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"Passei batom após 20 anos": cirurgia de enxerto melhorou paralisia facial

 Ana Marília teve Paralisia Facial de Bell, enfraquecimento repentino dos músculos em um lado da face  - Kelly Bressan
Ana Marília teve Paralisia Facial de Bell, enfraquecimento repentino dos músculos em um lado da face Imagem: Kelly Bressan

Ana Marília Rando em depoimento a Manuela Aquino

Colaboração para Universa

25/04/2021 04h00

"Tinha 18 anos e morava no sul de Minas Gerais, na cidade de Itajubá. Corria tudo normal, até que um dia acordei para ir para escola, me olhei no espelho e vi algo estranho. Metade do meu rosto estava paralisado. A boca estava levemente de lado. Meu olho ardia muito, não conseguia piscar. Na hora achei estranho, mas na minha inocência era algo passageiro. Fui para escola sozinha, minha mãe nem viu.

Somente ao voltar da escola contei pra minha mãe. Como não passou, eu e ela começamos a ficar assustadas e fomos a um neurologista para ver o que tinha acontecido com o rosto. Fizemos consulta, tomografia e fui diagnosticada com paralisia por choque térmico, onde eu morava fazia bem frio, mas depois descobri que tinha paralisia facial de Bell, que acontece por conta de um vírus.

Na época, não sabia se dava para reverter e a médica indicou fazer fisioterapia e me falou que iria melhorar. Mas também disse que aquilo seria "um charme meu", o que foi bem absurdo. Eu era muito nova, adolescente, fiquei triste demais, chorava o tempo todo. Eu sempre fui muito vaidosa e aquilo me abalou.

A sorte é que tive apoio das minhas amigas e continuei a ter minha vida social, a namorar. Nunca atrapalhou para conseguir namorar mas fiz terapia para questões pontuais de relacionamento, para me fortalecer e saber que merecia mais, não precisava me sentir diminuída perante o outro.

 Ana Marília teve Paralisia Facial de Bell, enfraquecimento repentino dos músculos em um lado da face  - Marcelo Webber - Marcelo Webber
Cirurgia de enxerto ajudou Ana Marília a recuperar a autoestima
Imagem: Marcelo Webber

Mas passei a ter uma rotina diferente, minha vida também paralisou. Durante quinze anos fiz fisioterapia, acupuntura, laser, tudo o que diziam para eu fazer e não melhorava tanto. Minha vida era praticamente isso. Mudei para o interior de São Paulo, para a cidade de Araras, onde moro hoje, com minha família.

Na cidade nova, fui consultar um outro especialista que me disse que aquilo não tinha volta. Como já tinha feito muitas intervenções, resolvi parar com tudo, estava cansada.

Fui fazer Direito e cuidar da vida. Na faculdade, quando alguém me perguntava sobre, eu mudava de assunto. Na verdade, eu acabei me fechando e não dava espaço para perguntas. Eu também aprendi a não me expressar muito para não aparecer esse detalhe.

"Descobri um médico que enxertava músculo da coxa na face"

Cinco anos atrás, eu estava inquieta e passei a pesquisar mais sobre o assunto. Eu pensava que não era possível a medicina ser tão avançada e não haver nada para reverter ou amenizar o quadro. Aí, descobri um médico em Ribeirão Preto que fazia uma cirurgia que enxertava um pedaço do músculo da coxa na face. Eu quis fazer para melhorar minha qualidade de vida.

Quem tem paralisia facial sofre não somente com o sorriso, mas com o fato de o olho não fechar normalmente, por exemplo. Eu precisava dormir com um tampão e pingar colírio o tempo todo.

O complicado do procedimento foi a recuperação, fiquei três meses em casa de molho - trabalhava em um escritório de advocacia. Eu tirei o espelho do quarto, não queria me ver. Precisava drenar o local e usar andador para tomar banho, por conta da retirada do pedaço de músculo. Ao mesmo tempo que quis aquilo, tinha medo dessa nova vida que estava por vir. O resultado final só pode ser visto depois de seis meses.

Voltei à rotina, passei a caminhar. Passei a usar maquiagem, isso era inédito. Depois de 20 anos passei batom. Muitas mulheres com paralisia, como eu, evitam se pintar para não chamar atenção, atrair os olhares para o rosto. A cirurgia foi também na minha alma.

Um pouco mais de um ano atrás, eu comecei a dividir minhas experiências sobre paralisia facial e a fazer lives, com médicos. Aí, passei a receber muitas mensagens de mulheres com paralisia que se identificavam comigo. Passamos a trocar figurinhas sobre tudo, tratamentos, autoestima e uma apoia a outra. Hoje tenho também um grupo de WhatsApp com trinta mulheres segurando uma na mão da outra.

A melhora no sorriso e no fechamento do olho não tirou a paralisia e sei que ainda poderia fazer outras cirurgias, mas as sequelas fazem parte de quem eu sou. Ter a autoestima alta hoje para mim é um caminho sem volta. E vivo minha beleza, independentemente da paralisia."

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