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'Ninguém tem direito de tocar a mão em mim', diz frentista alvo de assédio

Franceli Stefani

Colaboração para Universa, de Porto Alegre

18/05/2022 19h08

Uma frentista de um posto de combustíveis em Porto Alegre prestou queixa por importunação sexual na última terça-feira (17). Ela afirma ter sido vítima da agressão na manhã de domingo (15) dentro da loja de conveniência do posto onde trabalha no bairro Lomba do Pinheiro, na capital gaúcha.

Imagens de uma câmera de monitoramento mostram o momento em que um homem passa a mão em seu corpo — segundo a frentista, na região da virilha. Imediatamente, a vítima reage com tapas e socos.

A ocorrência foi registrada na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) na noite de terça-feira (17). O autor, um homem de 25 anos, foi identificado e deverá ser ouvido nos próximos dias.

A reportagem de Universa conversou com a frentista, que afirma estar abalada pela situação e pela repercussão que a divulgação do vídeo tomou. Ela pediu para não ter seu nome divulgado por medo de represália.

Segundo ela, o acusado é conhecido dos colaboradores do posto. "Ele costumava comprar e distribuir balas para nós. Todos os dias aparecia, entregava o doce para mim e, depois, para meus colegas. Eu não tinha nenhum tipo de relação com ele, apenas sabia seu nome", detalha.

Frentista em loja de conveniência de Porto Alegre - Reprodução  - Reprodução
Imagem: Reprodução

No dia da agressão, a profissional conta que estava no horário de intervalo e mexia no celular. "Ele viu que eu estava na loja. Foi até o caixa, comprou chicletes, colocou ao meu lado, se posicionou atrás de mim e me perguntou se eu poderia passar o meu contato na rede social. Nem respondi, não dei importância para o que ele falava".

Foi quando a situação saiu do controle. "Foi muito rápido, nem deu tempo de reagir. Ele colocou as mãos em minhas partes íntimas. Não foi na coxa ou no meu bolso, como comentaram, foi na virilha. Eu fiquei muito nervosa. Nunca tinha sofrido nada parecido", afirmou.

Foi quando a frentista partiu para cima do investigado, com tapas e socos, até que ele saísse do estabelecimento. "Nós, mulheres, estamos cansadas de tantos casos de violência, assédio e importunação. A maioria de nós tem medo, receio do que pode ocorrer depois. A raiva foi tanta que eu parti para cima dele, não acho que fiz certo, mas só quis revidar, mostrar que ele não pode fazer o que quiser."

Ela afirma desconhecer outros casos semelhantes cometidos pelo homem.

Ninguém tem o direito de encostar a mão em mim. Não recomendo que as pessoas tenham a mesma atitude que eu tive, mas as mulheres precisam denunciar qualquer tipo de violência. E se ele tivesse feito com uma criança?

Pedido de medida protetiva

Responsável por conduzir a investigação, a titular da 1ª Deam de Porto Alegre, delegada Cristiane Pires Ramos, conta que a vítima pediu medida protetiva, que até o momento não foi deferida pelo Judiciário. "Não é comum uma mulher reagir a esse tipo de abordagem, que ocorre com mais frequência em transporte público. Ela foi corajosa, nos deu detalhes de tudo o que aconteceu", frisa.

A delegada lembra que é fundamental denunciar agressores. "Sentimos a vítima muito abalada, tanto que não conseguiu voltar ao trabalho desde o acontecido."

A polícia vai em busca das imagens oficiais do ocorrido junto ao posto de combustíveis, além de ouvir testemunhas e o acusado do crime. Ele não tem antecedentes criminais. A pena, caso condenado, pode chegar a cinco anos de prisão.

Alvo de críticas

Afastada do emprego por orientação médica desde o ocorrido, a frentista enfrenta críticas de pessoas próximas, que dizem que ela não deveria ter tomado a atitude que tomou. "Eu estou três dias de atestado, me abalei muito. Fui procurar um profissional porque repercutiu muito. Estou com receio, é posto, tem movimento intenso, não estou preparada para isso. As pessoas me criticam, dizem que eu conhecia e aceitava bala dele, que eu errei em denunciá-lo porque ele tem problemas", diz.

No entanto, a frentista afirma que, se há alguma patologia, ela deve ser tratada. "Ele deve ter familiares, algum tutor, então devem ajudá-lo. Isso não justifica ele andar por aí e fazer o que tem vontade. O corpo é meu."

A delegada da 1ª Deam aponta que é fundamental que nenhuma vítima deixe de procurar auxílio. "É importante que o agressor, se comprovado, saiba que ele pode e vai ser punido pelo ato. Serve de alerta de que, para toda ação, há uma consequência. Os homens precisam entender que é crime passar a mão ou ter qualquer tipo de contato de cunho sexual sem consentimento", diz Cristiane.

A frentista concorda e diz que se sentiu acolhida pela Polícia Civil. "Nós não podemos ter medo, devemos gritar, chamar a polícia. Meu pedido é para que não fiquem caladas. Em pleno século 21, acontecer isso é muito triste".

Conhecido no bairro

O acusado pela importunação sexual é morador do bairro Lomba do Pinheiro. Familiares informaram que o homem tem problemas psicológicos.

"Todo mundo o conhece por aqui, seja na localidade, seja no meu trabalho. Foi por isso que postei na minha rede social a imagem, com objetivo de alertar as pessoas para que não sejam vítimas como eu. Ele andava de noite e de dia pela rua. Em nenhum momento pensei que fosse viralizar". Devido a Lei de Abuso de Autoridade, o nome do investigado não foi informado.