, ainda, provocar sintomas sem que haja uma inflamação local:

  • Estresse e ansiedade, que geralmente interferem no comportamento alimentar, ou podem provocar sintomas semelhantes aos da gastrite - é a chamada "dispepsia funcional", popularmente conhecida como "gastrite nervosa". Assim, passar nervoso não causa gastrite, apenas pode deflagrar uma crise;
  • Jejum prolongado, seguido de refeições volumosas, feitas rápido demais;
  • Ingestão exagerada de alimentos que retardam o esvaziamento do estômago, como doces e gordura;
  • Consumo excessivo de café, condimentos ou bebidas gaseificadas, que distendem o estômago.

Diagnóstico

Diagnóstico

Nos casos mais leves e de curta duração, o gastroenterologista pode indicar o tratamento somente baseado nos sintomas. Mas, de forma geral, é solicitado um exame chamado endoscopia, em que um tubo fino e flexível é inserido pelo estômago e permite ao médico observar as imagens em um monitor de vídeo. Ele costuma ser feito com sedação e em jejum. Quando necessário, pequenos fragmentos de tecido são coletados para biópsia, que pode indicar a presença de alguma lesão maligna e também a infecção por Helicobacter pylori.

A endoscopia, portanto, também pode indicar se há outras doenças associadas, como úlceras, esofagite (inflamação da parede do esôfago, por refluxo), hérnia de hiato ou tumores. Eventualmente, o especialista pode solicitar exames de sangue, de fezes e ultrassonografia de abdome, para avaliar problemas no pâncreas ou pedras na vesícula, ou sangramentos. Testes de intolerância alimentar ainda podem ser solicitados em certos casos.

Gastrite crônica ou gastrite enantematosa

A doença pode ser aguda ou crônica, podendo durar anos ou a vida toda. Em linhas gerais, a gastrite pode ser dividida em não erosiva (quando só há uma inflamação da mucosa) ou erosiva (quando há lesões, sangramentos ou úlceras). Pode ser classificada de acordo com a gravidade: leve, moderada, intensa ou atrófica (quando o dano é tão grande que há uma atrofia, ou seja, redução de células na mucosa). A inflamação pode afetar determinadas partes do estômago (cárdia, corpo, antro ou fundo) ou então ser difusa (pangastrite). Outros termos que podem ser encontrados no resultado de uma endoscopia são "gastrite enantematosa", caracterizada por inchaço, e "gastrite eosinofílica", que envolve uma reação imunológica.

Diferença entre gastrite, refluxo e úlcera

As três alterações têm relação com a secreção ácida do estômago, mas podem gerar complicações diferentes. "O refluxo representa doença que acomete o esôfago, que é o órgão de ligação entre a boca-faringe e o estômago, sendo um tubo de passagem rápida. Quando muito intenso, o refluxo causa esofagite (inflamação do esôfago)", explica Jaime Zaladek Gil, gastroenterologista da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein (SP). O material que está presente no estômago volta para o esôfago por uma falha na válvula que separa essas duas porções. A pessoa sente azia, tem arrotos e até pode ter dores de garganta. Obesidade, gravidez, hérnia de hiato e outras doenças podem causar o problema, que muitas vezes é confundido com gastrite ou coexiste com ela.

Já "as úlceras são lesões mais profundas que a gastrite, acometendo várias camadas do estômago e causando perda de algumas delas, o que leva à formação de um 'rasgo' na integridade do revestimento gástrico", acrescenta Gil. Essas feridas provocam sintomas mais intensos e podem ocasionar perda de sangue no vômito ou nas fezes. Além dos fatores de risco associados à gastrite, como a infecção por H. pylori, também pode haver fatores genéticos envolvidos.

Gastrite tem cura?

Tem. Como as causas da gastrite podem variar, não existe um único tratamento para todos os pacientes. Muitas vezes a simples suspensão do fator desencadeante, como o uso de determinado medicamento ou abuso de álcool, resolve o quadro.

Remédios para gastrite

Os medicamentos devem ser prescritos por um médico de acordo com o tipo de gastrite e o grau da doença. As doses e o tempo do tratamento devem ser determinados pelo especialista, já que esses medicamentos podem ter efeitos colaterais se usados por tempo prolongado. O tratamento medicamentoso pode incluir:

  • Antibióticos (como amoxicilina ou claritromicina).são prescritos quando o H.pylori é identificado;
  • Bloqueadores da bomba de prótons (como pantoprazol, omeprazol, rabeprazol etc) ajudam a inibir a secreção ácida do estômago, bem como os bloqueadores H2 (como a ranitidina);

- Antiácidos (como sais de magnésio e de alumínio) e alginato podem ser usados em casos pontuais (após uma refeição que cause mal-estar);
- No caso de doenças autoimunes, o tratamento é feito com drogas específicas para combater a inflamação;
- Analgésicos podem ser indicados para aliviar a dor.

Nunca se automedique

Muita gente consome remédios para gastrite por conta própria e por longos períodos, o que pode trazer diversos riscos. O principal deles é mascarar uma doença que pode ter consequências graves. Os medicamentos inibidores de secreção ácida, quando usados por período longo e sem controle médico, podem levar à perda de cálcio, por mal absorção, assim como deficiência de B12, a qual é muito importante para evitar problemas neurológicos crônicos", alerta o médico do Einstein. Pacientes que fazem uso frequente devem ser monitorados, segundo ele.

Mudanças de comportamento resolvem?

As dicas também variam de acordo com a causa da gastrite, mas veja algumas recomendações comuns:

- No caso de a doença ser provocada por uso frequente de medicamentos, discutir a possibilidade de suspensão ou substituição;
- Não passar muito tempo em jejum;
- Fazer refeições pequenas de três em três horas (dieta fracionada);
- Não fumar e evitar a ingestão de álcool;
- Evitar café e chá preto em excesso, bebidas quentes demais, refrigerantes e carbonatados;
- Fazer as refeições sem pressa, mastigando bem os alimentos e, de preferência, com pouco líquido para acompanhar;
- Buscar terapias que ajudem no alívio do estresse, quando essa for a causa da dispepsia.

O que comer para gastrite

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Legumes e verduras cozidos
O mais importante para controlar a gastrite é ter uma alimentação equilibrada e saudável. No entanto, os alimentos cozidos são recomendados, pois facilitam a mastigação e a digestão, dando uma aliviada nas funções do estômago.

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Maçã
A fruta é conhecida por aliviar os desconfortos gástricos, por conta de seu efeito antiácido. Outra dica importante, para aliviar o desconforto gástrico, é sempre comer alguma coisa no intervalo das refeições. A maçã, portanto, é um ótimo snack para não deixar seu estômago vazio. Cereais e tubérculos como aveia, quinoa, arroz integral, batata, inhame também são muito bons.

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Sardinha
Os peixes, especialmente os de água fria, são uma ótima pedida, já que possuem ômega-3, que reduz a inflamação do estômago e, de acordo com alguns estudos, também impede o crescimento da bactéria H. pilory. O salmão também entra na categoria, mas opte pelos peixes selvagens e não os de cativeiro.

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Frutas vermelhas
Os flavonoides, compostos antioxidantes presentes em morango, amora, mirtilo e framboesa, por exemplo, são conhecidos pelo poder anti-inflamatório e cicatrizante.

Melhor evitar

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Café
A principal regra para quem tem gastrite é evitar o que sabe que faz mal, mas a cafeína tem um efeito direto na mucosa do estômago, provocando irritação. Se estiver de estômago vazio, passe longe da bebida.

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Refrigerante
As bebidas gaseificadas são ácidas e provocam a parede do estômago. Além disso, refrigerantes também levam dose de cafeína.

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Sucos ácidos
Os sucos de abacaxi ou de limão, por exemplo, são ácidos e podem provocar incômodos. Também não é aconselhável tomar líquidos de qualquer natureza durante as refeições. A lógica aqui é simples: o alimento precisa do ácido do estômago para ser digerido. E se jogamos líquido no estômago, este ácido fico mais diluído, o que tornará a digestão mais lenta.

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Molho de tomate
Por conta da acidez, também é recomendável comer com moderação.

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Embutidos
É melhor evitar salsicha, linguiça, mortadela e bacon, que apresentam quantidades altas de sódio, gordura e aditivos químicos e provocam inflamações no organismo, além de outras doenças, como hipertensão e até mesmo câncer.

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Álcool
A bebida tem efeito irritante sobre a mucosa gástrica, já que aumenta o tempo de esvaziamento gástrico. Ou seja, o alimento acaba ficando mais tempo no estômago. Quando o paciente tem crise aguda de gastrite, tem que cortar o álcool, para não provocar erosão e até sangramento do estômago. Como não existe um limite seguro, muitos especialistas recomendam a retirada completa das bebidas alcoólicas do cardápio.

E também:

- Refeições muito gordurosas, condimentadas ou industrializadas como pizzas, lasanhas, hambúrgueres etc.
- Frituras em geral
- Doces ricos em açúcar e chocolates
- Chicletes

Remédios caseiros para gastrite

Chás como o de hortelã, camomila e espinheira-santa, além de suco de couve, costumam ser indicados para aliviar os sintomas. Mas os médicos dizem que faltam evidências científicas para comprovar seus efeitos. "É necessário, por isso, cuidadoso monitoramento e atenção, porque a melhora dos sintomas não necessariamente significa melhora da doença", comenta o gastroenterologista Joaquim Prado. Terapias integrativas, como acupuntura e meditação, podem ser úteis para ajudar pacientes com dispepsia funcional.
Muita gente indica a chamada dieta e água alcalina (com pH mais alto) para gastrite, porém seus princípios também carecem de comprovação científica. De qualquer forma, qualquer dieta que priorize alimentos pouco processados, consumo abundante de vegetais e controle de açúcar e gordura acaba trazendo benefícios para quem sofre de gastrite.

Quais os riscos de uma gastrite não tratada

Quando não tratada, a gastrite crônica pode evoluir para atrofia da mucosa do estômago (gastrite atrófica), levando a carências nutricionais e risco aumentado de câncer de estômago, que está entre os dez mais comuns no Brasil. Os sintomas iniciais desse tipo de neoplasia podem ser parecidos com os da gastrite, porém, com o passar do tempo, pode haver emagrecimento importante, vômitos recorrentes e sangramentos.

Como prevenir a gastrite

Infelizmente, alguns indivíduos têm uma predisposição à doença que nem sempre pode ser neutralizada. Mas há medidas comportamentais importantes para evitar que a doença retorne após o tratamento. Medidas como higiene no preparo dos alimentos, tratamento adequado da água, limpeza de frutas e verduras e cozimento adequado ajudam a evitar o risco de infecção por H.pylori. Evitar o estresse, longos períodos em jejum e o abuso de alimentos e bebidas que irritam o estômago também são recomendações para quem é propenso à gastrite.

Fontes: Eduardo Berger (gastroenterologista/Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos); Jaime Zaladek Gil (gastroenterologista/Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein); Joaquim Prado, (gastroenterologista/Federação Brasileira de Gastroenterologia Samanta Brito (nutricionista); National Institutes of Health (Institutos Nacionais de Saúde, EUA)

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