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'Marcas de beleza precisam de negros na equipe e na liderança', diz autora

Giovana Xavier, autora do livro "História Social da Beleza Negra" - Robson Maia
Giovana Xavier, autora do livro "História Social da Beleza Negra" Imagem: Robson Maia

Thaís Regina

Colaboração para Universa

14/09/2021 04h00

"Para Peri, meu filho, meu melhor amigo e meu grande mestre do amor", escreve Giovana Xavier, 42 anos, para seu filho, de 9 anos, na primeira página do livro "História Social da Beleza Negra", lançado em agosto pelo Selo Rosa dos Tempos, do Grupo Editorial Record. Para ela, dar ao filho o livro concluído durante a gestação e seus primeiros foi uma honra. Inspirado pela mãe e pela avó, a obra versa sobre passado e presente, atravessado pela afirmação política, transgressora e contundente do autocuidado de mulheres negras.

Com uma trajetória acadêmica que passa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e New York University (NYU), a formação de historiadora ensinou Giovana a fugir das respostas totais, mergulhar em cenários muito específicos e se aprofundar neles. Neste caso, o destino de seu olhar era os Estados Unidos da virada do século XIX para o século XX, em um contexto de pós-abolição da escravidão sob a legislação Jim Crow, que impunha a segregação racial e perpetuava a naturalização de linchamentos de pessoas negras.

Xavier encontrou ali uma imprensa negra com pautas de educação, política e beleza; periódicos que funcionavam a partir de anúncios de produtos cosméticos direcionados clareamento da pele e à transformação do cabelo — o que, naquele momento, significava mais chances de permanecer vivo.

"Temos jornada de luta por autonomia e direito de ser quem se quer ser e criar os próprios padrões de beleza, mas caminhados de uma história de referências pesadas associadas aos valores da supremacia branca", reflete Giovana. "A história de mulheres negras é uma luta por integridade, de corpo, mente e espírito", dispara. Com mais de trinta mil pessoas acompanhando pelo Instagram sua trajetória acadêmica até tornar-se Preta Dotora (@pretadotora), Xavier entende seu ativismo científico como, além de pesquisa e análise, um espelho para uma nova geração de mulheres negras que pode sonhar.

A Universa, ela conta sobre o processo de escrita do livro, que remonta as relações entre o racismo e a indústria da beleza na virada do século XIX ao XX, período de normatização da pele branca como padrão de beleza universal.

UNIVERSA: Como e por que a pesquisa que resulta na obra "História Social da Beleza Negra" começa?
Giovana Xavier: Em 2006, era uma estudante carioca indo toda semana para Campinas com bolsa e cheia de boas perspectivas, em um governo que, a despeito dos problemas, tinha uma característica muito forte de diálogo com o movimento social e investimento na educação. Na universidade, era um tempo de muita esperança. Tinha muita gente como eu, preta e pobre, chegando na pós-graduação. À época na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vivia aquela loucura: família pobre, trabalhando para poder fazer o doutorado e eu já vinha de uma trajetória acadêmica, na UFRJ e UFF, como historiadora da história de mulheres negras.

Comecei a desenvolver muito interesse no mundo pós-abolição, me instiga: como a população negra, assinada a Lei Áurea, continuou a criar sonhos e projetos de liberdade? Conheci uma coleção de documentos que hoje tem na Hemeroteca, da Biblioteca Nacional, que se chama Jornais da Raça Negra, que são 38 jornais publicados entre 1890 e 1960. Descobri muita coisa nesses jornais, sobre formas de se organizar e agendas de reivindicações, e algo me chamou muito a atenção: os concursos de beleza para mulheres negras. Então mergulhei.

Enquanto eu mexia nesse material dos Jornais da Raça Negra, houve uma questão nevrálgica: em 2008, no meio do meu doutorado, a minha mãe e a minha avó faleceram. Fiquei muito mal, foi um momento em que eu achava que não conseguiria continuar — era doutorado, trabalho, pouca grana, luto, tudo junto e misturado. Meu orientador da época, Sidney Chalhoub, e o historiador Flávio Gomes se uniram e disseram: cara, você tem que tentar uma bolsa sanduíche para os Estados Unidos. Aquilo me parecia surreal: o que eu, do Méier e Irajá, vou fazer nos Estados Unidos? Eles ficaram em cima e foi muito importante para mim ter essa rede de apoio.

Minha mãe faleceu em 13 de janeiro de 2008 e, um ano depois, eu estava desembarcando em Nova Iorque. Entrar na NYU foi um divisor de águas. Comecei minha pesquisa no Schomburg [Center for Research in Black Culture], que é o maior arquivo de cultura negra do mundo, e a mexer na documentação das 9h às 18h. Começaram a aparecer esses anúncios de beleza, entre eles alguns referentes aos clareadores de pele e de transformação capilar. Não queria tocar nesse assunto, mas identifiquei um padrão: não é uma exceção, é um padrão da imprensa negra que se financia por publicidade cosmética, a qual tem uma narrativa de manipulação da aparência como possibilidade de afirmação racial. Mexa na sua constituição fisica para conquistar a respeitabilidade enquanto sujeito negro. Era muito sério.

Mas também, é muito comovente como você tira o julgamento contemporâneo ao pesquisar. Seria anacrônico julgar as pessoas negras da época pelo uso e estímulo ao uso de cremes clareadores. Para você, como foi tratar essa parte da pesquisa?
Como mulher negra, eu me senti conectada a mulheres negras em uma perspectiva ancestral e me vi em uma linha de continuidade de mulheres que, ininterruptamente, construíram significados de afirmação, liberdade, amor e orgulho dentro da comunidade negra, dentro do que era possível. É muito pesada a história do racismo dentro de sociedades pós-escravismo e, dentro da especificidade dos Estados Unidos com a legislação Jim Crow e a banalização da cultura do linchamento, ficou muito nítido que esses produtos eram uma ferramenta de proteção, independente se funcionam ou não.

A narrativa de clarear a sua pele em várias tonalidades e associar isso à obtenção de emprego e garantia de vida tinha muito apelo, porque fazia sentido

Eu sempre tentei pensar a legislação Jim Crow nas situações do cotidiano; por exemplo, se você clarear sua pele em duas ou três tonalidades, de repente você poderia voltar para casa sentado no ônibus depois de um dia exaustivo de trabalho — isso faz toda a diferença. A gente sempre pensa no topo da estrutura, mas e o dia a dia? Poder dividir o refeitório, bebedouro, escola. É muito maior do que o "ah, eu quero ser branco porque ser branco é legal".

Mexeu muito comigo também enxergar essas mulheres por esse lado de criatividade, autonomia. Elas criaram produtos para pele e para cabelo no quintal de casa — daí surgiram empresas, empregabilidade, renda, discussões sobre autoestima, autocuidado, extensão do amor às crianças com compartilhamento de produtos. Hoje a gente fala que autocuidado é um ato político — essas mulheres fizeram isso lá atrás, dentro de suas possibilidades. Eu acho revolucionário.

Nos Estados Unidos que a pesquisa cobre, da virada do século XIX para o XX, uma lavadeira, diarista ganhava em média 25 a 50 centavos por dia de trabalho. Esta mulher investir em um glossine, que era o maior produto da Madam C. Walker, que era uma espécie de vaselina siliconada para o cabelo e custava 25 centavos, significa que ela está apostando muito ali, metade do seu dia de trabalho. Era um investimento de afirmação, liberdade, de ter seu momento. Era o momento de fechar a porta, quando havia porta, e mexer em si própria. Naquele contexto, me sugere uma afirmação da existência.

E quais são as maiores diferenças de conteúdo da sua tese de doutorado para o livro?
Sou uma historiadora que se vê como ativista científica. A gente fala tanto sobre descolonização do pensamento, então eu tinha muita implicância quando as pessoas vinham com estudo comparativo entre Brasil e Estados Unidos. Eu não queria nem ouvir sobre comparações, queria pesquisar os Estados Unidos como mulher negra brasileira. A gente tem uma cultura acadêmica de estadunidenses pesquisarem o Brasil e o inverso não se dá da mesma maneira. Eu me tornei doutora em História dos Estados Unidos da América e, aqui no livro, pude refletir com mais leveza sobre as conexões entre Brasil e EUA.

Foi interessante perceber, no Brasil, uma história de formação da indústria da beleza negra com menos pompa e estrutura, mas que também teve um investimento muito forte em construir a ideia de mulheres negras autoras de um sentido de beleza associado à ideia de bela, recatada e do lar

Ainda assim, o mais novo, como um todo, é a possibilidade de trazer um material para o público brasileiro explicativo da história estadunidense de uma maneira livre, leve, que as pessoas se emocionam, se identificam. O livro revive histórias do Brasil, dos quintais de casa, os cuidados de avós e bisavós, o compartilhamento de produtos de beleza entre mulheres. Tenho descoberto uma quantidade incrível de famílias negras tem o dia da beleza; que é o tempo de cuidar do cabelo com mais cuidado, trançar, a presença dos pais. Considerando que é uma tese de doutorado e o país que a gente vive é de um negacionismo da ciência hoje, então a maioria da nossa produção fica na academia. Eu sinto como um presente que Oxum me confiou o abebé dela para poder registrar essas histórias que são minhas, mas que não são só minhas. Com o poder do título de doutora, poder registrar e entregar esse livro para as pessoas.

O que se pode esperar e cobrar da indústria da beleza hoje? Para que seja um lugar de maior afirmação política, em vez de opressão.
Eu espero que a indústria da beleza pratique a arte da escuta. É necessário ter profissionais negros que pensem para o mercado de beleza e ligado a essa autonomia, liberdade e protagonismo de pessoas pretas dentro das empresas. Sem isso, a gente não vai muito longe.

A gente celebra — e tem que celebrar — quando mulheres negras estrelam campanhas. É muito legal ver no metrô, na tevê; mas, é fundamental assegurar lugar nos bastidores de quem toma decisões nessas empresas

Que todo mundo leia este livro antes de formular projetos — e outras obras que existem, não estou falando só sobre mim. É tempo de trabalhar para que tenha espaço dessa escuta, o qual deve ser remunerado à altura do que esse trabalho demanda.

A gente vive em um país em que a maior parcela consumidora é a população negra, nada mais coerente do que os produtos com foco nas nossas especificidades sejam pensados por nós a partir das nossas necessidades. Esse continua sendo um grande desafio. É surreal pensar que essa é a principal demanda hoje. É difícil responder, porque não é somente estar nesses espaços, mas como estar — porque geralmente vão contratar uma pessoa negra, a qual vai sofrer uma opressão de um fardo de dar conta de todas as pautas. É o momento de pensar em outros formatos de gestão, com equipes de consultoria, juntas diversas: historiadora, jornalista, cosmetóloga? E. a partir daí, formular um produto. Acredito que coletivizar o nosso trabalho é uma garantia para que as nossas singularidades sejam respeitadas.

Você fala das conexões entre política, imprensa e estética negra. E esse foi um vínculo forte também no Brasil, certo? O que isso te sugere sobre a movimentação de mulheres negras da época?
Quando eu comecei a mexer nos jornais estadunidenses, eu já tinha muito conhecimento sobre a imprensa negra nacional -- e eu também via essa conexão: imprensa, cosmética e publicidade. Você tem um monte de concursos de beleza negra nos anos 20 em São Paulo, os quais perguntavam quais eram as mulheres merecedoras de votos -- e eu acho esse termo muito esclarecedor. Você precisa merecer o voto, que são essas mulheres associadas à narrativa bela, recatada e do lar.

Os produtos vão para essa cultura estadunidense de feminilidade respeitável para mulheres negras, um traço muito presente na imprensa paulista: a mulher que tem seu próprio produto, que lê uma determinada literatura, é assinante do jornal da sua comunidade e atua nessa comunidade como professora ou liderança política. O capítulo das Abençoadas é sobre essas mulheres que, nos Estados Unidos, declaram-se mulheres da Raça — isso é lindo. Mostra também o quanto mulheres negras têm projetos políticos. Essa é uma fala da Vilma Reis: "mulheres negras têm um projeto político para o Brasil". Dialogando com essa socióloga fantástica, acho que mulheres negras têm projetos políticos para a beleza também.

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