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'Sem geladeira e banho frio: meu marido e eu reformamos um barco pra morar'

Marina e Michel moraram em barcos durante 3 anos - Acervo pessoal
Marina e Michel moraram em barcos durante 3 anos Imagem: Acervo pessoal

Marina Rosa, em depoimento a Ana Bardella

De Universa

27/09/2021 04h00

"Eu e meu marido viemos de cantos opostos do Brasil: enquanto nasci em Fortaleza, no Ceará, ele é de Santana do Livramento, uma cidade do Rio Grande do Sul que faz fronteira com o Uruguai. Nos conhecemos fora do país, durante um intercâmbio universitário do programa Ciência Sem Fronteiras, em uma cidade no interior de Nova York, nos EUA. Na época, eu estava com 20 anos, cursava design de moda e ingressei em um grupo brasileiros que foi para lá estudar durante um ano e meio.

Eu e o Michel nos demos bem logo de cara: éramos os únicos designers da turma, já que as outras 12 pessoas que estavam conosco cursavam arquitetura. Caímos no mesmo dormitório e fazíamos algumas aulas juntos. Em pouco tempo, ele se tornou meu melhor amigo. Naquela época, economizávamos o máximo de dinheiro possível para viajar para outras cidades e estados dos Estados Unidos durante os feriados. Logo percebemos que compartilhávamos uma paixão imensa por conhecer novos lugares.

Depois de quatro meses grudados, começamos a namorar. Foi uma época bastante divertida, mas nosso relacionamento ficava cada vez mais sério e sabíamos que tínhamos um prazo para nos separar. Em breve, voltaríamos para nossas respectivas casas. Por isso, começamos a traçar um plano para o futuro.

"Chegamos à conclusão de que moraríamos juntos em um barco"

O casal venceu a distância e as dificuldades financeiras para realizar o sonho - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O casal venceu a distância e as dificuldades financeiras para realizar o sonho
Imagem: Acervo pessoal

Sabíamos que precisávamos terminar nossas faculdades. Ele tinha mais um ano de curso pela frente, enquanto eu tinha dois. Nosso planejamento inicial era de namorarmos à distância até que nos mudássemos para uma cidade que fosse do agrado dos dois. Como sempre adoramos o mar, cogitamos algumas opções litorâneas, mas não conseguíamos chegar a um consenso. Até que passamos a nos encantar pela possibilidade de uma vida nômade, que unisse trabalho e viagens na mesma proporção.

A opção mais lógica seria a de viver em um motorhome — uma espécie de trailer adaptado para moradia. Mas, quando nos deparamos com o exemplo de pessoas fora do Brasil que viviam em barcos, o Michel se apaixonou logo de cara. Eu fiquei bastante receosa, já que nenhum de nós entendia sobre velejar e me questionei sobre os possíveis dias de tempestade, se conseguiríamos nos sentir seguros quando o tempo estivesse ruim.

Mesmo assim, acabei pesquisando mais vídeos no YouTube e me sentindo cada vez mais empolgada. Parecia ser algo totalmente compatível com a nossa personalidade e sonhos. Logo, esta passou a ser nossa principal meta enquanto casal. No entanto, mantivemos esses planos em segredo, porque não queríamos que a preocupação dos nossos amigos e familiares se tornassem nossas preocupações também.

"Trabalhamos em cruzeiros para juntar dinheiro"

Ao voltarmos para o Brasil, iniciamos o namoro à distância. Nos falávamos sempre pelo telefone e por chamadas de vídeo e só nos encontrávamos nos períodos de férias, uma vez por ano, já que as passagens eram caras. Um ano depois, ele terminou a faculdade. Enquanto isso, acelerei meus estudos, cursando simultaneamente o máximo de matérias que consegui, a fim de adiantar o fim do meu curso em seis meses.

Como nenhum de nós tinha uma reserva financeira, sabíamos que precisaríamos juntar dinheiro para a compra do barco e decidimos que iríamos trabalhar em cruzeiros, a fim de juntar o máximo que conseguíssemos no menor tempo possível. Seria nossa primeira experiência direta com o mar — além disso, estaríamos conhecendo diferentes países do mundo. Para facilitar que fôssemos chamados para o mesmo cruzeiro, formalizamos nossa união estável.

O Michel foi o primeiro a ser chamado. Seu primeiro contrato era de oito meses de trabalho. Este foi o período mais difícil da nossa relação porque, enquanto eu terminava os estudos, ele trabalhava viajando. O acesso a internet de dentro do cruzeiro para os funcionários era pago e custava caro. Além disso, como ele estava indo para países da Ásia, o fuso horário era muito diferente e só nos falávamos por poucos minutos, durante a madrugada. Aproveitei, então, para focar toda minha energia no projeto de conclusão do curso.

Quando finalmente terminei a faculdade, pude fazer o processo seletivo também. Ele já estava no segundo contrato de trabalho, desta vez, viajando pelo Caribe e pela Europa. Sabia que seria praticamente impossível que meu primeiro contrato fosse para trabalhar no mesmo navio que ele, mas tivemos muita sorte e acabei sendo direcionada para uma vaga que havia acabado abrir, em caráter de emergência, lá. Organizei tudo e embarquei. Por causa da união estável, pudemos ficar na mesma cabine.

O trabalho exigia muito dos funcionários. Não tínhamos finais de semana — era como se todos os dias fossem uma segunda-feira. Levei quase dois meses até parar de me perder dentro do navio e me habituar com a rotina. Como estávamos muito focados em realizar nosso sonho, não gastávamos com quase nada. Nossa meta era de que ele fizesse quatro temporadas em cruzeiros e eu fizesse três. No entanto, quando ele finalizou a segunda temporada, que levou nove meses, estava exausto de trabalho e me disse que não queria mais voltar.

Então voltamos para o Brasil com metade do dinheiro que havíamos pretendido juntar e começamos a pesquisar modelos de barcos menores. A ideia era nos mudar para um deles, compartilhar nossa rotina pelas redes sociais, e aprender o máximo possível sobre o mar.

"Quando vi os modelos de barcos, pensei que seria mais fácil viver uma vida normal"

Sem geladeira durante 1 ano e meio, Marina e Michel precisaram readaptar a alimentação - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Sem geladeira durante 1 ano e meio, Marina e Michel precisaram readaptar a alimentação
Imagem: Acervo pessoal

Barcos são caros. Por isso desejávamos comprar um modelo que estivesse em condições desfavoráveis e fazer as reformas necessárias depois. Tínhamos R$ 75 mil, mas queríamos gastar até R$ 35 mil com a compra. Quando começamos a ver algumas opções, no entanto, pensei que estávamos fazendo uma besteira. Cheguei a cogitar que seria muito melhor levar uma vida considerada normal. Muitos estavam em péssimas condições, totalmente inabitáveis, e ainda assim custavam muito dinheiro.

Tivemos que mudar de planos e investir quase tudo em um barco que estivesse em bom estado. Em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, conseguimos achar um modelo perfeito e que tinha de tudo, menos geladeira. Optamos por comprá-lo e logo nos mudamos. Passamos um ano e meio organizando as compras da semana evitando a aquisição de alimentos perecíveis. Readaptamos toda a nossa rotina, até conseguirmos comprar uma. Também não tínhamos sistema de água quente, por isso nossos banhos eram todos gelados.

Passamos bastante tempo viajando por Angra, a fim de nos familiarizarmos com o mar. Já tínhamos feito alguns cursos, mas esta era nossa primeira experiência prática. Só depois de dois meses, quando estávamos mais confiantes, começamos a oferecer passeios de barco para turistas da região. Apesar do contato com outras pessoas ser bastante agradável, era uma rotina puxada, já que precisávamos faxinar o espaço e receber pessoas no ambiente da nossa casa diariamente.

Com essa atividade, conseguimos novamente juntar dinheiro e, assim que guardamos o suficiente, compramos outro barco — desta vez, um em condições bem mais precárias do que o anterior.

"Limpar o barco novo foi tão pesado que fiquei doente, de cama"

A missão era restaurar a nossa nova aquisição, mas ele estava tão sujo e mofado que cheguei a ficar doente durante as semanas que fizemos a limpeza. Foi um trabalho muito duro, mas que valeu a pena. Conseguimos reformar o que precisava e deixamos ele totalmente limpo. Com isso, vendemos nosso primeiro barco e passamos a morar de forma definitiva no segundo. Nele, continuamos fazendo passeios e produzindo conteúdos para as redes sociais e para o nosso canal no YouTube, por um ano, até maio de 2021.

Com este barco, saímos de Angra e fomos para o Rio de Janeiro. Nossa ideia era continuar com esse tipo de atividade, mas logo que chegamos, começou a pandemia de covid-19. De um dia para o outro, tivemos que parar de trabalhar. Foi um período bastante desafiador, no qual repensamos os nossos planos e definimos novos objetivos: crescer na internet e construir nosso próprio catamarã — uma embarcação maior, que é feita de um material mais resistente, capaz de nos abrigar por anos e de realizar viagens internacionais com segurança. Queremos que ele seja o mais próximo da autossuficiência possível.

"Atualmente, estamos viajando de moto pelo Brasil"

Atualmente, o casal está viajando de moto pelo Brasil - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Atualmente, o casal está viajando de moto pelo Brasil
Imagem: Acervo pessoal

Com esse objetivo definido, vendemos nosso barco restaurado, compramos uma moto e estamos viajando toda a costa litorânea do Brasil, começando pelo Sul. Ao longo da viagem, estamos parando para conhecer todos os modelos de barco que encontramos, a fim de reunir inspirações e ideias para montar o nosso próprio. Ainda temos o dinheiro dos barcos que vendemos guardados e pretendemos crescer cada dia mais nas redes sociais.

Se quero morar no mar para sempre? Não sei. Mas hoje em dia, posso dizer que o mar é bem mais calmo do que eu costumava pensar. Em quase 90% do tempo ele é um lugar de ondas tranquilas e de paz. E existe uma série de medidas de precaução a se tomar para os outros 10%, quando ele está agitado e rebelde. Graças ao mar, temos muitas histórias para contar e, por enquanto, não temos vontade de viver em outro lugar, que não seja dentro dele" Marina Rosa tem 28 anos, é designer de moda e criadora de conteúdo. É casada com Michel Icart, de 29 anos, designer de produtos.

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