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Menina francesa de 8 anos luta para ter nova identidade trans reconhecida

Segundo a mãe, Lilie está há meses em depressão e insiste que "sua vida é tão ruim que preferia morrer" - Getty Images/iStockphoto
Segundo a mãe, Lilie está há meses em depressão e insiste que "sua vida é tão ruim que preferia morrer" Imagem: Getty Images/iStockphoto

18/09/2020 15h24

Lilie tem apenas 8 anos, mas desde muito cedo uma certeza: é uma menina, apesar de ter nascido em um corpo de menino. No início do ano, depois de múltiplas ameaças de suicídio, ela revelou ser transgênero aos pais e, desde então, a família luta para que a nova identidade da garota seja reconhecida oficialmente.

O depoimento da mãe de Lilie em rede nacional gerou comoção, no último domingo (13). À emissora TF1, Christelle revelou que o filho mais novo estava há meses em depressão e insistia que "sua vida era tão ruim que preferia morrer". Na hora de dormir, chegava a abraçar a mãe e dizer que não sabia se a veria no dia seguinte, já que poderia decidir se enforcar durante a madrugada.

"Uma noite, eu perguntei : se eu tivesse uma varinha mágica e pudesse mudar qualquer coisa na sua vida, o que você gostaria? Ele respondeu imediatamente: meus cabelos, meu nome e o meu pênis", contou Christelle, à emissora francesa. "Ela não disse que queria virar uma menina. Ela disse: 'eu sou uma menina, desde sempre'."

A família apoiou a decisão de Baptiste, que passou a ser chamado pelo nome que escolheu: Lilie. Dias depois, os pais levaram a questão à escola da garota, na cidade de Aubignan. A direção, porém, declarou que só poderia chamá-la de outra forma após a criança consultar um especialista. "O pedopsiquiatra não viu nenhum sinal de patalogia", assegurou Christelle, na entrevista.

O pedido foi encaminhado à direção regional de serviços de educação da região de Vaucluse (sul da França), onde vive a família, que decidiu que "em decorrência de ter sido solicitada diversas vezes e claramente pela criança, a utilização do nome escolhido será respeitada para que a sua escolaridade se desenrole mais serenamente".

"Ficamos um pouco surpresos pela sua idade. Um pedido de alguém tão jovem é algo inédito", afirmou o diretor acadêmico Christian Patoz, ao jornal Le Monde.

Cada caso é um caso

"Algumas crianças podem ter certeza muito cedo, e outras podem mudar de ideia. Não é uma questão simples", afirma o psiquiatra e psicanalista Hervé Hubert, autor de duas teses sobre a transexualidade. "Há um período de adaptação a ser levado em conta. Consideramos o sofrimento da criança e a maturidade da decisão, junto com os pais. Porém, na maioria das vezes, é uma evidência."

Os estudos indicam que, desde os 3 ou 4 anos de idade, uma pessoa trans já é capaz de se identificar. Na França, a transformação propriamente dita pode se iniciar com apoio psicológico e, nos casos mais nítidos, pode resultar em um tratamento de bloqueio hormonal. A cirurgia de mudança de sexo, entretanto, é proibida antes da maioridade.

Não é resultado de 'uma moda' dessa geração, como a gente ouve falar às vezes. A pessoa, seja a criança, o jovem adolescente ou o adulto, sente no seu interior o seu próprio gênero, que é contrário à sua anatomia. É um sentimento que se torna vital para ela e a recusa disso é como um ferimento que causa muito sofrimento.

Mudança oficial de nome

A modificação civil mantém um viés conservador: apenas maiores de 18 podem iniciar o processo, ou menores autorizados pela mãe e o pai, mediante uma avaliação psiquiátrica. É o caso de Lilie, que após adotar socialmente a nova identidade de gênero, agora espera conseguir documentos coerentes com a escolha. Um primeiro pedido já foi recusado, na última segunda-feira (14). A família, porém, promete insistir.

"O último avanço que tivemos nessa questão foi em 1996, quando deixou de ser obrigatório passar por uma cirurgia de mudança de sexo para poder solicitar a mudança do nome civil", explica a advogada Caroline Mecary, especialista em direito da família e de pessoas LGBT. "A modificação do nome antes da maioridade é uma das reivindicações das associações das pessoas trans."

A lenta evolução dos costumes e das leis em relação aos transgêneros se deve, em parte, à falta de consenso entre os próprios especialistas sobre o tema. Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), a transexualidade deixou de ser considerada uma doença mental apenas em maio de 2019.

A França foi o primeiro país do mundo a abolir, em 2010, a classificação de "transexualismo", termo que dava uma conotação patológica para a transidentidade. "Nos anos 1970 e 1980 ainda era frequente os psiquiatras avaliarem dessa forma, e essa sombra permaneceu até hoje. Mas as novas gerações de psiquiatras veem o assunto de outra maneira", diz Hubert.

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