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Direitos da mulher

'Sociedade machista culpa mulher': colunistas comentam caso Klara Castanho

Klara Castanho, atriz de 21 anos - Reprodução/Instagram
Klara Castanho, atriz de 21 anos Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

26/06/2022 12h39

Neste sábado (25), a atriz Klara Castanho, de 21 anos, revelou em carta aberta divulgada em sua conta no Instagram que foi vítima de um estupro. Ela descobriu que estava grávida já no fim da gestação e decidiu entregar a criança para a adoção, de forma legal e responsável.

O caso veio à tona neste sábado (25) quando o colunista Leo Dias, do "Metrópoles", e a apresentadora Antonia Fontenelle revelaram que "uma atriz global de 21 anos teria engravidado e dado a criança para adoção".

Os dois proferiram uma série de críticas a Klara: Dias chegou a dizer que a atriz teria um "carma grande" por entregar a criança, e Fontenelle afirmou que ela teria cometido "abandono de incapaz" —o que não procede, porque a entrega voluntária para adoção é um dispositivo legal, previsto na Lei 13.509 de 2017, a chamada "Lei da Adoção", que dá as diretrizes para amparo de gestantes ou mães que queiram entregar crianças para adoção formal e legalizada.

A sociedade machista em que vivemos culpa a mulher sempre: se ela é estuprada, se engravida, se aborta, se doa o bebê - fala a colunista de Universa, Mariana Kotscho, ao comentar os ataques a Klara Castanho e também o caso da menina de 11 anos que teve um aborto legal negado, em Santa Catarina, no início desta semana.

Ana Canosa, terapeuta e também colunista de Universa, chama a atenção para o fato de os ataques virem de uma mulher.

A violência da mulher contra a mulher é estimulada e só serve para enfraquecer os direitos que nos são roubados a todo momento e fortalecer as ideias patriarcais sobre a posse de nossos corpos. Acordem!

Na carta que publicou, Klara conta que, ainda anestesiada do pós-parto, uma enfermeira chegou a dizer para ela: "Imagina se tal colunista descobre essa história". "Eu estava dentro de um hospital, um lugar que era para supostamente me acolher e me proteger", escreveu.

"Eu ainda estava tentando juntar os cacos quando tive que lidar com a informação de ter um bebê. Um bebê fruto de uma violência que me destruiu como mulher. Eu não tinha (e não tenho) condições emocionais de dar para essa criança o amor, o cuidado e tudo o que ela merece ter", explicou Klara nas redes sociais. "Entre o momento que eu soube da gravidez e o parto se passaram poucos dias. Era demais para processar, para aceitar e tomei a atitude que eu considero mais digna e humana", completou.

Leia repercussão das colunistas de Universa sobre o caso:

"Tentativa desesperada de controle do corpo da mulher"

"A tentativa de coibição do aborto de uma criança de 11 anos e a notícia da entrega de um bebê para a adoção como 'abandono de menor', na mesma semana em que é derrubada nos Estados Unidos a decisão que garante o direito ao aborto, são várias facetas da mesma questão: a tentativa desesperada de controle do corpo da mulher, e o julgamento impiedoso caso ela decida qualquer coisa diferente de estar em casa, restrita ao papel biológico de mãe."

Natalia Timerman, psiquiatra, escritora, mestra em Psicologia e doutoranda em Literatura

"Violência da mulher contra a mulher só enfraquece direitos"

"Enquanto as mulheres continuarem acreditando que são os atributos físicos e psicológicos que envolvem a beleza estética, o amor e a maternidade os únicos definidores da identidade feminina, continuarão a fazer julgamentos ferozes sobre o comportamento daquelas que os questionam. Serão eternamente as mulheres que se estapeiam nos bailes, competindo pelo lugar das 'desejadas' a serem escolhidas e garantir o lugar da mulher adequada.

A violência da mulher contra a mulher é estimulada e só serve para enfraquecer os direitos que nos são roubados a todo momento e fortalecer as ideias patriarcais sobre a posse de nossos corpos. Acordem. Quando uma mulher aponta o dedo para a outra, massacrando publicamente a sua atitude, está querendo se afirmar, dizendo 'eu não sou assim'. Mas o que você é, que não mais uma a manter-se encarcerada no padrão que construíram para você?

Cada pessoa tem o direito de ter valores próprios sobre maternidade, portanto não cabe a ninguém fazer julgamento público, como se estivéssemos na santa inquisição. Enquanto enfermeiras, juízas, jornalistas, fofoqueiras de plantão, 'influenciadoras' ou qualquer outra profissional reagir a partir dessa lógica, quando deveria pautar-se pela ética profissional, estará sendo violenta, o que é uma contradição para quem jura de pés juntos que faz isso a favor da 'vida'."

Ana Canosa, terapeuta e educadora sexual

"É inaceitável que as mulheres façam suas próprias escolhas"

"Uma criança de 11 anos engravidou de um estupro e foi condenada por grande parte da sociedade que desejava que ela mantivesse a gestação até a entrega do bebê para a adoção. Klara Castanho passou pela mesma dolorosa e violenta situação, uma gravidez após estupro e está sendo condenada por ter entregue a criança para a adoção.

Não importa qual será a nossa escolha, num grupo social misógino é inaceitável que as mulheres façam suas próprias escolhas. O domínio sobre o corpo feminino representa um câncer social que mata e tritura a nós mulheres. O julgamento sobre nossas ações inicia em quem deveria executar sua profissão sem deixar que seus valores morais interfiram na vida do outro. Nos dois casos estamos falando de agentes públicos da justiça e profissionais de saúde.

É inaceitável que Klara tenha sido abordada por jornalistas ainda sedada após o parto, que tenha recebido ameaça da enfermeira e ouvido agressões verbais do médico."

Cris Guterres, podcaster e apresentadora da TV Cultura

"Sociedade machista ainda culpa e julga a mulher"

"A sociedade machista em que vivemos culpa e julga a mulher sempre: se ela é estuprada, se engravida, se aborta, se doa o bebê, se adota. Além de tudo, revitimiza a mulher várias vezes quando ela deveria ser cuidada —revitimizar é fazer com que a pessoa continue sofrendo e sendo atacada várias vezes revivendo o trauma.

Klara Castanho merece respeito, acolhimento e empatia.

Quem se indigna com o estupro? Com o criminoso? Vamos colocar a culpa na pessoa certa, no homem que a estuprou e nos agressores seguintes: o médico, a enfermeira, os fofoqueiros, os julgadores. Que Klara possa se recuperar de tudo isso e seguir em frente."

Mariana Kotscho, jornalista, repórter do site Papo de Mãe e consultora do Instituto Maria da Penha

"Única figura feminina válida é a da mãe"

"As notícias da última semana —do caso da menina estuprada que teve uma juíza tentando convencê-la a não abortar, a restrição ao direito ao aborto nos Estados Unidos até a exposição das violências sofridas por Klara Castanho-- mostram como o mundo em que vivemos detesta as mulheres. A todo momento são feitos movimentos para nos julgar, culpar e controlar nossos corpos.

Na nossa sociedade patriarcal e conservadora a única figura feminina válida é a da "mãe" —altruísta, casta como Maria, abnegada... E qualquer mulher que não caiba nesse estereótipo é punida. Triste, doloroso e cruel."

Bárbara dos Anjos Lima, editora de Universa

"Se você é mulher, a sociedade vai te torturar"

"Klara, que foi vítima desse crime bárbaro que é o estupro, sofre agora esse novo assédio. Sua intimidade é de novo invadida e sua vida devastada. Essa é mais uma prova de que a sociedade, ao invés de acolher, pune as mulheres vítimas de estupro.

Klara, como a menina de 11 anos [que teve o direito ao aborto legal negado em Santa Catarina], é punida por ter sido vítima de um crime. Se você é mulher, a sociedade vai te torturar quando você mais precisa de acolhimento."

Nina Lemos, jornalista

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