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Aos 33, ela investiu R$ 150 mil em startup que vai faturar R$ 7 milhões

A goiana Juliana Alencar, 33 anos, deixou o cargo de sócia e diretora de cultura da plataforma de educação StartSe para fundar o hub de inovação W.G. Weird Garage - Divulgação
A goiana Juliana Alencar, 33 anos, deixou o cargo de sócia e diretora de cultura da plataforma de educação StartSe para fundar o hub de inovação W.G. Weird Garage Imagem: Divulgação

Caroline Marino

Colaboração para Universa, de São Paulo

14/03/2022 04h00

A goiana Juliana Alencar, 33, costuma dizer que o empreendedorismo sempre fez parte da sua vida. Aos 10 anos, morando com a família em São Paulo, ela criou o seu primeiro negócio, a Bijuca, com duas amigas, e teve um lucro de R$ 1.000,00. "Começou como brincadeira, mas vimos que havia oportunidade de vender as peças no condomínio onde morávamos, com a propaganda boca a boca entre os seguranças, mães e pais que circulavam por lá", conta. O tempo passou e Juliana acabou entrando no mercado de trabalho formal. Muito de sua escolha deu-se por conta de uma doença rara do pai, que veio a falecer. Segundo ela, trabalhar em uma empresa proporcionava mais segurança —"aquela coisa de ter plano de saúde, salário certinho todo mês". Mas o sonho de ter algo próprio e alinhado aos seus propósitos não saía de sua cabeça.

Até que, no final de 2021, ela deixou o cargo de sócia e diretora de cultura da plataforma de educação StartSe para fundar o hub de inovação W.G. Weird Garage, com investimento próprio de R$ 150 mil. Com clientes como a operadora Claro, a startup tem como objetivo ajudar empresas a se tornarerem mais competitivas na era da tecnologia. A meta, em 2022, é alcançar um faturamento de R$ 7 milhões.

"Pesquisando o mercado vi empresas com ideias parecidas, mas observei brechas que dificultavam o crescimento de muitos negócios. Decidi criar algo unindo o que aprendi nas empresas pelas quais passei aos meus ideais ", diz a empreendedora que, no ano passado, foi a mulher mais jovem da história a receber o prêmio G10 Liderança Empreendedora, homenagem às mulheres que mais se destacaram e contribuíram para a economia do país. Luiza Helena Trajano, presidente do conselho administrativo do Magazine Luiza, e a investidora Camila Farani, do "Shark Tank Brasil", fazem parte dessa lista.

Uma mulher entre muitos homens

A primeira palavra no nome da empresa de Juliana significa "estranho" em inglês, que foi como ela sempre se sentiu no mundo corporativo. "No começo da minha jornada me deparei com vários desafios por atuar em ambientes muito masculinos. Ouvia com frequência frases do tipo: 'Você sorri demais, isso não é legal', 'Não sei se reparou, mas na reunião só havia homem e você falou demais; não gostamos de ser questionados', 'Você é muito questionadora'", lembra.

Ela conta que, com isso, acabou se apagando e perdendo sua essência. "Eu me sentia deslocada do status quo. O que era minha fortaleza, questionar e dar ideias, foi se perdendo", afirma. Fora as cantadas de profissionais mais velhos.

Outro dia achei um anel que eu usava para fingir que era noiva e evitar situações desagradáveis. É muito triste pensar que muitas mulheres passam por isso.

Juliana passou por um processo de coach para retomar sua segurança e essência. "A entrada na StartSe, em que fui a primeira mulher sócia, e no ecossistema de inovação, também ajudou muito", diz. Ela percebeu o poder da diversidade e da educação para se empoderar —e ajudar outras mulheres nesse caminho. "Descobri ali meu propósito de vida, que é tornar as mulheres confiantes o suficiente para serem elas mesmas, para que assim sejam profissionais de alta performance e criem empresas bem-sucedidas", afirma.

A empreendedora busca trabalhar isso em suas redes sociais e na própria empresa. Ela conta que a W.G. Weird Garage tem a missão de levar inovação, cultura e diversidade e que se baseou muito nas empresas do Vale do Silício, polo de inovação, para atuar em três frentes. A primeira é a de consultoria para preparar grandes companhias e ajudar a estruturar startups em todos os processos culturais e de gestão. A segunda é a de educação, pilar tocado em parceria com a StartSe, para treinar e capacitar os negócios em temas como inovação, comunicação, feedback e a importância da diversidade. Já a terceira engloba conexões inteligentes, para fazer a ponte entre empresas, startups e profissionais.

Da ideia à estruturação do negócio

Para estruturar a W.G. Weird Garage, Juliana seguiu as melhores práticas para montar uma startup, como visão de mercado e bons contatos, criação de um MVP (Produto Mínimo Viável), no qual o investimento inicial é mais baixo —apenas referente aos recursos necessários para testar o projeto e adaptá-lo, se for necessário— e time e parceiros competitivos. "Uma ideia em um PPT é só uma ideia, e disso o mundo está cheio. É essencial validar essa ideia, checar se realmente tem mercado", diz. "Muitas vezes, quando você vai a campo, percebe que precisa mudar o direcionamento. Por isso, a fase do MVP é tão importante. Converse com as pessoas, mostre sua ideia, teste as possibilidades", explica.

Juliana - Divulgação - Divulgação
Juliana Alencar: 'No começo da minha jornada me deparei com vários desafios por atuar em ambientes muito masculinos. Ouvia com frequência frases do tipo: Você sorri demais, isso não é legal'
Imagem: Divulgação

Outro ponto essencial, segundo Juliana, é analisar se o produto atende realmente uma dor do mercado, resolve um problema ou torna a vida das pessoas ou das empresas melhor. "Quando seu produto ou serviço gera valor ao outro, tende a ter uma aderência muito maior, pois é necessário", afirma.

Com tudo isso alinhado, a empreendedora recomenda olhar com atenção para os interlocutores do negócio e para quem vai auxiliar no seu crescimento. O primeiro é a liderança: quem está à frente da empresa precisa ter uma mentalidade diferenciada para puxar todo time, para trazer soluções inovadoras. O segundo são os colaboradores. "É essencial trazer pessoas ao time que realmente estejam alinhadas ao propósito empresarial. Isso significa olhar além da competência técnica, observando também as soft skills [habilidades comportamentais]", diz. Ela conta que nos processos de recrutamento e seleção costuma fazer perguntas como "O que te motiva?", "O que gosta de fazer?", "Pelo que costuma ser reconhecido?". O terceiro é a governança, ou seja, criar processos, normas e rituais que guiem a forma de atuar do negócio.

"Tudo isso sempre olhando para fora —mercado, sociedade e meio ambiente—, e suas tendências; e para dentro —cultura, processos e pessoas. Em momento nenhum falei de concorrente, pois se você está olhando para o cliente automaticamente você se mantém no mercado e tem sucesso", finaliza.

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