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'Não consigo dormir', diz influenciadora de Maceió que relatou estupro

A influenciadora Duda Martins relatou, nas redes sociais, ter sido dopada e estuprada em um bar da capital alagoana - Reprodução
A influenciadora Duda Martins relatou, nas redes sociais, ter sido dopada e estuprada em um bar da capital alagoana Imagem: Reprodução

Aliny Gama

Colaboração para Universa

04/01/2022 21h01

As conversas começaram pelo Instagram. Depois de alguns meses, a influenciadora digital de Maceió Duda Martins, 24, marcou um encontro com o homem com quem se comunicava pela rede social, o auditor fiscal Luiz Campos, de Brasília, que passava férias na capital alagoana às vésperas do Réveillon. No dia 29 de dezembro, conta que o conheceu pessoalmente no bar Lopana, tomou três taças de gin com energético e, 12 horas depois, acordou no sofá do apartamento alugado por ele, sem se lembrar do que havia acontecido.

A jovem, que diz estar "assustada e com medo", afirmou em conversa com Universa que acredita ter sido dopada e estuprada. O mesmo relato foi feito em seu Instagram na noite de segunda-feira (4). A conta com as postagens, porém, foi desativada após ela publicar sua denúncia. Duda diz que recebeu um aviso da rede social sem maiores explicações.

"Ele [Campos] quer me calar, quer tirar o meu trabalho, meu sustento", afirma a influenciadora, que tinha 200 mil seguidores. "Eu não consigo dormir, sinto uma sensação de alguém em cima de mim e isso tem me assustado", relatou a jovem.

A reportagem procurou a defesa do investigado, feita pela advogada criminalista Graciele Queiroz, por telefone, mas ligações caíram na caixa postal. O texto será atualizado quando houver resposta. Queiroz comentou sobre o caso em stories no Instagram e afirmou que Duda está acusando "inocente de estupro para ganhar seguidores."

O Instagram foi procurado para falar sobre a desativação da conta, mas não respondeu ao pedido de entrevista até a publicação deste texto.

Após esta reportagem ser publicada, o Instagram enviou posicionamento a Universa dizendo que "a conta foi incorretamente removida. "Pedimos desculpas. Ela já foi restaurada", informou a rede, sem detalhar o motivo do equívoco.

Perfil deletado e ataques nas redes

Após a suspensão da conta, Duda criou um novo perfil no Instagram até reaver o antigo na Justiça. "Demorei anos para construir o que tenho até aqui. Quero que isso acabe, não sei se vou aguentar tantos ataques. Por que fazer isso com meu trabalho, meu sustento. Querem que eu não tenha voz", disse a influencer, emocionada.

A advogada de Duda, Julia Nunes, especialista em direitos das mulheres, afirmou que diversos comentários nas redes sociais têm sido feitos duvidando do relato e atacando a jovem. "Estamos monitorando todas as mensagens, e quem atacá-la será processado", diz.

Na tarde desta terça-feira (4), Duda foi ouvida pela delegada Maria Angelita de Lucena, mas nem a vítima nem a advogada podem falar sobre o depoimento.

Nunes afirma porém que o caso será tratado como estupro de vulnerável, quando a vítima não é capaz de oferecer resistência. "O agressor disse [em depoimento à polícia] que fez sexo consensual. Não é consensual quando uma mulher está inconsciente, dopada, bêbada. Isso é estupro de vulnerável e estamos esperando os laudos dos exames toxicológicos e de corpo delito", destacou Nunes.

Ela ressalta que a polícia iniciou as investigações somente depois que o caso foi exposto nas redes sociais. "Fizeram em 24 horas o que já deveriam ter feito nos quatro dias desde que o boletim de ocorrência foi registrado."

Procurada, a Polícia Civil de Alagoas negou que houve morosidade, "tanto que foi designada uma delegada especial somente para o caso". Afirmou, ainda, que a delegada não dará entrevistas para não atrapalhar as investigações.

Dores e hematomas nas partes íntimas

Ao acordar na casa de Campos, Duda contou que deu falta de seu celular e perguntou onde estava. "Ele disse que não sabia, que achava que eu tinha esquecido no táxi", diz a influenciadora. Ele foi com Duda ao bar em busca dos objetos pessoais dela e, depois, não tendo encontrado, a colocou em um táxi para ela ir para casa.

Ainda desnorteada e sem saber que tinha sido abusada sexualmente, Duda contou que na manhã seguinte ao encontro localizou o aparelho telefônico por meio de rastreio feito no notebook e descobriu que estava no local que o turista estava hospedado. Ela pediu ajuda a uma amiga e, somente neste momento, se deu conta que estava sem calcinha e estava com hematomas nas partes íntimas e pelo corpo.

Ela e a amiga se dirigiram à 1ª Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Mulher, no centro de Maceió, e o escrivão questionou "se tinha uma arma ou uma faca apontada para mim, pois se não tinha não era considerado estupro. Era só furto dos meus objetos pessoais."
Sobre a situação, a Polícia Civil afirmou que é "praxe aguardar laudos e outras provas para não incriminar investigados, mas que durante as investigações, tendo provas, o crime é qualificado".

Duda foi atendida do Hospital da Mulher, onde recebeu um coquetel contra ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), realizou exames toxicológico e de corpo delito, e recebeu assistência médica. Os resultados os exames ainda não foram divulgados. No hospital, ela foi orientada a buscar uma equipe da Oplit (Operação Policia Litorânea) para ir reaver seus objetos pessoais.

Ela e os policiais foram ao condomínio onde o investigado estava hospedado, e um homem que atendeu o interfone e disse que Luiz Campos não se encontrava. O homem ainda afirmou que a polícia só estava autorizada a entrar no apartamento se tivesse um mandado de busca e apreensão.

Defesa diz que jovem quer "engajamento no Instagram"

O auditor fiscal Luiz Campos se apresentou a uma delegacia na segunda-feira (3), onde prestou depoimento e foi liberado -- o teor do seu relato não foi divulgado porque o caso está em segredo de Justiça. Campos deletou seu perfil no Instagram.

A advogada Graciele Queiroz, que defende Campos, afirmou em seus stories "todas as provas comprovam a inocência do meu cliente". "Terrorismo penal propagado pelos juízes da internet. Esse circo em busca de engajamento tem de cessar", disse.

A Universa, o bar Lopana informou que não irá se pronunciar porque o caso está em segredo de Justiça. O estabelecimento afirmou que está dando todo suporte às investigações policiais e aos pedidos judiciais, como também o que foi solicitado oficialmente pelas partes envolvidas. O Lopana destacou ainda que "poderá se posicionar para esclarecimentos aos clientes."

Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo Whatsapp no número (61) 99656-5008.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).