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Após acusar Samuel Klein de estupro, jovem foi investigada por extorsão

Pedro Lopes, Camila Brandalise e Cristina Fibe

Do UOL e de Universa, em São Paulo, e colaboração para Universa, no Rio de Janeiro

23/06/2023 12h00

Juliana* tinha 16 anos em outubro de 2008 quando procurou o advogado Ricardo Moscovich para fazer uma denúncia. Sua história, com pequenas variações, era a mesma contada por dezenas de mulheres a dezenas de advogados e policiais havia três décadas. Ela narrava ter sido estuprada por Samuel Klein, fundador da Casa Bahia, durante uma visita a uma das casas do empresário, em Angra dos Reis. Nos meses que se seguiram a essa reunião, a menor chegou a ser presa, teve seus bens apreendidos e foi investigada por extorsão contra o bilionário.

Universa teve acesso ao inquérito, a documentos e depoimentos da época e conversou com pessoas envolvidas no caso. Há, no curso das investigações, a gravação de uma conversa telefônica entre Samuel e a menor, na qual relações sexuais são discutidas (leia a íntegra da conversa abaixo). O São Caetano, clube de futebol sensação nos anos 2000 e financiado pela familia Klein, foi envolvido - seu então presidente, Nairo Ferreira de Souza, participou de reuniões negociando acordos pelo silêncio da menor, ao lado de Saul Klein, filho de Samuel e também acusado de estupro e exploração sexual de mulheres.

Foi durante a negociação desses acordos que Juliana, seu advogado e uma segunda mulher que a apresentou a Samuel Klein foram presos por quase um mês e acusados de extorsão em janeiro de 2009. Eles tiveram celulares, documentos, computadores e cartões de banco apreendidos e periciados. Passaram a ser investigados em um inquérito que tratava Klein, oficialmente, como "vítima protegida". O procedimento, que em nenhum momento apura a acusação de estupro ou investiga Klein, só foi arquivado mais de um ano depois, em maio de 2010.

A reportagem procurou, por meio da Secretaria de Segurança Pública, ouvir a Polícia Civil de São Caetano, obter informações sobre o caso e questionar se Samuel Klein foi, em algum momento, investigado por essa denúncia de estupro. A secretaria informou que um inquérito teria sido relatado em dezembro de 2011 e encaminhado à Justiça.

O Tribunal de Justiça de São Paulo, entretanto, não confirmou o recebimento e não conseguiu localizar nenhum processo. Depois de trocas de mensagens com os dois órgãos, Universa conseguiu localizar o inquérito em questão, mas ele continha denúncias de outras vítimas, não relacionadas a Juliana. Em São Paulo, há apenas o registro da investigação de a menor por extorsão, e nenhum registro de que o empresário tenha sido investigado ou processado por estupro.

A reportagem também não localizou processo criminal na comarca de Angra dos Reis.

Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, foi acusado e denunciado por aliciamento e estupro por pelo menos duas dezenas de mulheres entre 2001 e 2012 - os casos foram revelados pela primeira vez pela Agência Pública em 2021 e confirmados por Universa. Saul Klein, seu filho, é investigado por estupro e outros crimes contra 14 mulheres; os detalhes da denúncia e relatos das vítimas são foco do documentário "Saul Klein e o Império do Abuso", lançado por Universa e MOV.DOC em março de 2022.


Advogado de Samuel Klein na época e, atualmente, do espólio do empresário, João da Costa Faria disse que desconhece os fatos descritos nesta reportagem. O advogado, entretanto, assina várias petições apresentadas à Justiça referentes ao caso. Os advogados Alberto Zacarias Toron e Luiza Oliver, que representam Saul Klein, enviaram uma nota à reportagem dizendo que Saul "desconhece completamente os fatos, os quais sequer dizem respeito à sua pessoa, mas sim ao seu pai, já falecido". "Diante disso, a defesa não tem como se manifestar sobre o assunto", afirmam.

Nairo Ferreira de Souza disse que foi procurado na época por um homem que se passava por empresário de jogadores e lhe entregou um CD contendo a denúncia e gravações. Ele diz ter repassado o CD a Saul Klein e intermediado algumas conversas, mas afirma que, na época, não tinha conhecimento de crimes sexuais nem de Saul, nem de Samuel.

A denúncia

Juliana* procurou advogado no final de 2008 para denunciar Samuel Klein por estupro. Seu relato era muito similar ao de várias outras garotas que acusaram o empresário do mesmo crime. Ela tinha 16 anos, e sua mãe realizava trabalho doméstico para uma mulher que recrutava meninas para eventos nas casas do fundador da Casas Bahia. Os nomes são preservados para evitar a identificação da vítima.

Em seu depoimento, ela conta ter sido levada à casa de Samuel em Angra dos Reis em outubro de 2008 e forçada a manter relações sexuais -na época, o empresário tinha 84 anos. Ao retornar, procurou, junto com sua mãe, o advogado Ricardo Moscovich. A ideia era formalizar uma denúncia. Dentre as provas estavam gravações de conversas telefônicas com Samuel e uma assistente falando sobre o ocorrido.

O advogado de Juliana e representantes de Samuel passaram a negociar um acordo para que o caso não virasse uma ação criminal. Foram várias reuniões, realizadas em uma pizzaria no ABC e no escritório de advocacia de Moscovich. Na última delas, em janeiro de 2009, a Polícia Civil, motivada por uma denúncia do advogado de Samuel, realizou uma operação.

Moscovich e os advogados de Klein finalizaram uma rodada de negociação -segundo o representante de Juliana, o local era um restaurante em São Caetano. Ao entrar no carro, entretanto, o advogado foi surpreendido com viaturas da polícia, e preso em flagrante sob a acusação de extorsão.

"Me procuraram para negociar, já tinha havido acordo. Fomos na casa do advogado [de Klein], ele disse 'vamos a um restaurante'. Assinei recibo e tudo, quando estava saindo teve aquele teatro", diz o advogado de Juliana. "Foi normal. Passei a oferta para a menina, ela quis fazer. Eles fazem acordo, quando você aceita eles te perseguem por extorsão", completa.

Simultaneamente, um carro policial foi despachado para São Paulo, prendendo a menor e uma mulher acusada de apresentá-la a Samuel Klein.

"Chamei a imprensa na época, tentei levar a história a vários veículos, ninguém me deu ouvidos. A Casas Bahia gastava bilhões por ano em propaganda. Teve um jornalista só, uma vez, que me ligou para saber mais detalhes, mas não deu sequência", afirma Moscovich.

As prisões foram revogadas em fevereiro de 2009, mas o inquérito por extorsão seguiu até maio de 2010, quando o Ministério Público de São Paulo determinou o arquivamento. A reportagem teve acesso ao documento, assinado pela promotora Adriana Vallada. Ela argumenta que as gravações apresentadas não representavam prova irrefutável de um crime, e por isso não seriam suficientes para obrigar Samuel Klein a realizar pagamentos. Isso descaracterizaria o crime de extorsão.

O pedido de arquivamento também questiona a acusação de estupro, citando a demora em realizar a denúncia e o fato da menor portar um documento falso. "Parece bem claro que ela aproximou -se de Samuel Klein com um propósito bem definido. É dos autos, inclusive, que a menor apresentava-se como se maior de idade fosse".

Presidente do São Caetano tomou a frente das negociações

Moscovich disse nos depoimentos à época - e confirmou em conversa com a reportagem - que a pessoa que representava Klein nas conversas era Nairo Ferreira de Souza, então presidente do São Caetano. Apresentando-se como "sócio do filho" de Samuel, Nairo tomou a frente das conversas. Segundo o advogado, a proposta era de um acordo indenizatório de R$ 200 mil a ser pago à vítima.

"Foram 30 dias indo no meu escritório, chegavam de manhã, saíam a tarde. Todo dia o Nairo ia lá, tentou falar comigo cinco vezes", diz Moscovich.

Nairo nega veementemente a versão. Em contato com a reportagem, o ex-presidente do São Caetano disse que ele é quem foi procurado primeiro.

"Existia no clube um departamento que recebia vídeos com lances de potenciais jogadores. Deixaram lá um CD, com orientações para que fosse entregue aos Klein. Eu repassei. Ali estava uma gravação e outras coisas, era a acusação", diz Nairo.

Em depoimentos prestados à Polícia Civil em 2009, o então mandatário do São Caetano admitiu ter intermediado conversas. Na época, ele e os advogados de Klein afirmaram que Moscovich teria pedido R$ 25 milhões. O advogado nega.

Apesar das divergências quanto ao início do contato e valores, ambos confirmaram à polícia os encontros. Um deles aconteceu no escritório de Saul Klein, filho de Samuel e que também viria a ser acusado de estupro mais de dez anos depois. Na ocasião, Nairo contou à polícia que ele e Saul tiveram acesso ao material apresentado pelo advogado da menor, incluindo as gravações. Elas causaram preocupação pelos potenciais danos à reputação da família.

O São Caetano foi uma potência no futebol brasileiro durante a década: chegou ao vice-campeonato da Libertadores em 2002 e foi, em duas ocasiões, vice brasileiro. Saul Klein, filho de Samuel, foi o financiador dos períodos áureos - segundo suas próprias contas, injetou mais de R$ 80 milhões na montagem de vários times desde o começo dos anos 2000. O rompimento definitivo aconteceu em novembro de 2020, com o empresário acusando a diretoria do clube de má gestão.

As gravações

Uma das principais provas que acompanha o processo é um CD contendo gravações de conversas telefônicas mantidas entre a menor, Samuel Klein e uma de suas secretárias. Universa teve acesso ao laudo pericial da polícia que transcreve as gravações e pediu às autoridades acesso ao material, mas não teve resposta até a publicação da reportagem.

Em uma das ligações entre Samuel e Juliana, o empresário tenta tranquilizar a garota e promete ajuda financeira.

J -Não é a o caso, sou eu, é diferente, (..)você lembra que você tirou a minha não lembra?
SK - Não, agora acontece que não amarrei você pra se entregar, você veio espontânea. Então acho quem vem espontânea não é nada, vamos esperar, vamos conversar"

Em outra passagem, o empresário diz que irá pedir que uma secretária entre em contato.

"Agora, isso não é nada, você é jovem, você tem direito de viver, de namorar com quem você achar melhor, estudar, fazer academia, tudo. Eu vou falar com a Lúcia (secretária) e ela liga pra você. Ela não está aqui agora, ela liga pra você e fala com você, eu vou falar com ela que você ligou, tá bom, então falou, não me queira mal que eu não quero mal você não, e que eu vou poder ajudar, ta bom?".

A segunda ligação periciada é entre a menor e a secretária em questão. Nela, a idade da garota é assunto.

J - Eu sei, Lúcia, mas o que eu vou fazer agora, ele me dá cinco mil e quer que eu volte pra Porto Alegre, largue tudo que eu fiz aqui, ' o contrato do colégio, como eu vou fazer isso?
S - Em que ano você está no colégio?
J - Segundo ano.
S - Segundo ano de quê?
J - Do ensino médio.
S - E quantos anos você tem?
J - Dezesseis.
S - Quê?!
J - Dezesseis.
S - Dezesseis anos?! E que ano você nasceu?
J - Noventa e dois.
L - E por que a (aliciadora) trouxe você de menor?
J - Porque o Samuel quis que eu fosse".

No contexto do inquérito ao qual a reportagem teve acesso, as gravações são utilizadas na investigação de potencial extorsão cometida contra o empresário, e não do crime de estupro. A defesa de Klein alega que as peças são editadas e retiradas de contexto.

Denunciantes viram investigadas

O caso de Juliana não é o único no qual uma mulher que acusa Samuel Klein de estupro e exploração sexual acaba investigada por extorsão. Em agosto de 2001, foi aberto um inquérito policial em São Caetano do Sul, a pedido do próprio empresário, contra 14 mulheres denunciantes e a advogada que as representava.

O caso era similar aos que se tornaram públicos nos últimos anos. As mulheres, menores de idade, afirmavam que foram atraídas para uma residência do empresário, desta vez na Baixada Santista, sob a promessa de presentes e dinheiro, e violentadas. Quando começaram a negociar o pagamento de acordos de indenização, foram denunciadas por Klein por extorsão.

O procedimento foi arquivado em dezembro, por falta de provas. As mulheres viviam, na época, em regiões periféricas em São Vicente.

As denúncias acumuladas nas últimas duas décadas contra Samuel e Saul apontam para a existência de um esquema que envolvia dezenas de pessoas para recrutamento e exploração sexual de mulheres, entre 1989 e 2017.

Samuel Klein nunca respondeu criminalmente por estupro. Na esfera civil, Universa compilou casos de doze mulheres que, entre 2001 e 2012, procuraram a Justiça contra o fundador da Casas Bahia em busca de reparação por crimes sexuais - a maioria dos casos prescreveu após a morte do empresário em 2014. O inquérito que investiga Saul Klein tramita em segredo de Justiça, na Delegacia da Mulher de Barueri.