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Suspense escrito por mulheres domina mercado: 'Não somos mais ignoradas'

Sarah Pearse escreveu seu primeiro livro já dentro do gênero thriller - Reprodução/Instagram
Sarah Pearse escreveu seu primeiro livro já dentro do gênero thriller Imagem: Reprodução/Instagram

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

05/06/2022 04h00

Após o boom dos romances eróticos com o fenômeno "Cinquenta Tons de Cinza", publicado no Brasil pela editora Intrínseca, chegou a vez dos thrillers dominarem as prateleiras das livrarias e as listas dos mais lidos no mundo. Na primeira semana de junho, entre os cinco livros de ficção mais vendidos segundo o jornal americano "The New York Times", dois eram do gênero, ambos assinados pela americana Colleen Hoover: "Verity" e "É Assim que Acaba" —os dois da editora Galera Record.

Além de Hoover, outros nomes femininos estão fazendo sucesso, mostrando que o mercado vem se abrindo cada vez mais para as mulheres. Universa conversou com quatro das autoras mais famosas do mundo na área —a reportagem pediu indicações das mais vendidas às editoras, que responderam apenas com nomes de fora do Brasil. Elas contam por que resolveram se dedicar a histórias de suspense —algo que, há dez anos, era raro, já que mulheres ficavam restritas a romances— e comemoram o sucesso feminino na área.

"Homens estão usando pseudônimos de mulheres para entrar no mercado"

Seraphina Nova Glass, autora de "Você não está sozinha" (Editora Record) - Bryan Chatlien - Bryan Chatlien
Seraphina Nova Glass, autora de "Você Não Está Sozinha" (ed. Record)
Imagem: Bryan Chatlien

A autora americana Seraphina Nova Glass sempre gostou de assistir a filmes de suspense, mas só leu o primeiro livro do gênero em 2019. Foi o suficiente para se apaixonar. "Assim que terminei disse a mim mesma que era aquilo que queria: escrever thrillers", conta em entrevista à Universa. Ela começou a escrever seu primeiro livro em outubro do mesmo ano, em dezembro estava pronto e em janeiro já tinha assinado um contrato. Foi sucesso nas primeiras palavras. Entre as suas autoras preferidas de mistério estão Lisa Jewell, Paula Hawkins e Ruth Ware.

Seraphina acredita que suas histórias se diferenciam das outras mulheres que escrevem para o mesmo gênero pelo toque de humor que ela acrescenta às tramas tensas. "Escrever comédias sombrias provavelmente influenciou meu estilo", diz.

Apesar de ser nova nesse mercado literário, ela percebe uma explosão de mulheres no gênero na última década.

"Recentemente, li um artigo que dizia que homens estão usando pseudônimos de mulheres para conseguir entrar nesse mercado com mais força. Acredito que isso aconteça porque as leitoras mulheres dominam o mercado da ficção" - Seraphina Nova Glass, escritora

"Leitor encontra respostas em um thriller, isso é reconfortante"

Lisa Jewell, autora de ?A Família Perfeita? (Intrínseca) - Andrew Whitton - Andrew Whitton
Lisa Jewell, autora de "A Família Perfeita" (ed. Intrínseca)
Imagem: Andrew Whitton

A autora britânica Lisa Jewell já escreveu 19 livros e viu suas obras serem traduzidas para mais de 25 idiomas. Apesar da vontade de escrever thrillers, ela levou tempo para encontrar o momento certo para investir no gênero. "Antes de escrever meu primeiro livro. já tinha vontade de criar histórias de suspense, mas demorou para que eu encontrasse o momento de ser um pouco mais sombria em minhas histórias. Foi apenas no meu 12º livro que me senti pronta para matar um personagem", conta Lisa em entrevista à Universa. Agora, ela já vê nas histórias de mistério sua zona de conforto.

Para criar, Lisa diz se inspirar especialmente na cultura pop: podcasts, filmes e séries. "Me inspiro em qualquer coisa que prenda minha atenção, me distraia, desperte meus sentimentos, me inspire e me faça sonhar", diz.

Enquanto muitas pessoas podem ver esse gênero como algo mais aterrorizante e aflitivo, para Lisa, thrillers na verdade podem trazer conforto além do entretenimento. Isso porque, ao contrário do mundo real, há uma solução para as tramas. "Tem sempre algum adulto para ajudar a resolver os mistérios, achar as pessoas ruins e parar os problemas. O leitor encontra todas as respostas e acho que pode ser reconfortante", conta Lisa.

Sobre a grande presença das mulheres lendo e produzindo os thrillers, para a britânica isso é algo que anda lado a lado. "Diria que 90% das minhas leitoras são mulheres. Quanto mais livros de mulheres são publicados, mais elas leem. Por consequência, o mercado cresce", conta.

Diferentemente de autores homens, ela acredita que mulheres focam mais em aspectos com impacto emocional das vítimas em vez de colocar sua atenção apenas no crime em si.

"Mercado me parece bem mais receptivo para nós"

Alyssa Cole, autora de ?Ninguém Está Olhando? (Intrínseca) - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Alyssa Cole, autora de "Ninguém Está Olhando" (ed. Intrínseca)
Imagem: Acervo pessoal

A autora americana é best-seller dos jornais "New York Times" e "USA Today". Ela começou a carreira como escritora de romance —gênero para o qual ela ainda se dedica—, mas dando a eles um toque de mistério e suspense. "Escrever thrillers me permitiu aproveitar as partes divertidas do gênero, como criar tensão, deixar pistas e tentar manter os leitores na expectativa", conta, em conversa com Universa.

Apaixonada por histórias de ficção, principalmente por romances, para Alyssa, que é uma mulher negra, thrillers a permitem falar sobre assuntos difíceis, como racismo e gentrificação, dentro de conteúdos que geram entretenimento. "Com isso, as pessoas podem aprender e pensar sobre os temas, mas também têm uma história cheia de suspense e emocionante em vez de um artigo de jornal ou livro de história", diz. A leitura em forma de diversão, para ela, é também um aprendizado.

Apesar de vivermos uma sensação de grande crescimento de mulheres no universo dos thrillers, Alyssa acredita que têm nomes específicos que abriram as portas na literatura moderna: Gillian Flynn e Paula Hawkins. "O mercado me pareceu bem mais receptivo depois delas", afirma.

"Quando você olha para o passado, encontra dentro do gênero Agatha Christie, que é uma rainha. Acredito que essa mudança vem no sentido das mulheres que escrevem suspenses não estarem mais sendo ignoradas pelo mercado, que percebeu que há várias de nós no gênero" - Alyssa Cole, escritora.

"Thriller prendem a atenção como nenhum outro gênero"

Sarah Pearse, autora de ?O Sanatório? (Intrínseca) - Rosie Parsons photography - Rosie Parsons photography
Sarah Pearse, autora de "O Sanatório" (ed. Intrínseca)
Imagem: Rosie Parsons photography

"Acho que a natureza escapista de um thriller é extremamente atraente, pois nos transporta para outro mundo, o que significa que, por algumas horas, o leitor pode deixar para trás suas preocupações e inquietações", diz a autora americana Sarah Pearse, em entrevista à Universa.

Sarah conta que começou a escrever livros do gênero por amar o fato de bons thrillers absorverem os leitores. Ela acredita que o crescimento do interesse pelas obras do gênero se tornou uma forma de escapismo para o público, principalmente em tempos de covid.

"Como escritores, estamos lutando para conquistar o tempo de uma pessoa, e ler não é a única opção daquele momento. Um thriller tem o poder de prender a atenção de um jeito que nenhum outro gênero faz", diz. Para ela, há, sem dúvida, um crescimento de demanda para essas produções.

Segundo Sarah, no entanto, os leitores não se importam com o gênero de quem escreveu o livro mas, sim, se a história é bem contada. "O mercado está refletindo como os tempos mudaram. Acho que tanto o público feminino quanto o masculino está mais receptivos à leitura de thrillers escritos por mulheres", diz.