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Cristiane Segatto

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Vidas perdidas por covid-19 importam. Isso não é ideologia; é raciocínio"

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Imagem: Divulgação
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

03/03/2021 04h00

A pandemia que virou o mundo de pernas pro ar também antecipou o futuro de muitas pessoas afetadas pelas sequelas da covid-19. Não estava nos planos de gente jovem e relativamente saudável viver com limitações físicas e cognitivas que esperamos enfrentar apenas na velhice. Ou, com sorte, planejamento e cuidados ao longo da vida, nem mesmo nela.

O rastro de dor, incapacidade e transtornos provocados pelo coronavírus não são um problema apenas para os infectados e suas famílias. Ele representa uma tremenda carga social com a qual os países terão que lidar por muito tempo.

"Pelo impacto que causam, as sequelas dessa doença nova precisam ser mapeadas no mundo inteiro. Precisamos saber agora e daqui a dez anos, como isso se colocou na sociedade, no mundo, na economia. Saúde e economia são interdependentes", diz a médica fisiatra Linamara Battistella, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Em entrevista à coluna, a ex-secretária estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência fala sobre o peso das sequelas e dos milhares de mortes evitáveis."Tenho vergonha de ver o Brasil perder tantas vidas. São pessoas que poderiam estar aqui. Banalizamos a tragédia e as mortes por covid-19 da mesma forma como vínhamos fazendo com a violência", afirma Linamara.

Estamos no pior momento da pandemia, mas muita gente parece não se abalar com essa informação. O que fazer?

Essa é a pandemia da desinformação e do desrespeito. As pessoas insistem em não querer ler, enxergar ou ouvir as informações que vêm da fonte adequada. Não dá para perguntar no supermercado se há chance de chover amanhã e esperar uma resposta confiável. Ou ir ao dentista para saber qual é a melhor forma de investir as economias. Até as pessoas com baixa instrução têm noção de onde devem ir para encontrar o que precisam. Na pandemia, parece que ninguém quer enxergar a realidade.

Por quê?

Não sei. Nunca vi tanto bater de cabeça. As pessoas não percebem que, se elas não cuidam do outro, elas também ficam em risco. Banalizamos a tragédia e a morte. Exatamente da forma como vínhamos fazendo com a violência. Há muito tempo olhamos para os números da violência como se eles não tivessem nada a ver com a gente.

De que forma?

Quem vê o número de mortes sem ter qualquer sentimento é porque já olhava a questão da violência, do descaso e do descuido como se fosse alguma coisa natural. Gente que acha que não vai ser atingida porque não conhece ninguém que tenha morrido assim. As pessoas pensam que é algo fora do universo delas. Isso não é verdade. Interagimos o tempo todo e somos afetados.

O que você sente ao ver o número de mortos crescendo a cada dia?

Tenho vergonha de ver o Brasil perder tantas vidas por covid-19. São mortes evitáveis. Pessoas que poderiam estar aqui. Meu sentimento é de solidariedade com as famílias que viram isso acontecer e não puderam sequer se despedir de seus mortos. Perdas prematuras impactam diretamente a economia. Esse é o indicador da Organização Mundial da Saúde (OMS) para avaliar o nível de competitividade. Assim como a doença prolongada e a condição crônica de saúde também têm impacto. Medimos tudo isso em um indicador chamado "dias vividos com incapacidade" ou "dias ajustados por incapacidade". Estamos perdendo competitividade.

Mortes prematuras comprometem o desenvolvimento do país?

Sempre que perdemos vidas ou incapacitamos pessoas estamos impactando diretamente no desenvolvimento do Brasil. Essas vidas importam. Quem é tão liberalista deveria estar preocupado com a economia, com o mercado. Para quem tem uma visão mais social e se preocupa com o bem-estar da população, essas vidas também importam. Isso não é ideologia; é raciocínio.

Qual será o impacto da pandemia na capacidade funcional, cognitiva e na autonomia de uma grande parcela dos brasileiros?

Faço parte de um painel de especialistas da OMS que vem discutindo isso. A covid-19 foi caracterizada como doença respiratória, mas é sistêmica. Agride o corpo de uma maneira universal. Até mesmo os pacientes assintomáticos (os que não tiveram problemas pulmonares) podem apresentar outras manifestações (no sistema nervoso, musculoesquelético etc). Às vezes, há tosse ou um super cansaço que aparece tardiamente. Ou seja: os assintomáticos e as pessoas que tiveram quadros muito leves da doença podem desenvolver alguma limitação. Esse é o primeiro ponto.

E o segundo?

Pacientes com comorbidades (diabetes, hipertensão etc) terão mais manifestações provocadas pela covid-19. Faço parte de um grupo do Hospital das Clínicas que avalia todos os pacientes com covid-19 que estiveram internados lá. Temos os dados de 600 pacientes e vamos continuar acompanhando essas pessoas. Cada um dos grupos de especialistas (reabilitação, psiquiatria etc) estuda o que está acontecendo com esses pacientes a partir de exames muito sofisticados e avaliação clínica multidisciplinar. Queremos entender qual será o impacto dessa doença.

O que vocês já sabem?

Posso garantir duas coisas. Primeiro: é uma doença crônica, com efeitos de longo prazo. Segundo: esses pacientes terão dificuldades para se recuperar sozinhos. No Hospital das Clínicas, tiramos os pacientes graves da fase aguda e os deixamos internados em uma área de transição e reabilitação. Com isso, eles tiveram um acompanhamento mais intensivo. Ao final de um ou dois meses, eles voltavam para casa. O que aconteceu? Os pacientes que não aceitaram fazer essa reabilitação ou disseram que iriam procurar um local perto de casa acabaram ficando muito comprometidos nos meses seguintes. Quem ficou por algumas semanas no hospital de reabilitação teve um resultado muito melhor.

É possível melhorar sozinho?

Isso não acontece com a maioria. Precisamos orientar essa recuperação. O Hospital das Clínicas tem chamado os pacientes. Alguns têm pouco interesse de responder a um questionário mais longo por telefone. Estão cansados ou não têm um acompanhante em casa que possa ajudar. Temos que identificar agora os pacientes que foram hospitalizados, avaliar como eles estão e saber quais são as demandas que podem ser sanadas na atenção básica, com centro de reabilitação ou até mesmo com o retorno a um hospital de alta complexidade. É bastante preocupante ver que, mesmo depois de seis meses, pacientes que estavam sendo estimulados pela família e tentando retornar à vida normal ainda apresentam bastante limitação funcional.

Que tipo de limitação?

Avaliamos três grandes domínios: a parte cognitiva, a parte física (controle motor) e a comunicação. São três áreas que funcionam juntas. Quando estimulo a parte motora também estou estimulando o cérebro. O músculo não funciona adequadamente se você não tiver um controle cerebral. Estimulamos pelo exercício, melhoramos o ângulo de movimentos e controlamos a dor. Esses pacientes têm uma dor muito forte, chamada de dor neuropática. Isso leva um estímulo positivo para o sistema nervoso central. O paciente pode ter alterações do olfato e do paladar. Podemos usar estímulos olfativos e gustatórios para melhorar também o estímulo cerebral. Temos que ver a pessoa globalmente. Identificamos as perdas e, onde elas ocorrem, trabalhamos com equipamentos muito sofisticados (como a terapia robótica). Não adianta trabalhar o músculo se o cérebro não estiver aprendendo o controle motor. Tudo deve ser feito dentro de um processo integrado.

Essas necessidades estão plenamente reconhecidas pela OMS?

A reabilitação do paciente pós-covid é tão importante que já tem um código CID (Classificação Internacional de Doenças). A covid foi a doença que mais rapidamente recebeu um código da OMS. Agora as sequelas dessa doença nova também já têm um CID. Pelo impacto que elas causam, temos que mapeá-las no mundo inteiro. Precisamos saber agora e daqui a dez anos, como isso se colocou na sociedade, no mundo, na economia. Saúde e economia não são excludentes. São interdependentes. Precisamos olhar para essas coisas. Nossa avaliação interdisciplinar tem indicado complicações mais intensas nos pacientes com comorbidades (hipertensão, diabetes etc). As complicações cognitivas são muito frequentes. Há pessoas que sequer foram internadas e apresentam falhas de memória, depressão, síndrome do stress, insônia. A alteração da qualidade do sono tem sido um dado muito importante.

O que o Brasil precisa fazer para reduzir o impacto das sequelas?

É preciso criar uma linha de cuidado que comece na atenção básica. Levar orientações e treinamento aos profissionais para que os casos mais simples possam ser atendidos. Os casos mais complexos precisarão ir para os centros de reabilitação. Temos que capacitar os profissionais onde os centros já existem e criar onde falta. A estrutura de um centro de reabilitação não é complexa. A reabilitação depende muito mais de recursos humanos do que de grandes investimentos em equipamento. O que temos hoje no Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas, que coordena a Rede de Reabilitação Lucy Montoro, não existe em nenhum outro lugar do Brasil e, provavelmente, em nenhum outro lugar da América Latina. Estamos fazendo treinamento com a prefeitura de Manaus e trabalhando com várias outras unidades. Estamos fazendo um grande esforço para construir o conhecimento e disseminá-lo em diferentes formatos para cada lugar. Não dá para imaginar que todo mundo terá uma Rede Lucy Montoro na porta, mas todos podem fazer um atendimento de qualidade.

Quem tem sofrido mais na pandemia?

As mulheres. Foram as que mais morreram e são as que mais têm dificuldades dentro de casa para orientar os filhos e dar suporte quando eles estão em educação à distância. Se ela compartilha o espaço dentro de casa com o marido trabalhando e o filho estudando e surge uma demanda, a chance dela ficar em terceiro lugar é muito grande. As mulheres ficaram muito sobrecarregadas na pandemia. Isso é fruto da nossa cultura. A mulher equilibra muitos pratos dentro de casa e no ambiente profissional. Além disso, aumentou o índice de violência doméstica contra as mulheres durante a pandemia. Um segundo grupo que sofreu muito foi o das crianças.

Entre os trabalhadores, os motoboys têm sofrido danos importantes?

Fizemos um trabalho enorme com os motoboys porque o número de meninos sem perna que atendemos desde o início da pandemia foi assustador. A quantidade de acidentes com amputação cresceu. Esses trabalhadores não têm proteção. A perna funciona como para-choque e para-lama. A sociedade tem culpa nisso. A gente diz "estou com pressa, vem logo". Ganhamos cinco minutos e o rapaz perde a perna.

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