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Feminicídios aumentam e casos de estupro voltam a crescer no Brasil

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Imagem: iStock

Júlia Flores

De Universa

10/12/2021 17h00

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que os feminicídios no primeiro semestre de 2021 aumentaram em 0,5% quando comparados ao mesmo período de 2020. O levantamento divulgado nesta sexta (10) também aponta que os casos de estupro voltaram a crescer. No ano passado, o número de denúncias desse crime havia registrado uma queda em relação ao ano anterior.

O levantamento aponta 666 casos de feminicídio ocorreram de janeiro a junho deste ano. No mesmo período, foram registrados 26.709 estupros contra mulheres, contra 24.664 no primeiro semestre de 2020 — o aumento é de 8,3%.

Para Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum, os dados são alarmantes. "Esse número de feminicidios do primeiro semestre de 2021 foi o maior da série histórica, iniciada em 2017", alerta.

Segundo a diretora, o número ainda deve crescer, já que o levantamento foi feito a partir de boletins de ocorrência e mais investigações sobre se os homicídios foram resultado de violência doméstica estão sendo realizadas. Fora isso, em alguns casos há erro na notificação dos crimes, e muitos assassinatos de mulheres por seus parceiros são classificados como homicídio normal.

Pandemia, crise econômica e flexibilização do porte de armas

Na opinião de Isabela Del Monde, advogada especialista em violência de gênero e colunista de Universa, três fatores explicam o crescimento no registro de casos de feminicídio: pandemia, crise econômica e políticas públicas.

"Por causa do isolamento social, muitas vítimas não conseguiram denunciar a violência doméstica e tiveram que continuar próximas de seus agressores — o que provocou a morte de algumas delas", pontua Isabela. O Fórum já havia relatado aumento nos casos de violência letal contra mulheres em 2020, quando a pandemia começou.

Del Monde também relaciona a flexibilização do porte de armas por parte do Governo Federal ao crescimento dos casos de feminicídio. "Houve aumento na circulação de armas de fogo, porque as regras de porte dessas ferramentas foram flexibilizadas", analisa.

A advogada vê a crise econômica como outro fator que pode ter influenciado esse cenário. "Claro que, em momentos de crise, há redução na qualidade de vida de mulheres, pois muito da masculinidade tóxica é centrada na não elaboração dos próprios sentimentos dos homens, que acabam externalizando-os em raiva, agressão e violência", avalia.

Aumento de 8,3% nos casos de estupro

Já o número de casos de estupro, apesar de não ser o maior da série histórica, voltaram a crescer em comparação com o mesmo período do ano passado — quando o isolamento social provocou uma onda de subnotificações do crime. Vale lembrar que o crime só pode ser registrado com o exame de corpo de delito.

Outro fator do isolamento social também provocou o aumento no número de subnotificações. "No Brasil, verificamos que mais de 50% das vítimas de violência sexual são crianças e adolescentes. Isso significa que boa parte das vítimas sequer tem condição de denunciar, pois várias vezes não entendem o que estão passando", alerta Samira. Para ela, o isolamento aproximou os vulneráveis de seus agressores e os afastou da escola, local em que muitos dos casos eram identificados.

É comum que a professora ou algum profissional da educação identifique na criança uma mudança de comportamento provocada pelo estupro - Samira Bueno

Samira avalia que a melhor maneira de enfrentar esta onda de aumento de casos de violência de gênero é com políticas públicas. "Feminicídio é um crime evitável. Ele não acontece do dia para a noite. Começa com um xingamento, uma ofensa. É um ciclo de violência que pode ser rompido quando há uma forte rede de apoio às vítimas", diz.

"Eu sobrevivi ao feminicídio"

14 anos após ter sofrido uma tentativa de feminicídio, Karina está voltando a andar - Acervo pessoal - Acervo pessoal
14 anos após ter sofrido uma tentativa de feminicídio, Karina está voltando a andar
Imagem: Acervo pessoal

Karina Ferrary sofreu uma tentativa de feminicídio aos 15 anos, quando seu então companheiro tentou matá-la. "Ele era tranquilo, mas, aos poucos, começou a sentir ciúmes de tudo o que eu fazia, inclusive de quando conversava com a minha mãe ou irmã. Isso foi me irritando cada vez mais, até que decidi teríamos uma conversa decisiva", relembra a vítima, o que comprova o ponto levantado por Samira.

Ela conta que, depois da conversa, o ex-companheiro a trancou em casa e desferiu oito golpes de facada contra a vítima. "Como no fundo da nossa casa tinha um poço bastante fundo, ele me arrastou pelo braço pelo quintal e me jogou lá. No momento em que caí, meu corpo girou e fiquei de cabeça para baixo. Com medo de que ele pudesse tacar alguma pedra ou fazer qualquer outra coisa para me machucar ainda mais, me policiei para ficar em silêncio", relembra Karina, que foi salva pela polícia no dia seguinte às agressões.

Hoje, aos 30 anos, Karina tem um filho de outra relação e é casada com uma mulher, Patrícia. Como o agressor era menor de idade na época do crime, ele respondeu ao processo em liberdade. "Nunca perdi as esperanças na vida porque sei, pela minha história de vida, que nada é impossível", disse a Universa.

Para a sobrevivente, o aumento nos casos de feminicídio é absurdo. "Parece que estamos vivendo em uma época que não existe nenhuma proteção para mulher", pontuou.

Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo WhatsApp no número (61) 99656-5008.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).