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Gestantes também podem ter distúrbio alimentar: conheça a pregorexia

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para o VivaBem

25/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Algumas gestantes podem ter transtornos alimentares e prejudicar o desenvolvimento da criança
  • Pregorexia é um termo usado para descrever alterações de comportamentos alimentares em grávidas
  • É comum em mulheres que já tiveram algum transtorno alimentar como bulimia ou anorexia antes da gestação
  • Entre os sinais da pregorexia estão: dietas restritivas, não ganhar peso na gestação e fazer exercícios de forma excessiva
  • O pré-natal e o acompanhamento de profissionais da saúde como obstetras, psicólogos e nutricionistas ajudam a diminuir os riscos desses transtornos

A gravidez provoca muitas mudanças no corpo da mulher —físicas e emocionais. O organismo para gerar uma criança sofre alterações por cerca de 9 meses e o aumento de peso pode incomodar ainda mais algumas futuras mães. E, algumas vezes, esse incômodo pode ser um transtorno alimentar, que é mais frequente em mulheres que já tinham pré-disposição a não ter uma boa relação com sua imagem corporal.

Esse comportamento chamou a atenção dos especialistas e começou a ser chamado de pregorexia. O termo é uma junção das palavras pregnant (grávida em inglês) e anorexia. Mas, apesar de os sintomas serem citados em diversas pesquisas, ela ainda é considerada um "neo" transtorno alimentar, ou seja, ainda não foi reconhecida oficialmente.

"A pregorexia é o termo usado para descrever alterações, prejuízos, mudanças no comportamento alimentar de mulheres durante a gravidez. Esses sintomas incluem prática de dieta, mais exercício do que é recomendado, episódios de compulsão alimentar —o famoso 'comer por dois' — ou o vômito intencional", explica Ana Maria Roma, coordenadora da área de Nutrição do PROATA (Programa de Atendimento a Pacientes com Transtornos Alimentares) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Esse problema é mais comum em mulheres que já tinham algum transtorno alimentar como bulimia ou anorexia. "Na prática, não vemos gestantes que desenvolvem um transtorno alimentar durante a gravidez. Por isso, é importante ficar atento aos sinais e comportamentos da mulher, se ficam mais preocupadas ou obsessivas com o corpo ou com a comida, por exemplo", destaca Ana Carolina Pereira Costa, nutricionista do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares) do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Sinais de transtornos alimentares em gestantes

Grávida se pesando - iStock - iStock
A preocupação com o peso pode levar algumas gestantes a esse tipo de problema, principalmente quando há histórico
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Os sintomas podem variar um pouco, mas geralmente estão relacionados à forma física e ao controle do peso. Um sinal bastante importante é perceber que a gestante não está engordando e, em alguns casos, até emagrecendo.

Em mulheres com um IMC (índice de massa corporal) normal —entre 18,5 e 24,9, a recomendação é engordar de 11 a 15 quilos durante os 9 meses de gravidez. Já aquelas que estão com baixo peso podem engordar até 18 kg e as gestantes obesas devem ganhar no máximo 9 kg. Lembrando que para calcular o IMC deve-se dividir o peso pela altura elevada ao quadrado.

"É bastante comum que a família e as pessoas próximas percebam essa preocupação exagerada da grávida pela forma física, medo exagerado de consumo alimentar ou de engordar. As gestantes costumam esconder esses comportamentos, muitas não percebem que estão com o transtorno ou não relatam os sintomas para os profissionais", explica Lívia Beraldo, psiquiatra do hospital Sírio-Libanês e mestre em psiquiatria pelo IPq - FMUSP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo).

Veja abaixo alguns sinais:

  • Realizam dietas restritivas;
  • Vomitam com mais frequência;
  • Têm episódios de compulsão alimentar;
  • Levam uma rotina alimentar rígida;
  • Passam por mudanças frequentes de peso ou estão significativamente abaixo do peso;
  • Prática excessiva de exercícios físicos;
  • Uso de laxantes ou diuréticos;
  • Apresentam baixa autoestima;
  • Fazem jejum ou pulam refeições;
  • Não ganham peso com a gestação;
  • Pesam-se com frequência;
  • Comem escondidas;
  • Excluem alimentos da dieta por conta própria

Como é feito o diagnóstico

Ainda existem poucos estudos que relacionem a prevalência de transtornos alimentares em gestantes, mas estima-se que esses quadros apareçam em aproximadamente em 1% delas. Por isso, o diagnóstico pode demorar para acontecer, uma vez que exige uma investigação mais apurada dos profissionais e por não existir exames que detectem os transtornos alimentares.

"Ocorre uma relutância natural da mulher em assumir seu distúrbio. Quando não é questionada especificamente sobre hábitos alimentares e atitudes relacionadas ao ganho de peso, geralmente a gestante não costuma falar sobre isso", explica Alessandra Fernandez, obstetra da Maternidade Pro Matre Paulista.

De acordo com a especialista, deve ser realizada uma avaliação minuciosa já na primeira consulta da gestante. O obstetra precisa questionar sobre o peso, a questão com a imagem corporal, ganho de peso durante gestações anteriores, padrões e comportamentos alimentares e se ocorre a prática de exercícios físicos.

Complicações para gestantes e bebês

É muito importante que a futura mãe tenha uma rotina alimentar adequada e continue ganhando peso para ter uma gestação saudável e sem complicações. Sabe-se que as gestantes que apresentam um IMC abaixo do normal aumentam os partos prematuros e o risco de mortalidade materna.

Ter comportamentos alimentares inadequados como dietas restritas, vômitos e exercícios excessivos também atrapalham o desenvolvimento da criança. Isso ocorre porque a mãe fica desnutrida e compromete a passagem dos nutrientes essenciais do sangue materno para o feto. Além de aumentar as chances de um parto por cesariana. Os recém-nascidos podem ter alterações no crescimento e no desenvolvimento neurocognitivo.

Além disso, essas mulheres podem sofrer uma diminuição na imunidade, ficando mais suscetíveis a doenças infecciosas. Algumas podem apresentar irregularidades cardíacas, diabetes gestacional, depressão grave durante e após a gravidez e dificuldade para amamentar.

Acompanhamento profissional pode ajudar

Grávida sobrepeso  - Istock  - Istock
Imagem: Istock
Uma vez que esse transtorno alimentar é identificado as gestantes precisam ter um acompanhamento obstétrico, psiquiátrico, psicológico e nutricional. A intervenção preventiva pode ser essencial para evitar problemas também em gestações futuras.

Em relação à nutrição, a rotina alimentar deve ser adequada para promover um ganho de peso, de acordo com as necessidades de cada gestante. Além disso, a família deve estar presente, acolher e acompanhar de perto a futura mãe.

"O tratamento pode envolver psicoterapia e, em alguns casos, medicação. Além disso, o acompanhamento clínico e nutricional são imprescindíveis - paralelamente ao atendimento obstétrico.", explica Alexandre Karam J. Mousfi, psiquiatra e professor do curso de Medicina da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná.

O acompanhamento é necessário mesmo após o parto, no puerpério, pois muitas mulheres com esses transtornos alimentares que acabaram de dar a luz querem voltar ao peso rapidamente. É comum que, mesmo após o parto continuem com comportamentos inadequados em relação a alimentação, mesmo que isso cause prejuízos para a criança.

"O desafio é ajudar essas mulheres a aceitarem essas mudanças físicas que fazem parte da gravidez e do pós-parto. Por isso, elas precisam receber um acompanhamento para que tenham condições de cuidar dessas crianças e contribuir com o seu desenvolvimento", afirma Roma.

Vale ressaltar que essas mães podem afetar a forma como as crianças se alimentam. As mulheres com transtornos alimentares possuem uma preocupação constante com o alimento e imagem corporal e podem praticar restrições alimentares ou superalimentação, ou seja, alimentam pouco ou demais as crianças, prejudicando a saúde de seus filhos.

O que pode causar a pregorexia?

Provavelmente, você já ouviu a expressão "grávida fitness". Os especialistas acreditam que, além de ter predisposição, a busca incessante pelo corpo perfeito e a difusão das redes sociais podem contribuir com a pregorexia.

As famosas, blogueiras ou influencer digital que postam fotos com um corpo magro durante ou logo após a gestação podem se tornar um exemplo de comportamento positivo para as gestantes que as acompanham. Logo, essas mulheres podem traçar esse objetivo e fazer exercícios exagerados ou dietas durante a gestação ou puerpério e comprometer a sua saúde para ter o "corpo ideal" o quanto antes.

"Quanto a gestante é mais vaidosa e preocupada com a estética corporal, pior essa resistência ao ganho de peso e as alterações na forma física durante a gestação", explica Fernandez.