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Educadora lança livro infantil sobre raça: 'Mostrar força da cultura preta'

Mercia Magalhães, professora da rede municipal de Diadema (SP), lança ?Kaya, uma história de representatividade?, livro infantil focado em ensinar para as crianças a força da cultura preta - Divulgação
Mercia Magalhães, professora da rede municipal de Diadema (SP), lança ?Kaya, uma história de representatividade?, livro infantil focado em ensinar para as crianças a força da cultura preta Imagem: Divulgação

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

13/05/2022 04h00

No dia em que completamos 133 anos da abolição da escravatura no Brasil, Mércia Magalhães, uma professora da rede municipal de Diadema (SP), lança "Kaya, uma história de representatividade" (A Arte da Palavra), livro infantil focado em ensinar para as crianças a força da cultura preta, muitas vezes esquecida e marginalizada na educação.

"O livro retrata um pouco da minha prática em sala de aula. Falo sobre a temática antirracista desde 2007, quando o assunto não tinha a ênfase dos dias de hoje", diz Mércia, em entrevista a Universa.

Ela afirma que foi para a sala de aula, após se formar em pedagogia, com o desejo fazer valer a Lei 10.639 de 2003, que torna obrigatório o ensino da "história e cultura afro-brasileira" nas salas de aula mas não achava muito material.

?O livro retrata um pouco da minha prática em sala de aula. Falo sobre a temática antirracista desde 2007, quando o assunto não tinha o enfase dos dias de hoje?, diz Mércia Magalhães - Divulgação - Divulgação
'O livro retrata um pouco da minha prática em sala de aula. Falo sobre a temática antirracista desde 2007, quando o assunto não tinha o enfase dos dias de hoje', diz Mércia Magalhães
Imagem: Divulgação

O livro surgiu quando um dos filhos de Mércia pediu para que a história de dormir fosse algo inventada por ela, não vinda de livros. "Já sai do quarto com uma inquietação de escrever essa história. Eu vi nela da identidade e a representatividade do povo negro, de crianças e famílias que não se veem pertencentes", conta.

Representatividade nas páginas

Na trama, Kaya não vê sua ancestralidade representada em nenhum lugar, o que faz com que ela esqueça a beleza que sua cultura tem. Algo muito comum para os alunos de pele preta que não tem, na escola, a educação sobre suas origens africanas e as religiões que nasceram no continente.

Segundo a autora, o livro segue a linha do "ubuntu", termo da filosofia africana, que significa solidariedade, humanidade e a essência do ser humano.

'Crianças pretas se desenham com pele branca'

A professora entendeu a necessidade de ter histórias assim, mas nunca ouviu de seus alunos a reclamação de não se verem nas histórias.

"Crianças e famílias não percebem. E até alguns anos, nós também não víamos isso. Algumas crianças negras quando vão se desenhar, fazem suas peles de cor branca. E isso é muito triste, pois elas não se vêm representadas"

Ela busca com a criação dessa história manter a lei na prática dentro das escolas.

"A Kaya traz em si uma representação dos meus alunos, de todas as crianças pretas, negras de pele clara, e independente da raça, cor e credo que precisam de inclusão. Na escola, a inclusão tem que ser para todos, ninguém fica de fora", diz Mércia.

Lançamento no Dia da Abolição da Escravatura

Sem nem se dar conta do marco histórico, Mércia cismou que queria que o livro fosse lançado dia 13 de maio. Foi uma amiga que a lembrou da importância da data na luta da população negra.

"Temos que refletir sobre os reais motivos da questão da abolição, sobretudo como isso reverberou na história dos negros no Brasil. Pois o racismo estrutural se mantém até hoje", diz. Para ela, falar sobre a cultura negra nessa data é mostrar que o povo preto ainda busca um lugar.

"Traz uma representação de que estamos buscando nosso lugar e nos sentindo representados. Sofremos com o apagamento histórico. É um grito de liberdade para dizer que estamos aqui e vamos ficar"