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"Grávida magra" não é elogio: psicóloga alerta para distúrbio alimentar

Andréia Sadi no "Mais Você" de segunda-feira (5); nas redes, público fez comentários sobre participação - Reprodução/TV Globo
Andréia Sadi no "Mais Você" de segunda-feira (5); nas redes, público fez comentários sobre participação Imagem: Reprodução/TV Globo

Nathália Geraldo

De Universa

06/04/2021 04h00Atualizada em 07/04/2021 09h50

Uma fala de Ana Maria Braga sobre a forma física da jornalista Andréia Sadi, grávida de gêmeos, chamou atenção das pessoas nas redes sociais. No "Mais Você" desta segunda-feira (5), a apresentadora comentou, em tom de elogio, que Sadi estava uma grávida "magrinha".

"Com o rosto fino, nada de inchaço. Dá para dizer que uma menina dessa tá grávida de gêmos?", comentou a responsável pelo programa antes de chamá-la para uma entrevista. A jornalista está prestes a dar à luz os gêmeos João e Pedro.

A avaliação sobre o corpo de Andréia não passou despercebida por parte dos espectadores. "Achei bizarra a pergunta. 'Você tá tão magra, como conseguiu manter a forma na gestação?'", criticou uma mulher no Twitter. "Ana Maria questionando o peso da Andréia Sadi no Mais Você como se fosse a coisa mais legal do mundo", escreveu outra.

A mensagem foi replicada na chamada que permaneceu na tela enquanto as duas conversavam. "Nem parece. Grávida de gêmeos, Andréia Sadi mantém a forma". Mas, afinal, qual é o problema de usar "magra" como elogio às gestantes?

Universa conversou com a psicóloga e terapeuta familiar Isabelle Tortorella, voluntária do Ambulatório de Transtornos Alimentares/AMBULIM, do Hospital das Clínicas (São Paulo) sobre o tema. Ela alerta que declarações assim podem agravar inclusive distúrbios alimentares durante a gravidez.

"Você está linda magra!": por que elogio a gestantes é um risco?

É comum que a mudança de peso seja uma das muitas questões discutidas pelos profissionais de saúde com a gestante. O controle do peso, no entanto, quase sempre ultrapassa as paredes do consultório médico e se torna assunto para os muitos palpites e recomendações ouvidas por mulheres que estão à espera do bebê.

Tanta pressão pode gerar incômodo e, pior, problemas com a saúde emocional, física e mental: muitas grávidas têm medo de engordar o que, se tornando um comportamento obsessivo, pode ser classificado como um transtorno alimentar conhecido como "pregorexia".

A "pregorexia" (de "pregnant", grávida em inglês, e anorexia) é um comportamento ainda não reconhecido oficialmente, que pode ser agravado justamente por um "elogio" a uma grávida magra ou que teve pouca oscilação de peso, alerta a psicóloga Isabelle Tortorella. "Por isso, a recomendação é não falar do corpo da outra pessoa. Nós não sabemos o que ela está passando".

Em casos que o transtorno é identificado, a mulher deve ser acompanhada por uma equipe multidisciplinar, com psicólogo, psiquiatra e nutricionista, da mesma forma que pacientes com bulimia ou anorexia precisam. Também é preciso manter o acompanhamento do desenvolvimento do feto para avaliar as condições de saúde dele.

Para a psicóloga, a percepção de que se manter magra durante a gestação é uma característica positiva está relacionada à pressão estética que sofremos em diferentes momentos da vida para tentar nos encaixar nos moldes do que é "bonito". Na gravidez, ela aponta, a sociedade não dá trégua. "Há uma cobrança muito grande pelo padrão de beleza da mulher, que tem que ser magra inclusive quando está grávida", detalha a especialista.

Preocupação estética e de saúde

Isabelle conta que também passou por esse tipo de cobrança enquanto esperava a filha Rafaela, hoje com três meses. "As pessoas diziam que eu estava magra e me perguntavam o que eu estava fazendo para aquilo. Só que não sabiam que eu estava com diabetes gestacional, e que passava pelas privações de comida, por exemplo".

Sadi revelou durante o "Mais Você" que o problema de saúde também foi um balizador para seu peso, por recomendação do obstetra que a acompanhou. Ela afirmou ter engordado 10 quilos neste período e que manteve alimentação regrada, além de atividades como caminhadas e natação.

"Não tive diabetes e consegui segurar o peso, que era uma coisa importante porque não queria ficar muito grande. Queria ter mobilidade e disposição para continuar trabalhando."

A nutricionista Nicoli Brek, especializada em transtornos alimentares pelo Instituto de Psiquiatria, pondera que cada mulher deve priorizar a saúde e a nutrição dela e do bebê. "No período gestacional, a pessoa precisa ter equilíbrio de energia, porque não é só para ela, também é para gerar uma vida. Os nutrientes, as vitaminas, os minerais são compartilhados. Então, é necessária uma boa alimentação para isso", comenta.

Ela diz que vê pacientes desenvolvendo transtornos alimentares na gestação não só por verem os ponteiros da balança mexerem, mas por causa da ansiedade sobre o corpo pós-parto. A dica, assim, é evitar se comparar à experiência e à aparência de outras mulheres, principalmente as que aparecem nas redes sociais no pós-parto "voltando ao corpo de antes da gravidez". "É precisa tomar muito cuidado com isso, porque a gestação é uma fase de muita pressão".

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