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Taise Spolti

Você conhece a VLCKD? Dieta de baixíssimo valor calórico e cetogênica

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Taise Spolti

Taise Spolti é formada em educação física e, atualmente, estuda nutrição. Já foi fisiculturista profissional e hoje tem interesse em aliar sua rotina alimentar à gastronomia. Costuma dizer que não se satisfaz com pratos pequenos ou sabores comuns. Participou do programa ?Masterchef?, da Band, onde pode mostrar em rede nacional suas receitas.

Colunista do UOL

15/08/2021 04h00

A sigla VLCKD vem ganhando cada vez mais espaço entre médicos, nutricionistas e clínicos. É uma dieta que se baseia em um valor calórico muito baixo e cetogênica (tradução literal de Very Low Calories Ketogenic Diet).

Uma dieta cetogênica (Keto Diet - KD) é uma dieta com baixo percentual de carboidratos, aproximadamente 5%, alto teor de proteína e uma boa parcela de gorduras, que provém de alimentos nutricionalmente positivos, tais como oleaginosas, grãos, gorduras vegetais e animais. Já a dieta de baixíssimo valor calórico, conhecida já pela adesão de muitos famosos, a VLCD, é uma dieta que oferece, no máximo, 800 calorias por dia e conseguiria oferecer uma perda de peso alta em pouco tempo. Bom, parece estranho, mas as duas dietas agora estão unidas. E assim cria-se a VLCKD.

Aqui no Brasil ela ficou famosa após o cantor Luciano Camargo ter aderido, e alguns jornalistas da época (meados de 2012) terem chamado a dieta de 'Dieta da Nasa'. Adivinhem: tudo em pó (até possui a opção de não ser em pó, mas as preparações acabam se tornando inviáveis). Em pó, você escolhe o cardápio, que varia de pizza até brigadeiro, mistura com água e pronto. Até parece um sonho não é mesmo? Não é. E essa minha matéria é para alertá-lo a alguns dos principais pontos críticos dessas dietas extremamente restritivas.

Emoções

Uma boa parcela dos motivos que levam uma pessoa à obesidade e obesidade mórbida é a desregulação entre as emoções e o ato de comer. Transtornos alimentares estão finamente alinhados com emoções e sentimentos, o que pode ser apenas um momento de TPM com pouca duração e sem grandes estragos, para uma pessoa com transtorno de compulsão alimentar, que pode se tornar um problema que se soma e multiplica ao longo da vida.

Tratar o peso não se torna uma opção sustentável, pois o que levou ao excesso começa lá nas emoções, nos traumas, no social, no afetivo. Pode ter começado na infância, após um grande trauma durante a fase adulta, uma perda familiar. Os motivos são diversos, e todos envolvem emoções e sentimentos que levam ao comer compulsivo e comer emocional. Tratar o peso como unicamente peso e com restrições alimentares, como no caso da VLCKD, é programar o indivíduo para o ataque compulsivo, aumentando o desejo de consumo.

Adição

Você já deve ter ouvido falar em vício por comida, até já escrevi uma matéria sobre isso, após uma influenciadora digital mencionar em suas redes que seu TCA se deve ao fato de ser viciada em açúcar. Uma declaração que pode ter uma razão, porém sem a real verdade que permeia o que chamamos de adição.

A adição por comida é uma necessidade de consumo de determinados alimentos por parte de um indivíduo que provoca no sistema límbico uma associação artificial de prazer. Diferente do vicio, a procura se faz pela repetição e números de vezes, nem sempre pela quantidade. Somada ao transtorno compulsivo, faz com que o indivíduo não apenas procure por determinados alimentos, ou o que vier pela frente, e coma em grandes quantidades, podendo levar a um grande mal estar imediatamente após o episódio.

Um dos problemas da VLCKD é uma possível facilidade em incluir determinados tipos e grupos de alimentos a fim de 'enganar' o paladar daquele indivíduo, como no caso do brigadeiro ou da pizza. Se você leu esses dois tópicos aqui, já deve estar imaginando o quão problemático pode se tornar para uma pessoa com obesidade controlar suas emoções perante um episódio de compulsão e mesmo assim ingerir algo idêntico a um brigadeiro, com uma porção extremamente controlada.

Efetividade

O principio base da VLCKD é tratar a obesidade, preparar o paciente para uma possível cirurgia bariátrica e reverter o diabetes do tipo 2. Alguns estudos de meta-análise e revisões já identificaram que essa conduta realmente oferece grandes resultados e uma eficácia comprovada, mas preste atenção: ela é única e exclusivamente aplicada e estudada em pacientes com obesidade mórbida, pré-bariátricos e com indicação de reversão do diabetes. Não é para ser aplicada em pessoas comuns, com leve sobrepeso ou obesidade, que recorrem a dietas da moda a cada verão. Não é para a blogueira que quer entrar em um vestido de casamento. Não é uma dieta para ser prescrita para resultados instagramáveis, onde há a publicação de 'antes e depois' a fim de reverter tudo isso em fama e dinheiro para o profissional que aplicou.

Não deve ser realizada, em hipótese alguma, naqueles pacientes que desejam resultados rápidos para 'não ficar muito tempo sofrendo com dietas', e que logo após atingirem seus resultados desejados, retornam à vida normal, social e cultural, com péssimos hábitos —afinal, daqui a alguns meses este mesmo paciente poderá querer realizar novamente essa mesma dieta.

Essa conduta de vai e vem, de escolher a dedo qual a dieta quer realizar no momento, qual a dieta que está na moda, e que funcionou melhor para a famosa, é a maior vilã da efetividade de qualquer outra estratégia de controle de peso e comorbidades associadas para a sociedade. Essa é a conduta que vem levando a sociedade a realizar um grande números de dietas por ano e mesmo assim continuar crescendo em percentuais de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas não transmissíveis.

Disfunções enzimáticas

Quando não há uma patologia associada àquela determinada restrição, como uma doença celíaca com prescrição de dieta zero glúten, ou outras alergias e intolerâncias, e um paciente adere a uma dieta extremamente restritiva, como a alimentação em pó, sem mastigação, pode provocar a médio e longo prazo disfunções de produção enzimática, como queda na produção de amilase pela mastigação de carboidratos, pectinase e hemicelulose, pela diminuição de ingesta vegetal, e tantas outras.

Você com certeza conhece aquela pessoa que fez dieta cetogênica sem orientação, cortou tudo que era tipo de alimentos, e que hoje, mesmo com menor peso, precisa maneirar nos alimentos fora da dieta, pois passa mal, tem diarreias, constipação ou simplesmente não pode mais ingerir alimentos com glúten e derivados de leite. Isso é o resultado de uma dieta mal feita e mal orientada. Todas as estratégias de dietas são efetivas, todas promovem resultados, desde que para os indivíduos certos e com a orientação certa.

Mas a VLCKD funciona?

Segundo estudos de revisão e meta-análise publicados em diferentes bases de dados científicas e médicas, essa estratégia é segura quando planejada e acompanhada por um grupo de profissionais a um paciente com obesidade mórbida, para reversão do diabetes do tipo 2 e também para preparar o paciente para uma cirurgia bariátrica. No corpo clinico e profissionais que o acompanham, deve conter essencialmente nutricionista e psicólogo. Adivinhem: pelos mesmos motivos que mencionei na matéria: tratar compulsão, evitar reganho de peso, trabalhar as emoções e o desfecho de todo tratamento.

Observou-se que, comparado com outras dietas, para este determinado publico, a perda de peso é um ponto positivo, em valores médios de 20% do peso inicial serem eliminados em um tempo relativamente menor que outras estratégias. Além desses achados, valores de colesterol, triglicerídeos e resistência à insulina foram citados em melhoras.

Vocês já ouviram falar dessa dieta? Conhecem alguém que teve alguns dos sinais que mencionei em dietas restritivas?

Então me fala lá no meu Instagram para eu conhecer a história de vocês.